sexta-feira, 29 de julho de 2011

China, Brasil e as mudanças climáticas

A China anunciou há poucos dias um programa experimental para estabelecer um mercado de carbono doméstico com vistas a reduzir suas emissões até 2020. Um avanço extraordinário para um país que, na COP 15, em 2009, não economizou esforços diplomáticos para impedir que os países assumissem em bloco o compromisso de reduzir emissões.

O que esta medida tem a ver com o Brasil? O que aponta como caminho para o mundo? Qual a influência que pode ter num possível acordo sobre clima da COP 17 e sobre o desenvolvimento sustentável, na Rio + 20?

As respostas exigem uma reflexão sobre a conjuntura internacional e o papel da China e do Brasil, bem como das empresas, nesse processo. Então, vamos por partes.

Contexto internacional

A 15ª. Conferência das Partes sobre Meio Ambiente, mais conhecida como COP 15, já passou para a história por vários motivos. Realizada em Copenhague entre 9 e 20 de dezembro de 2009, ela reuniu o maior número de chefes de Estado para discutir meio ambiente, desde a Rio 92, e ficou famosa por também ter sido o momento em que a sociedade civil global mostrou sua força política. Centenas de milhares de “ongueiros” do mundo todo, de Tuvalu aos EUA, passando por Brasil e países árabes (olha aí a semente da Primavera de 2011!) foram a Copenhague e, junto com as organizações locais, realizaram manifestações públicas diárias, cobrando uma posição consistente dos governos a respeito das conseqüências do aquecimento global. Basicamente, os manifestantes exigiram nas ruas o que os governantes não conseguiram estabelecer em incontáveis plenárias e reuniões fechadas: um acordo internacional com metas de redução de carbono, diretrizes para estabelecer um mercado de compensações de emissões, um fundo internacional para financiar desde inovações até a transferência de populações afetadas pelas mudanças climáticas.

Com menos alarde, mas com igual contundência, representantes das maiores empresas – inclusive brasileiras – também se fizeram presentes à Conferência e, em reuniões informais, algumas inclusive em conjunto com ONGs, discutiram os desafios das sociedades diante das mudanças climáticas e as oportunidades de negócio que elas abrem em energias renováveis, recuperação de serviços da natureza, inovação, processos e produtos.

A COP 15 também representou uma “virada” na cobertura de imprensa que, a partir daí, passou a dar mais espaço a temas ambientais no noticiário.

Bem, mesmo assim, a COP 15 é mais lembrada pelo que ela “não foi”. Não houve o tão esperado acordo para conter as emissões de carbono em nível global. Os governos não conseguiram se entender. Ou melhor, EUA e China bloquearam qualquer chance de consenso sobre os assuntos em pauta. Ambos os países consideraram que um acordo limitante – como seria aquele de Copenhague – feria a soberania nacional deles.

Mas a COP 15 também “foi” muitas coisas. Foi, por exemplo, um divisor de águas para o Brasil que, pela primeira vez, apresentou metas de redução de emissões. O documento oficial final foi uma “declaração de intenções” no qual os 130 governos comprometeram-se com o mínimo: estabelecer ações de mitigação para impedir que as temperaturas globais subam além dos 2 graus Celsius até 2050. As metas sugeridas são tímidas, se comparadas com as necessidades apontadas pela ciência da mudança climática. Com esses dois graus, vale ressaltar, os países-ilha, como Tuvalu, tendem a desaparecer. O que fazer com a população? Ainda não há resposta. 

No entanto, a aceitação desse mínimo indicou, ao menos, a “vontade” dos governos – principalmente EUA e China -, de encarar o problema do aquecimento global. Até pouco antes da COP 15, no Fórum Econômico de Davos, em janeiro de 2009, a própria China – já na época a maior emissora de carbono do planeta - afirmava que o aquecimento global era um “entrave” que os industrializados “inventaram” para impedir o crescimento econômico do país.

A COP 15 também representou a consolidação dos “emergentes” como “players” importantes na geopolítica internacional. Com destaque para o Brasil. Lula, na época presidente, foi uma das “estrelas” do evento. Fez todos os esforços para que EUA, China e Índia aceitassem metas mais ousadas e, quando percebeu que seria inútil continuar tentando, fez um discurso emocionante no plenário dos chefes de Estado, destacando que a discussão na COP 15 não era apenas sobre clima, mas de um rearranjo internacional que garantisse desenvolvimento e oportunidade iguais para todos os países e todas as pessoas do planeta.

