Uma cultura que realça valores como tradição, disciplina e solidariedade ajuda a proteger vidas e a construir uma sociedade sustentável.
Pode a cultura de um povo ajudá-lo a enfrentar tragédias, aprender com elas e superar os problemas? Sim, pode. É o que podemos depreender das sucessivas catástrofes que vêm atingindo o Japão desde a última sexta-feira (11/3).
O Japão, como boa parte do Extremo Oriente, está sujeito a terremotos e tsunâmis. Só para lembrar a história recente, um terremoto de 7,2 graus na escala Richter atingiu a cidade de Kobe, importante centro econômico japonês. Foi o primeiro a atingir maciçamente uma área urbana densamente povoada no país. O abalo durou 20 segundos, destruiu a infraestrutura da cidade, moradias, hospitais e escolas, matando 6.437 pessoas e deixando 222.127 desabrigados, que precisaram se refugiar em locais provisórios por um longo período, até suas casas serem reconstruídas.
A exatidão dos números mostra o cuidado com que o Estado japonês lida com a situação. E como aprende com elas. A tragédia de Kobe passou a fazer parte dos livros escolares e das aulas de todas as matérias curriculares, do ensino fundamental aos cursos universitários. Aos alunos das escolas fundamentais, os professores de cada matéria realçam como se deve reagir quando a terra tremer, onde buscar abrigo, a quem pedir socorro e como ajudar outras pessoas, caso não seja um dos atingidos. A mensagem que se pretende incutir em cada cidadão é a seguinte: não se pode evitar esses eventos naturais, mas é possível reduzir e até zerar as mortes e a destruição.
Essa lição foi assimilada tanto pelo Estado quanto pela sociedade japonesa e, pelos relatos que chegam até nós, vem sendo posta em prática na tragédia atual. Na sexta-feira, um tremor de 8,9 graus na escala Richter – o maior já registrado em 140 anos de medição no país –, com epicentro a 125 km da costa noroeste do Japão, provocou um tsunâmi e deslocou o eixo da Terra em 10 centímetros.
As cidades de Fukushima, Miyaki, Iwate e Ibaraki foram atingidas em cheio pelas ondas de mais de 7 metros e pelos tremores. No entanto, quase 9 milhões de habitantes foram salvos pelas medidas preventivas e pela solidariedade dos habitantes que se prontificaram a receber em suas casas os concidadãos atingidos. Até agora, foram oficialmente contabilizadas 1.627 mortes, mas esse total pode chegar a 5.000. Há 450 mil desabrigados. O terremoto no Haiti, de 7 graus, matou 230 mil pessoas.
O que faz a diferença? Primeiro, instituições confiáveis aos olhos da sociedade. Assim, quando os alertas foram lançados pelos meios de comunicação, a população acreditou. Em segundo lugar, a solidariedade. De imediato, equipamentos públicos foram postos à disposição dos potenciais atingidos. E também as casas particulares de cidadãos desconhecidos, que se ofereceram para dar abrigo.
É de se notar ainda a disciplina e o planejamento. Entre o anúncio do tremor e a formação da primeira onda gigante que varreu Fukushima, passaram-se não mais do que 15 minutos. Esse tempo foi suficiente para a população ser alertada e procurar abrigo em construções de concreto ou em prédios acima de três andares. Moradores desses locais abriram suas portas a desconhecidos. Todos conhecem rotas seguras para chegar aos refúgios, as quais, prevendo-se desastres, são bem sinalizadas.
Todos os veículos de comunicação divulgam as áreas de risco e como evitá-las. E as autoridades também põem à disposição um site e um telefone (que funcionam) para pedidos de ajuda.
Ainda sobre a educação do povo, todos sabem que não podem acender fogo depois dos tremores, para não causar incêndios por causa dos vazamentos de gás, piorando a situação. Daí as notícias que lemos a respeito de pessoas que estão ao relento ou em casas sem eletricidade, num frio próximo a zero grau.
Outro dado interessante: quando o tremor ocorreu, centenas de milhares de pessoas usavam transporte público. Seguindo as orientações já conhecidas desde a escola, ficaram sentadas em seus lugares, esperando ordens de evacuação, sem ansiedade ou quebra-quebra. E, tirando o roubo de algumas centenas de bicicletas – o único meio de transporte na destruição que se verificou –, não houve outras ocorrências, como saques ou violência, a exemplo do que ocorreu durante os recentes terremotos no Haiti e no Chile.
Os desabrigados tampouco se sentem sozinhos. Passado o tremor, começam a distribuição de água, mantimentos e cobertores, e os donativos que chegam são rapidamente distribuídos por um sistema de logística específico.
Outra diferença importante no caso do Japão é a atitude dos políticos, do primeiro-ministro aos representantes municipais. Todos se preocupam em informar a população sobre a real extensão dos eventos e as medidas adotadas, ouvindo ao vivo críticas ou sugestões.
A primeira medida de reconstrução anunciada é o investimento em mais pesquisas tecnológicas para diminuir as perdas humanas e os prejuízos financeiros. A outra é rever as já rígidas normas de ocupação do solo e as regras sobre a qualidade das construções, com o intuito de deslocar as edificações (e as pessoas) para áreas consideradas mais seguras.
Nós, no Brasil, não temos terremotos, felizmente. Mas andamos sofrendo demais com as enchentes. Deveríamos ter a humildade oriental para assimilar o máximo possível dessas lições, a fim de evitar as tragédias anunciadas de todo verão.
sexta-feira, 18 de março de 2011
Que aprendizado a tragédia do Japão nos proporciona?
quinta-feira, 17 de março de 2011
Fórum Clima discute agenda sobre mudanças climáticas
Seminário reuniu nesta terça-feira (15/3), em Brasília, empresas e governos para discutir o papel de cada um na redução dos gases de efeito estufa.