Contexto Nacional


Lula também enfatizou que o Brasil não ia “barganhar” as metas de redução que já assumira unilateralmente e que não precisam de dinheiro externo para ser atingidas.
De fato, o Brasil anunciou antes da COP 15 que iria reduzir suas emissões em até 38% até 2020, aprovou a Política Nacional de Mudanças do Clima no fim de 2009 e sua regulamentação no início de 2010.

As empresas brasileiras do Fórum Clima, lideradas pelo Instituto Ethos, tiveram um papel decisivo nessa tomada de decisão. Em 25 de agosto de 2009, durante o seminário “Brasil e as mudanças climáticas: oportunidades para uma economia de baixo carbono”, executivos de algumas das maiores empresas do país assumiram o compromisso de reduzir as emissões de carbono de suas companhias. Ao mesmo tempo, apresentaram diversas sugestões de ações ao governo federal para o Brasil avançar na agenda rumo a uma economia de baixo carbono e, com isso, permitir às empresas planejar suas ações no mesmo sentido. Essas sugestões e compromissos foram reunidos num documento denominado “Carta Aberta ao Brasil sobre Mudanças do Clima”, que foi entregue ao Ministério do Meio Ambiente e à Presidência da República.


O governo federal, então, em outubro, anunciou oficialmente as metas de redução de carbono, enviando ao Congresso o projeto de lei que se transformaria na Política Nacional de Mudanças do Clima. Na ocasião, foi o único país a fazer isso.

As empresas signatárias da Carta constituíram um grupo de trabalho a que chamaram de Fórum Clima que funciona até hoje e tem, entre seus objetivos: monitorar os compromissos assumidos pelas signatárias da Carta e apresentar novas sugestões aos governos para aperfeiçoar as políticas nacional, estaduais e municipais de mudanças do clima.

Essas ações de empresas e de governos puseram o Brasil na vanguarda do combate ao aquecimento global. Até a China anunciar o seu mercado de carbono experimental, no início da semana. O que muda a partir daí?

Brasil x China: o que podemos aprender

O plano chinês de reduzir as emissões inclui um aumento das tarifas de energia para as indústrias de alto consumo, assim como vantagens fiscais a projetos de conservação energética. 

Haverá, também, incentivos às instituições financeiras chinesas para que invistam em novas energias, em um país que já lidera mundialmente o investimento em renováveis. Paralelamente, o governo vai desencorajar o crescimento excessivo de setores muito intensivos em energia. 

O governo chinês também fixou como metas: reduzir entre 8% e 10% suas emissões de poluentes no período 2011-2015; aumentar para 11,4% o uso de combustíveis não fósseis como fontes de energia (embora carvão e petróleo continuem predominando); e reduzir em 17% a intensidade de carbono (emissões de CO2 divididas pelo PIB) na economia. 

Catástrofes ambientais, problemas de segurança alimentar e outros conflitos relacionados à degradação dos ecossistemas nesse país têm causado insatisfação e revolta na população. Por isso, as autoridades resolveram agir e, assim fazendo, contribuíram para avançar a agenda de compromissos de governos com vistas à Rio + 20.
O Brasil, que desde a COP 15, ocupava uma posição de destaque em relação aos temas ambientais, perde agora alguns pontos. Por quê?
Porque a Política Nacional de Mudanças do Clima ainda não saiu do papel. Não há regras claras para o estabelecimento de um mercado de carbono: quem deve regular esse comércio, como o crédito deve ser tributado pelo Estado e contabilizado nos balanços das empresas.
Também não há política fiscal que estimule (ou desestimule) setores econômicos, que incentive a inovação para a sustentabilidade e os empregos verdes.
Pior: vivemos um retrocesso ambiental, com o aumento do desmatamento – a grande causa de o Brasil ser considerado um dos maiores emissores de carbono do mundo – e a perspectiva de aprovação de um Código Florestal que não pune quem desmatou e ainda promove aumento da área sem preservação em regiões de florestas nativas. 

Tudo isso às portas da Rio + 20. A expectativa do mundo é que o Brasil, pelas atitudes adotadas em 2009 e por sediar a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável em 2012, seja referência em temas socioambientais e traga propostas que sirvam de diretrizes globais para e estabelecimento de um modelo de desenvolvimento sustentável que enfrente as mudanças climáticas com crescimento econômico, inclusão social e equilíbrio ambiental. 