O Fórum Clima – Ação Empresarial sobre Mudanças Climáticas realizou nesta terça-feira (15/3), em Brasília, um seminário em que se discutiram as ações dos governos estaduais e federal para integrar as políticas locais com a Política Nacional sobre Mudanças do Clima (PNMC), bem como sobre o andamento dos planos setoriais, em que a contribuição das empresas é fundamental.
O encontro contou com a presença, entre outros, de Izabella Teixeira, ministra do Meio Ambiente, de Carlos Nobre, do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), e de representantes dos governos dos Estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, de ONGs e de empresas participantes do Fórum Clima.
Seminários como este vêm sendo organizados periodicamente pelo Fórum Clima como maneira de verificar as ações já adotadas para atingir a meta de redução dos gases de efeito estufa, tanto na área governamental quanto nas empresas, e aprofundar as discussões sobre temas-chaves para o sucesso das políticas sobre mudanças do clima.
No final de 2009, durante um evento semelhante, as empresas do Fórum Clima lançaram a Carta Aberta ao Brasil sobre Mudanças Climáticas, em que sugeriam medidas para regulamentar a PNMC. A principal delas, que é integrar essa política com os diversos planos estaduais, foi discutida mais detalhadamente no seminário de ontem.
Tanto as empresas quanto os representantes dos governos estaduais e de órgãos federais concordam que é preciso haver consenso e integração de metas, de indicadores e de marcos regulatórios adotados por cidades, pelos Estados e pela União. Explicando: a lei federal se compromete com a redução de até 38% das emissões projetadas até 2020. As leis estaduais assumem redução sobre emissões passadas – no caso, de 2005. É preciso harmonizar o conceito sobre o qual se construirá a proposta definitiva de redução de carbono. As mudanças do clima têm uma característica: elas não se limitam a fronteiras. Por isso, mais do que nunca, os esforços precisam ser conjuntos e combinados.
Outro ponto ressaltado pelos presentes foi a necessidade de se desenvolverem tecnologias para ajudar não só na redução de carbono como também na transição para uma nova economia, que seja inclusiva, verde e responsável. O representante do MCT, Carlos Nobre, observou que, hoje, os temas de sustentabilidade e inovação estão inseridos na pauta do governo federal. E que o ministério, por meio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), vai apoiar as inovações que reduzam emissões e também contribuam para a transição da economia. Nobre vai mais longe: ele quer que o Brasil se transforme numa verdadeira “indústria de conhecimento” sobre sustentabilidade, calcada na riquíssima biodiversidade que possuímos.
A ministra Izabella Teixeira ressaltou, por sua vez, que o esforço de todos os engajados no movimento em prol da sustentabilidade é o de colocar o tema no centro do planejamento do país. Para isso, os governos e também as empresas precisam quebrar o paradigma de que respeito ao meio ambiente, inclusão social e crescimento econômico não andam juntos.
O seminário reforçou a confiança dos presentes de que o Brasil pode ter liderança internacional na construção de uma agenda pelo desenvolvimento sustentável. O setor privado brasileiro, todavia, precisa engajar-se mais, conscientizando-se de que só tem a ganhar se o Brasil realmente consolidar-se como líder global no tema.
Se ainda há uma “maioria silenciosa” que assiste a tudo e não age, é também verdade que um grupo considerável de empresas vem alavancando o processo no governo e na sociedade, o que demonstra ampla visão de longo prazo.
O Fórum Clima é um exemplo de como a iniciativa privada já contribuiu para o avanço do tema em nosso país. Constitui o grupo de trabalho criado para acompanhar os compromissos da Carta Aberta ao Brasil sobre Mudanças Climáticas. É composto por empresas e organizações que acreditam que o setor empresarial pode dar uma contribuição decisiva para que o mundo realize a necessária transição para uma economia de baixo carbono, aproveitando novas oportunidades de negócios e reduzindo significativamente os impactos negativos das mudanças climáticas sobre o planeta. O grupo conta com a participação de 17 empresas e duas organizações apoiadoras. O Instituto Ethos é responsável pela secretaria executiva do projeto.
A Carta Aberta ao Brasil sobre Mudanças Climáticas foi lançada em agosto de 2009 por lideranças empresariais que, por meio do documento, assumiam o compromisso voluntário de reduzir suas emissões de carbono até 2020 e incentivavam o governo federal a fazer o mesmo. Com isso, o Brasil foi um dos poucos países a assumir publicamente, na Conferência do Clima de Copenhague, a meta nacional de redução de carbono de 38%, até 2020.
Por Cristina Spera (Instituto Ethos)
segunda-feira, 14 de março de 2011
Entendendo a governança corporativa
É muito comum as empresas associarem a sustentabilidade à governança corporativa. Nos últimos anos ela ganhou projeção e entrou de vez no dicionário empresarial na medida em que escândalos contábeis viraram quase uma rotina. Mas afinal, qual o seu significado e por que a proximidade com a sustentabilidade?
Uma boa definição de governança corporativa é dada pelo IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa): “sistema pelo qual as organizações são dirigidas, monitoradas e incentivadas, envolvendo os relacionamentos entre proprietários, conselho de administração, diretoria e órgãos de controle.” Traduzindo de forma simplista: é o conjunto de leis que regulamentam a forma de uma empresa ser administrada, fundamentando os princípios da transparência. Seria como o responsável por regras e procedimentos para a gestão das sociedades de capital aberto.
Entendamos a importância da governança: lembram-se do escândalo da Enron e da WorldCom, em 2001 ou 2002, se não me engano? O que aconteceu ali? Empresas de capital aberto são obrigadas a tornarem público seus relatórios financeiros. Executivos das empresas, com o objetivo de mostrar uma saúde financeira que não tinham, durante algum tempo divulgaram lucros fictícios para mostrarem perenidade nos negócios e assim manterem suas ações valorizadas.
As fraudes foram descobertas, o mercado ficou abalado, uma crise de confiança se instalou e vários culpados foram identificados, dentre contadores, escritórios de advocacia, instituições financeiras, empresas de auditoria e, é claro, os próprios executivos. Por conta do impacto negativo, em 2002 o governo americano aprovou a lei Sarbanes-Oaxley, exigindo ainda mais transparência na divulgação dos relatórios financeiros e punindo severamente os que cometessem infrações.
Mas voltando para relação da sustentabilidade e da governança corporativa. E quando uma empresa tem capital fechado? Como tratar da transparência em empresas que não são obrigadas a divulgarem seus balanços contábeis? Basta lembrarmos-nos do show de horror que são os relatórios de sustentabilidade, cuja publicação é voluntária e não auditada.
Não teria uma resposta pronta para dizer como uma empresa deve ser transparente quando ela não tem obrigação de ser. Isso vai muito mais dos valores corporativos do que um procedimento padrão. Mas de qualquer forma, independente da natureza societária, transparência é princípio básico de qualquer empresa que queira de dizer sustentável. Princípio básico, não a sustentabilidade inteira.
Vale lembrar que adotar os princípios da governança não quer dizer muita coisa para a sociedade como um todo, pois ela só trata de informações financeiras. Transparência vai muito além de colocar no site um relatório que pessoas leigas sequer entendem. Portanto, não se iludam quando aparecer grandes empresas falando que sua política de sustentabilidade é fazer uso de boas práticas de governança corporativa. Balela e greenwashing. Punam essas empresas. Governança corporativa é nada mais do que obrigação. E só.
Fonte: Blog Sustentabilidade Corporativa - Um olhar sustentável sobre o mundo empresarial
Erradicação da pobreza e vontade política das empresas
Por Sérgio Mindlin*
O governo federal tem como objetivo expresso erradicar a miséria do país e, por meio do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, está construindo um plano com políticas públicas especiais voltadas para mulheres e crianças. O foco será a ampliação da renda feminina, o aumento da oferta de serviços de públicos, como creches, pré-escola e postos de saúde, e a qualificação profissional e capacitação para o empreendedorismo.
O Executivo reconhece nas mães, mais do que nos pais, a disposição e o compromisso de zelar pela educação dos filhos e pela manutenção da estrutura familiar. Assim, desde o governo Lula a mulher vem sendo a principal destinatária das políticas sociais e assistenciais. O dinheiro do Bolsa Família, o imóvel do Minha Casa, Minha Vida e o crédito do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) ficam com as mulheres e ajudam a criar um ambiente mais favorável à mudança da condição feminina na sociedade brasileira.
Os programas especiais para erradicação da pobreza que o governo federal deve anunciar até maio vão aprofundar essa mudança e, certamente, terão efeitos também entre as camadas sociais que não são diretamente beneficiadas por essas políticas.
Na verdade, trata-se de reconhecer o que as estatísticas já apontam: nas últimas décadas, aumentou a participação da mulher em todos os âmbitos da sociedade. Ela vem ocupando mais espaço na política e na economia, tem mais anos de estudo que os homens, é maioria entre os universitários e, cada vez mais, tem a função de “chefe de família”. De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 35% dos lares brasileiros, ou 21 milhões de famílias, são chefiados por mulheres, mesmo estando casadas. Aliás, 14% dos casais com ou sem filhos têm na mulher a principal referência, afirma o Ipea.
No mercado de trabalho, a participação feminina chegou a 56,2% em 2010, de acordo com dados divulgados no final de fevereiro pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Elas também possuem escolaridade maior que a dos homens. Entre a população economicamente ativa, 17,1% das mulheres possuem curso superior completo, contra 13% dos homens.
No entanto, como também revela a pesquisa do Dieese, as mulheres continuam ganhando menos do que os homens. Em média, elas recebem 75,7% do valor pago aos homens para exercerem as mesmas funções. Para os cargos que exigem nível superior, a diferença é ainda maior: elas ganham apenas 63,8% do salário pago a eles para as mesmas funções.
Se analisarmos o perfil hierárquico das 500 maiores empresas do país, vamos verificar outro paradoxo: o Brasil que elegeu uma mulher para o mais alto cargo executivo da República não tem representação feminina significativa no alto escalão de nenhuma grande empresa do país. De acordo com a edição de 2010 da pesquisa “Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 Maiores Empresas do Brasil e Suas Ações Afirmativas”, realizada pelo Instituto Ethos e pelo Ibope, as mulheres têm 31% de representação no quadro funcional, 26,8% em nível de supervisão, 22,1% na gerência e 13,7% no quadro executivo das grandes empresas.
Entre as 500 maiores, encontram-se algumas dezenas de empresas fortemente engajadas no movimento da responsabilidade social, com ações concretas para tornar os negócios parceiros do desenvolvimento sustentável no país. Mas a representação das mulheres em nível de comando ainda é mínima.