O que é preciso fazer para recuperar o terreno perdido?
Tirar do papel a Política Nacional de Mudanças do Clima é uma das ações necessárias. Para isso, o protagonismo das empresas pode, ainda uma vez, ser decisivo.
Ethos, entidades e empresas do Fórum Clima entregam ao governo federal recomendações para integrar políticas de mudanças climáticas

Na próxima segunda-feira, dia 1º de agosto, os integrantes do Fórum Clima – Ação Empresarial sobre as Mudanças Climáticas tem audiência com a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, para entregar um documento contendo recomendações para aperfeiçoar a Política Nacional de Mudanças do Clima, tais como: uniformizar as políticas nacional, estaduais e municipais de mudanças climáticas; adotar linhas de crédito favoráveis a empresas que emitam menos carbono; definir metodologia padrão para os inventários de emissões de carbono; realizar reforma fiscal no sentido de promover a economia de baixo carbono; e construir os planos setoriais de redução de emissões de carbono.

As recomendações foram discutidas e aprovadas durante um seminário que o próprio Fórum Clima realizou em Brasília, em 15 de março deste ano, e que contou com as presenças da própria ministra Izabella Teixeira, de Carlos Nobre, secretário no Ministério da Ciência e Tecnologia, de secretários estaduais de Meio Ambiente de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, bem com de representantes do Ethos, das empresas e entidades que compõem o Fórum Clima.
O Fórum Clima – Ação Empresarial Sobre Mudanças Climáticas é um grupo de trabalho constituído para acompanhar os compromissos que as empresas signatárias da Carta Aberta ao Brasil sobre Mudanças Climáticas assumiram, entre os quais reduzir emissões no próprio negócio e na cadeia produtiva.
Fazem parte do Fórum Clima o Instituto Ethos, o Fórum Amazônia Sustentável, a Única e dezoito empresas: Alcoa, Andrade Gutierrez, Bradesco, Camargo Corrêa, CBMM, CPFL Energia, Construtora OAS, Fibria, Grupo Pão de Açúcar, Grupo Carrefour, Natura, Odebrecht, Polimix Concreto,Samarco, Suzano, Vale, Votorantim, Walmart Brasil

Conclusão

O primeiro passo, e mais corajoso, de enfrentar os problemas do aquecimento global, o Brasil já deu e nisso foi pioneiro: estabelecer metas de redução de carbono numa legislação específica. O que precisa, agora, é “fazer”.

As sugestões encaminhadas pelo Fórum Clima ao Ministério do Meio Ambiente indicam uma parte do “fazer”. Mas, é preciso criar uma “agenda” que vá além dos temas de mudanças do clima e aponte para a transição a uma nova economia: includente, verde e responsável.

Uma parte dessas propostas estará sendo discutida nos dias 8 e 9 de agosto próximos, durante a Conferência Ethos 2011. Além da agenda que será debatida com membros do governo, de ONGs, academia e empresas, a Conferência também vai reunir propostas para elaborar um documento que será apresentado durante a Rio + 20.
Empresas, governo e sociedade juntos podem construir um país e um mundo mais justo e sustentável.

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quinta-feira, 28 de julho de 2011

Paulo Itacarambi comenta: “Cor da pele ainda influencia carreiras no Brasil”

Até quando as lideranças empresariais do país vão aceitar que a raça ou a cor da pele continuem interferindo na carreira profissional dos brasileiros e brasileiras? 
Pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com 15 mil pessoas em cinco Estados e no Distrito Federal mostra que o trabalho é o local onde os brasileiros mais sentem a influência da raça ou da cor da pele sobre suas vidas: 71% dos entrevistados avaliam que esse fator interfere na carreira profissional.

Os Estados pesquisados foram Amazonas, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Paraíba e São Paulo, além do Distrito Federal. Neste último, aliás, 86,2% dos entrevistados consideram que a cor da pele interfere no trabalho, a maior porcentagem entre as unidades da federação pesquisadas. São Paulo vem logo a seguir, com 72,6%, e depois o Mato Grosso e a Paraíba (71,7%), o Rio Grande do Sul (65,6%) e o Amazonas (54%).

O resultado dessa pesquisa é importante porque os próprios entrevistados informam que percebem o preconceito racial no espaço social que mais envolve o cotidiano do cidadão adulto: o trabalho. Essa percepção confirma o que para muitos brasileiros era uma afirmação “radical” e “sem base”: o Brasil ainda é um país preconceituoso e está longe de promover uma verdadeira integração racial.