Tanto isso é verdade que, se pedirem para alguém citar uma mulher na presidência de uma grande empresa brasileira, quem seria lembrada? Talvez Luíza Helena Trajano, do Magazine Luíza, ou Maria Fernanda Ramos Coelho, da Caixa Econômica Federal. Há também Dilma Pena, da Sabesp, Anita Harley, das Casas Pernambucanas, e Anna Christina Ramos Saicali, da B2W, atualmente a maior empresa de comércio varejista on-line da América Latina, fruto da fusão entre a Americanas.com e a Submarino.com.
Como vimos, a agenda que o governo federal está estabelecendo para erradicar a pobreza será fundamentalmente feminina, com foco na transferência de renda e ampliação de oportunidades para as mulheres. Esta é a hora, então, de as empresas fazerem sua parte e, de uma vez por todas, terem como meta a equidade de gênero. Adotar esse princípio como fator crítico de sucesso é questão de vontade política da gestão, bem como de estabelecer metas e não se desviar delas.
O Brasil caminha para ser a quinta economia global. Não pode permanecer como uma das sociedades mais desiguais do mundo. A promoção da equidade nas empresas é um passo decisivo para o desenvolvimento econômico andar junto com o progresso social.
* Sérgio Mindlin é diretor-presidente da Fundação Telefônica e presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Ethos.
quinta-feira, 10 de março de 2011
Yasuní, na Amazônia equatoriana: entre o petróleo e a preservação da floresta
Interessante como certos temas sul-americanos, tão próximos da nossa realidade, não ganham tanto espaço na mídia. Um exemplo é o debate que vem sendo travado em nível mundial a respeito do destino de uma grande área na Amazônia equatoriana que forma o Parque Nacional de Yasuní. O parque, de 980 mil hectares, fica a 250 quilômetros de Quito, capital do país, e é território dos índios Huaorani. O Parque abriga uma parte da Floresta Amazônica considerada a mais rica em biodiversidade do planeta. Ocorre que essa riqueza “verde” está assentada sobre as maiores reservas petrolíferas ainda não exploradas do Equador.
O petróleo responde por 60% do valor das exportações do país e por quase 35% da receita do Estado, mas o governo federal, com o apoio da sociedade civil organizada e das comunidades locais, vem resistindo bravamente à opção de abrir o parque para a exploração do petróleo. E o faz de maneira inovadora: quer o petróleo no subsolo em troca de compensação internacional. A ideia é patrocinar um caminho renovável para a matriz energética equatoriana e abandonar pouco a pouco a dependência de um recurso natural que é finito. O país precisa da commodity para financiar serviços sociais e infraestrutura. Por isso, pede uma compensação financeira de US$ 3,5 bilhões pelo petróleo de Yasuní. Essa quantia corresponde à metade do que o país receberia se exportasse a commodity.
A proposta busca equilibrar a intenção de proteger o ambiente com recursos para necessidades públicas imediatas, como saúde, educação, transportes e outras demandas. Põe a mudança climática na mira. A iniciativa, calcula o governo, faria com que 407 milhões de toneladas de CO2 deixassem de ser lançadas na atmosfera com a queima de 846 milhões de barris.
Lançada às vésperas da conferência do clima de Copenhague, no final de 2009, a proposta tinha glamour. O governo alemão parecia o mais interessado. Mas o resultado de Copenhague ficou muito aquém da expectativa, o governo alemão mudou de perfil partidário e a crise econômica estourou. Os governos interessados em investir o fariam via mecanismo de mercado de carbono.
O projeto está em uma fase complicada, porque não levantou a quantidade de dinheiro que esperava. Mas ainda há esperança. Em agosto do ano passado, a iniciativa Yasuní ganhou formato internacional quando foi assinado o compromisso com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).
O Pnud é quem administra o fundo para o qual, espera o governo equatoriano, a comunidade internacional irá destinar recursos para proteger a floresta e colocar o país no trilho do pós-petróleo. Com essa proposta, não só se está preservando a floresta como se coloca o Equador no caminho de um modelo alternativo de desenvolvimento.
Em valores de hoje, o Yasuní renderia US$ 7,6 bilhões nas reservas comprovadas. O governo equatoriano aportaria 50% desse valor e pede a ONGs, governos e fundações que entrem com a outra metade em um fundo que seria utilizado em energia eólica, solar, hídrica e geotérmica e nas demandas públicas urgentes.
O presidente equatoriano Rafael Correa colocou um prazo para que a proposta decole: o fundo terá que ter US$ 100 milhões até o fim de 2011. Nas contas de Tarsicio Granizo, subsecretário de Políticas do Ministério do Patrimônio Natural, até agora a iniciativa conseguiu US$ 40 milhões. A maior parte desse valor é uma troca de dívida com a Itália, desde que os recursos sigam para o fundo. Há outros US$ 3 milhões prometidos pelos governos da Espanha, da Bélgica e do Chile. A Alemanha, diz, "não indicou quando irá colocar algo no fundo. A negociação está aberta. Querem saber mais detalhes sobre o mecanismo financeiro, o certificado de garantia e a governança do fundo".
O fundo tem um comitê diretor formado por três representantes do governo equatoriano, dois dos contribuintes, um da sociedade civil e um do Pnud (este sem direito a voto). Pelas regras, se um futuro governo do país resolver voltar atrás no compromisso e explorar o petróleo do Yasuní, o Equador fica obrigado a devolver todos os recursos de quem contribuiu.
Eis um assunto que pode determinar, enfim, o caminho para o modelo de desenvolvimento sustentável que tanto buscamos.
quarta-feira, 9 de março de 2011
A sustentabilidade e o problema do lixo
Constitucionalmente falando, o lixo no Brasil é de responsabilidade das prefeituras, que oferece um serviço próprio, como o caso da Comlurb no Rio de Janeiro, ou contrata terceiros através de licitação. E isso é um problema, pois muitas vezes isso vira instrumento de barganha política, sendo alvo de corrupção descarada. Sabiam que o atual chefe da Casa Civil, quando prefeito de Ribeirão Preto, foi investigado por problemas na contratação de empresas para fazerem a coleta de lixo da cidade?
Na verdade o objetivo não é falar de questões políticas, mas uma notícia nos jornais de hoje que me causou espanto: a quantidade de lixo gerado no Carnaval. Segundo informação da Comlurb, no carnaval do Rio, apenas na Marquês de Sapucaí, a quantidade de lixo removido em quatro dias passou das 400 toneladas. Isso sem contar nas ruas repletas de blocos e de gente mal educada.
Acontece que lixo é um lixo. Segundo a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Urbana (ABRELPE), em dados referentes a 2008, 45% do lixo coletado no país vão parar em aterros controlados ou lixões. Isto equivale dizer que, diariamente, mais de 100 mil toneladas de lixo não recebem tratamento minimamente adequado.
O custo dessa gestão é altíssimo. Para se ter ideia, a manutenção de um aterro sanitário pode chegar a 300 mil reais por dia. No Rio de Janeiro, o investimento anual chega a 850 milhões de reais. Em São Paulo passa de um bilhão. E esse valor poderia ser mais baixo se não fosse uma única questão: a postura das pessoas. Na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, 37% do que é coletado pela Comlurb, é lixo retirado das ruas.
Segundo a empresa, esse tipo de coleta custa três vezes mais do que as coletas de porta em porta.
O grande problema é que a maior parte da população brasileira não tem iniciativa para a sustentabilidade. Vai de um mero jogar papel na rua até a falta conhecimento sobre como lidar com o lixo doméstico, passando pela falta cultura de preservação do meio ambiente e, muitas vezes, pela simples falta vontade de se fazer o que é certo. Assim, juntando à escassez de projetos da iniciativa pública voltados para a coleta seletiva, é possível imaginar o tamanho da dor de cabeça que isso causa.
O irônico da história, ao menos em minha visão pragmática da vida, é que esse um problema relativamente simples de ser resolvido. Educação. Daquelas bem básicas. E isso independe de classe social, cor ou credo. Rico e pobre, branco ou preto, católico, evangélico, macumbeiro ou ateu. A prática do desenvolvimento sustentável em muito tem início em uma família que ensina cidadania, direito, deveres e respeito a suas crianças.
Fonte: blog Sustentabilidade Corporativa
quinta-feira, 3 de março de 2011
Lições dos 20 anos de comércio de carbono florestal
Mais de 20,8 milhões de toneladas de gases do efeito estufa deixaram de ser emitidas graças a programas de créditos florestais desde 1990, porém esse tipo de mecanismo ainda apresenta grandes problemas como a falta de regulamentação
Muitas pessoas associam as negociações de créditos de carbono florestais apenas ao mecanismo de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD), que ficou mais em evidência depois da Conferência do Clima de Copenhague em 2009, mas desde o começo da década de 1990 já existem programas de mitigação de emissões de gases do efeito estufa baseados na preservação florestal.
Para avaliar os avanços nestes 20 anos, o relatório "Investing in Forest Carbon: Lessons from the First 20 Years” ouviu mais de 50 participantes do mercado, entre investidores, desenvolvedores de projetos, negociadores e legisladores. A pesquisa foi publicada nesta quarta-feira (3) e foi realizada por um grupo de especialistas das organizações: Katoomba Group, Ecosystem Marketplace e Forest Trends, com o apoio do Bio-Logical Capital.
O relatório identifica uma série de lições que servem para todos os desenvolvedores e explica as grandes dificuldades e oportunidades que os créditos florestais apresentam atualmente.
“Os projetos nunca são iguais, mas ao entrevistar mais de 50 participantes dos mercados ficou claro que alguns conselhos são universais, assim como os principais problemas”, explicou Katherine Hamilton, diretora do Ecosystem Marketplace.
Lições
Faça o melhor para jogar pelas regras, mesmo que as regras não sejam claras:
O comércio de créditos florestais é um mecanismo que ainda está em formação, portanto o principal desafio apontado pelos entrevistados é a falta de uma regulamentação apropriada. Estabilidade, transparência, comprovação científica, garantias legais, tudo isso é fundamental para os investidores e ainda precisa ser trabalhado pelas autoridades.
Além disso, é preciso melhorar as metodologias, para que cada empreendedor consiga seguir passo a passo o que é necessário para desenvolver um projeto. Isso evita prejuízos e ajuda a expansão do mecanismo.
Acostume-se com a complexidade
Projetos de carbono florestal podem ser relativamente simples ou extremamente complicados. Eles podem se resumir a apenas o plantio de árvores em uma única área ou requerer o envolvimento de diversos proprietários e jurisdições.
Lidar com todas as partes envolvidas - comunidades, fazendeiros, autoridades locais e nacionais - pode se revelar um grande problema. Reconhecer essa dificuldade e estar preparado com o conhecimento, inclusive jurídico, de como realizar as ações do projeto é fundamental.
Planeje corretamente e conte com especialistas
Devido às diversidades de cada sistema biológico, o desenvolvimento de projetos precisa ser acompanhado por pessoas com a formação técnica necessária para garantir o sucesso das atividades. É preciso também desde o início realizar estudos que analisem as especificidades da região e que garantam a viabilidade da iniciativa.
Cumprir esses pré-requisitos custa dinheiro, mas evita que o projeto venha a fracassar e cause um prejuízo muito maior do que os custos em preparação.
Seja conservador em todas as estimativas – de carbono, benefícios, tempo e custo
A sobrevivência de um projeto de carbono florestal depende de expectativas realistas de todos os participantes; proprietários de terras, governos, investidores e compradores. Muitos aspectos dos empreendimentos são caros e demandam tempo para gerar os resultados esperados.
O ciclo total de um projeto – do design até a geração de créditos – leva normalmente de três a cinco anos, podendo ser ainda mais longo se algum dos passos for feito de forma equivocada.
A comunicação entre os envolvidos é fundamental para que ninguém desista no meio do caminho, por isso é preciso que todos saibam o que realmente esperar do projeto.
Futuro
O relatório afirma que o mercado de carbono florestal continuará sendo um dos principais componentes do comércio internacional de créditos e que os investimentos em projetos do setor serão essenciais para reduzir as emissões.
“Se os governos não apoiarem o desenvolvimento desse mecanismo, estarão ignorando uma importante fonte de emissões e a estratégia contra as mudanças climáticas estará fundamentalmente errada”, explicou Sissel Waage, uma das autoras do relatório.
Apesar disso, os entrevistados não enxergam uma expansão significante no número dos projetos nos próximos anos a menos que haja alguma grande decisão na próxima Conferência do Clima (COP 17) no final do ano para apoiá-los.
Fonte: Instituto Carbono Brasil
quarta-feira, 2 de março de 2011
Quanto custa a transição para uma economia inclusiva, verde e responsável?
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) lançou, na semana passada, o relatório sobre economia verde, no qual aponta quanto custa fazer a transição da economia atual para a economia verde: 2% do PIB mundial, ou 1,3 trilhão de dólares, por ano. Esta quantia, segundo o Pnuma, é gasta, hoje, para pagar subsídios a petróleo, agricultura e pesca, atividades praticadas de maneira ainda insustentável, mas cujo retorno é possível “medir”, por preço.
A economia verde precisa de um “empurrão definitivo”, de modo a estimular que este investimento, em vez de ir para atividades tradicionais, seja direcionado para esta economia que nasce. É preciso, então, haver reformas políticas nacionais e internacionais, marcos regulatórios, acordos e tratados que mexem tanto na maneira de cada país lidar com sua própria economia quanto nas relações de comércio e trocas internacionais.
Na direção desta iniciativa, algumas empresas líderes e o Instituto Ethos apresentaram, no último dia 24 de fevereiro, a Plataforma por uma economia inclusiva, verde e responsável. Ela já foi comentada aqui em seus aspectos gerais. Vamos, hoje, analisá-la do ponto de vista do quanto ela pode agregar para influenciar esta mudança preconizada pelo Pnuma.
O objetivo desta plataforma é promover uma mudança no mercado e, por meio dela, ir mobilizando a sociedade e os governos para o estabelecimento de marcos legais que garantam a transição para esta nova economia, não apenas verde, mas: inclusiva, verde e responsável.
O importante a ressaltar é que esta transição precisa ser feita com progresso econômico para garantir a inclusão. A ressalva tem procedência porque, para muitos especialistas e militantes da sustentabilidade, o mundo deveria parar de crescer. Só assim seria possível diminuir a pressão do consumo sobre os recursos naturais do planeta.
O Pnuma enfatiza, no relatório, que a aplicação dos recursos nos setores adequados garantirá a transição com crescimento, redução da pobreza e preservação do meio ambiente.
Os setores apontados pelo Pnuma como estratégicos e capazes de gerar crescimento durante a transição para a nova economia são:
- agricultura;
– construção;
– pesca;
– silvicultura, referente à recuperação florestal;
– indústria;
– turismo;
– transportes;
– gestão de resíduos e
– água, com foco nas questões de saneamento.
De acordo com simulações feitas pelos pesquisadores do relatório do Pnuma, um cenário de investimento verde atingiria taxas anuais de crescimento maiores que o cenário habitual de negócios, entre cinco e dez anos.
O Pnuma ainda alerta que as medidas devem ser adotadas tanto por países desenvolvidos quanto por nações que ainda estão em desenvolvimento; e o pontapé inicial deve ser dado pelos governos, que, ao apresentar bons resultados em suas políticas públicas, incentivará o setor privado a seguir o mesmo caminho, rumo à transição para esta nova economia. No Brasil, no entanto, temos tido experiência inversa, com as empresas influenciando o governo na criação de políticas públicas, como no caso das mudanças climáticas e da biodiversidade.
Mas como os governos darão este pontapé inicial? Sob quais bases eles podem incentivar o setor privado a mudar o rumo dos negócios? As respostas a estas perguntas são fundamentais para o sucesso da iniciativa. E dependem de uma questão até agora não discutida profundamente nem pelas empresas, nem pela sociedade e nem pelos governos: a precificação dos chamados “ativos naturais”. Quanto valem os estoques de peixes dos oceanos? E as florestas nativas ainda em pé no mundo? Recuperar uma área degradada no Brasil vale mais ou menos do que outra na África ou na América do Norte? Um jequitibá de 200 anos dá mais lucro em pé na floresta ou derrubado e transformado em toras de madeira?
E ainda: como tratamos os padrões de consumo e estilo de vida? Qual padrão alimentar devemos adotar? Tem sentido utilizar um carro que gasta 90% de energia para se por em movimento e levar uma só pessoa?
Sem estas respostas, não se criarão referências que possibilitem não só os empreendedores, mas os cidadãos comuns visualizar concretamente as perspectivas do mundo novo que precisamos inventar.
Lançada a visão de futuro contida na plataforma por uma economia inclusiva, verde e responsável, a partir de agora pretendemos, aqui no Brasil, em diálogo com empresas, governos e sociedade civil, definir ações concretas para o avanço desta agenda.
terça-feira, 1 de março de 2011
Latas de aço retomam seus tempos de glória?
Aquelas latas de leite condensado, leite em pó, molho de tomate, de óleo ou de tinta que normalmente separamos junto com outros materiais recicláveis (considerando um edifício ou bairro que faz a separação do lixo) vão contar, a partir de junho deste ano, com um sistema próprio de logística reversa. E essa mudança pode mudar – para bem melhor – o valor do embalagens de aço no país.
De olho na Política Nacional de Resíduos Sólidos, a ser definida pelo governo federal até junho deste ano, o sindicato das indústrias de estamparias de metais (Siniem) e a associação da cadeia produtiva do aço (Abeaço) anunciaram a construção de um centro de 10 mil metros quadrados voltado à reciclagem das embalagens de metais. Fabricantes de latas e a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) serão os parceiros iniciais do projeto, localizado na região metropolitana de São Paulo.
A iniciativa será o pontapé inicial, no Brasil, para a organização de uma cadeia exclusiva de reciclagem de embalagens de metais – especialmente o aço. Cerca de 1,5% de todo o aço produzido no país é destinado a este fim. No entanto, ao menos 31% do aço é utilizado na construção civil, ou seja, não precisa ser reciclado.
Hoje, o retorno das embalagens metálicas às siderúrgicas ocorre de forma desordenada. Pode ser coletado por catadores e cooperativas, separado nos prédios residenciais e comerciais. Mas os preços pagos pelo material são muito baixos em função dos intermediários entre quem coleta e quem compra a sucata de aço.
Nesse esquema, 47% das embalagens de aço do país já são recicladas. Mas o foco, agora, é elevar o valor do material e remunerar melhor quem se dedica a separá-lo. Com o centro de recebimento concluído em junho, varejistas, indústria envasadora, consumidor final, cooperativas e catadores poderão negociar o aço diretamente no local. Todos receberão o mesmo valor pelo quilo da sucata: em torno de 25 centavos. Hoje, cooperativas de catadores não obtêm mais de 8 centavos pelo quilo do metal.
Os consumidores contarão com sacolas específicas para a coleta de metais, com capacidade para cerca de 60 latas. No início do projeto, elas devem ser distribuídas gratuitamente no varejo. Com todas estas medidas, a expectativa é elevar a reciclagem das embalagens de aço para 70% do total em cinco anos. No caso das latas de alumínio, o Brasil é recordista mundial em reciclagem, com um índice de 98% de reaproveitamento.

Sacola que será utilizada para separação de metais. (Foto: Divulgação)
Além do centro em construção, outros três devem ser concluídos nos arredores da capital paulista ainda até o final deste ano. O primeiro terá capacidade para receber embalagens de 2,5 milhões de consumidores. Com os quatro centros em operação, toda a sucata de aço separada na capital paulistana poderá ser reciclada. Mais de 60% das embalagens de aço produzidas no país destinam-se ao estado de São Paulo.
O maior reaproveitamento do aço também trará redução de custos para as empresas. “Os metais, aço ou alumínio, são os únicos dos materiais de embalagens 100% reaproveitáveis, e sem qualquer perda de suas propriedades”, diz o presidente do Siniem, Antonio Carlos Teixeira Alves. Uma tonelada de aço reciclado equivale a 1,5 tonelada de minério de ferro não-explorada. A medida poderia ainda elevar a participação do aço em embalagens de produtos para os quais já é usado ou em nichos em que perdeu espaço como, por exemplo, de latas de óleo.
O centro de recebimento pretende servir de referência para outros que venham a ser instalados, de forma independente, em outras regiões do país. Alguns já em operação, por exemplo, não contam com licenças ambientais.
Fonte: blog Empresa Verde
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
E se esta moda pega?
A empresa C&A mobiliza 40 de seus fornecedores para assinar, em conjunto com ela, o Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo.
A C&A, uma das maiores redes de varejo de moda do Brasil, assinou, em 23 de fevereiro de 2011, o Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo. O fato merece destaque por pelo menos dois motivos: a rede é a primeira do setor a tornar-se signatária deste compromisso voluntário do empresariado para acabar com o trabalho escravo no país; e fez isso junto com mais 40 fornecedores, que também se comprometem a monitorar suas próprias cadeias de suprimentos para erradicar essa prática dos negócios.
A adesão da C&A e de seus 40 fornecedores representa um marco no movimento do empresariado em prol do trabalho decente e um exemplo de como as empresas em geral podem lidar com esse problema, que é recorrente em vários setores da economia brasileira.
Para a C&A, essa nova atitude diante do problema começou a ser construída em 2006. Naquele ano, a revista do Instituto Observatório Social havia publicado um estudo sobre a cadeia de valor no setor de vestuário, no qual demonstrava que a C&A vendia roupas feitas por imigrantes em malharias clandestinas. O esquema apurado era o seguinte: a C&A precisava costurar as roupas que vende. Para isso, contratava malharias legalmente instaladas na capital paulista. Essas malharias, por sua vez, repassavam o trabalho para terceiros, entre os quais alguns que utilizavam a mão de obra de imigrantes clandestinos ilegais, principalmente bolivianos. Eles trabalhavam sem registro em carteira, em condições precárias e insalubres e sem a garantia de qualquer direito social.
Na época da reportagem, a C&A não aceitou conversar com o Observatório Social para expor a sua versão dos fatos. Respondeu perguntas por escrito, nas quais afirmou zelar para que a sua cadeia de fornecedores trabalhasse na mais estrita legalidade. Uma resposta que qualquer empresa daria, se pega com problema semelhante. E a C&A poderia ter continuado a agir, ou melhor, a reagir conforme as circunstâncias. Mas o fato é que os gestores decidiram fazer diferente e encarar o problema para erradicá-lo, ao menos da sua própria cadeia.
Assim, ainda em 2006, a empresa iniciou um processo interno para erradicar o trabalho análogo à escravidão, adotando várias ações. Uma das principais foi um levantamento de toda a cadeia produtiva, com o registro de todos os contratados diretos e indiretos. Chegou a 2.000 fornecedores.
A C&A criou, ainda em 2006, a empresa independente Organização de Serviço para Gestão de Auditorias de Conformidade (Socam), com o objetivo de buscar a melhoria contínua das condições de trabalho na sua cadeia produtiva. Com a Socam, a C&A tornou-se a primeira rede de varejo do Brasil a auditar toda a sua cadeia produtiva.
A empresa realiza constantemente o monitoramento de todos os seus fornecedores e subcontratados, com o objetivo de garantir que os trabalhadores tenham condições adequadas para exercer suas funções e, por outro lado, para que seja oferecido um produto íntegro aos clientes. Para isso, são realizadas visitas periódicas, sem aviso prévio, aos fornecedores e subcontratados. Além de vistoriar os locais, a Socam também orienta e apoia os fornecedores na melhoria das condições de trabalho, por meio da realização de planos de ação.
Além disso, a companhia sempre orienta seus fornecedores e subcontratados pelo que está disposto no Código C&A de Conduta para Fornecimento de Mercadorias.
Em seguida, a rede deu um passo além. Entendendo que o problema atinge toda a cadeia do vestuário e que uma andorinha só não faz verão, buscou os concorrentes e com eles articulou a Associação Brasileira para o Varejo Têxtil (ABVTex), que, em setembro do ano passado, lançou o Programa de Qualificação de Fornecedores para o Varejo. Trata-se de uma iniciativa inédita e pioneira do setor, que vai disseminar os princípios e valores da responsabilidade social empresarial entre os fornecedores e subcontratados desses varejistas. O objetivo é estabelecer um novo ambiente de negócios na cadeia têxtil, baseado na ética, na transparência e no trabalho decente.
O programa da ABVTex promove a qualificação da cadeia têxtil e auditorias para o monitoramento das práticas, dos compromissos e da gestão das empresas fornecedoras em relação aos seguintes critérios, considerados fundamentais para um bom ambiente de negócios no setor do varejo têxtil:
• trabalho infantil;
• trabalho forçado ou análogo à escravidão;
• trabalho estrangeiro irregular;
• liberdade de associação;
• discriminação;
• abuso e assédio;
• saúde e segurança do trabalho;
• monitoramento e documentação;
• horas trabalhadas;
• benefícios;
• monitoramento da própria cadeia produtiva; e
• meio ambiente.
A trajetória da C&A, da negação ao enfrentamento sério e comprometido do trabalho análogo à escravidão, vem tornando a empresa referência internacional no tema. Mas é bom lembrar que, aqui no Brasil, o esforço da C&A faz parte de outro compromisso maior, já assumido voluntariamente por 140 empresas: o do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, que a C&A acaba de assinar, junto com 40 de seus fornecedores.
Esse pacto também nasceu de ampla articulação com diversos setores da economia. Começou em 2004, quando o Observatório Social publicou em sua revista uma reportagem chamada “Escravos do Aço”, em que desvendava o uso de trabalho análogo à escravidão pelas carvoarias do norte do país, na produção do ferro-gusa que alimenta as siderúrgicas da região.
Três grandes empresas eram mencionadas na matéria. Na oportunidade, o Instituto Ethos convidou essas três empresas, entidades sindicais, o próprio Observatório Social e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) para discutir o que poderia ser feito para reverter a situação. Dessa articulação surgiu o Pacto Empresarial das Siderúrgicas do Norte do País pela Erradicação do Trabalho Análogo à Escravidão e também o Instituto Carvão Cidadão, que, entre outras atividades, realiza auditorias nas carvoarias para prevenir a ocorrência de trabalho escravo e capacita trabalhadores libertos para o mercado e o convívio social.
O sucesso desta iniciativa incentivou a OIT a mostrar ao Ethos o relatório que preparou evidenciando a existência de escravidão em outros setores econômicos. Promovendo o mesmo processo de diálogo multissetorial, o Ethos, o Observatório Social, a ONG Repórter Brasil, a OIT, o Ministério Público do Trabalho, entidades da sociedade civil e empresas firmaram, em 2006, o Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo. Por meio dele, os signatários se comprometem, voluntariamente, a monitorar suas cadeias de fornecimento, a alertar as autoridades a respeito de ocorrências de trabalho escravo e a cortar relações comerciais com empresas constantes na “lista suja” do Ministério do Trabalho e Emprego.
O trabalho análogo à escravidão ainda existe no Brasil e precisa ser erradicado. O Estado tem um importante papel para que esse objetivo seja atingido. Mas as empresas podem contribuir bastante para que essa vergonha seja suprimida de vez da sociedade. A C&A, sem dúvida, mostrou um caminho para isso.