Junto com a falta de oportunidade no mercado de trabalho, a questão da violência também veio à tona nessa pesquisa: depois da carreira, a situação na qual a cor da pele mais interfere, segundo os entrevistados, é na relação com a Justiça ou com a polícia.

Se há um lado “positivo” nesse estudo é que, pela primeira vez, o IBGE preocupou-se em dar um recorte de raça mais aprofundado nos levantamentos demográficos que faz. Com isso, a sociedade pode refletir sobre os resultados e encontrar os caminhos para superar o preconceito racial, uma chaga que permanece no armário da sociedade brasileira desde a abolição da escravatura.

Superando obstáculos
A pesquisa Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 Maiores Empresas do Brasil , realizada pelo Ethos e pelo Ibope, mostra que houve avanços muito lentos na inclusão racial nas empresas, entre 2003 e 2010. No nível executivo, os negros ocupavam 1,8% dos cargos nas 500 maiores em 2003 e, em 2010, 5,3%. No nível gerencial, os índices evoluíram de 8,8% para 13,2%. Nos quadros de supervisão, a participação subiu de 13,5% em 2003 para 25,6% em 2010. No quadro funcional, a evolução foi de 23,4% para 31,1%. Observe-se que os negros são 46,5% da população economicamente ativa do Brasil.

Adotar a inclusão racial como estratégia de negócio é uma questão ética e social para as empresas: todas as pessoas precisam ser respeitadas e todas precisam ter oportunidades para desenvolver seu potencial.

Algumas organizações já estão nesse caminho há mais de uma década e declaram resultados positivos no ambiente de trabalho e mesmo no desempenho do negócio. São esforços solitários, por assim dizer, já que dependem mais da vontade política das lideranças do que de esforço integrado de um grupo de companhias ou de um setor da indústria.

O programa da Febraban e dos bancos
Os bancos estão empenhados como setor a promover uma inclusão racial que não só traga reflexos na representação funcional das instituições, mas gere impactos na sociedade. Por isso, a a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) iniciou há quatro anos o Programa de Valorização da Diversidade, com foco não só na inclusão de negros, como também na de mulheres e de pessoas com deficiência.

O programa fez um levantamento das práticas já adotadas pelos bancos e a cultura de cada um sobre os temas raça, gênero e deficiência. Também realizou um censo entre os bancos para aferir a participação dos negros, das mulheres e das pessoas com deficiência nos quadros funcionais das instituições. Em 2007, ano do censo, os negros representavam 19% dos 462 mil funcionários do setor.

De posse dessas informações, a diretoria da Febraban constituiu uma Comissão de Diversidade, que passou a sugerir ações e diretrizes para os bancos atuarem internamente, enfrentando os obstáculos de acordo com a cultura de cada um.

De modo geral, a Febraban sugere que estratégias consistentes de inclusão precisam englobar:

• discussões prévias com os funcionários para explicar o programa de inclusão;

• implantação gradual em áreas específicas;

• avaliação transparente dos resultados alcançados; e

• apoio técnico de entidades especializadas, se for o caso.


A Febraban, em acordo com os bancos, reserva 10% das vagas de estágio do setor para os alunos do Programa Universidade para Todos (ProUni). Também mantém um site de recrutamento que centraliza as vagas de todo o setor bancário, com filtros que permitem mapear os candidatos por raça, localização geográfica, formação, gênero, idade e eventual deficiência.

O censo bancário ainda não foi atualizado, mas dados analisados a partir desse site dão conta de que as contratações de negros aumentaram 70% entre os bancos que utilizam esse serviço, nos últimos quatro anos.

O caso do Itaú-Unibanco
Eleito o banco mais sustentável do mundo pelo jornal britânico Financial Times, o Itaú-Unibanco tem um programa voltado para afrodescendentes desde 2005, anterior, portanto, ao projeto da Febraban. É um programa de trainees feito em parceria com a Unipalmares que dura dois anos e capacita os participantes a atuar no mercado de serviços bancários e financeiros. Já foram constituídas sete turmas e contratadas 179 pessoas (60% dos participantes). Aqueles que não foram efetivados conseguiram bons empregos em outras empresas, pois o processo de treinamento e capacitação qualifica esses ex-estudantes, tornando-os profissionais atraentes para o mercado.

Estabelecer metas reais para a inclusão racial e encetar esforços para atingi-las não é um “bicho de sete cabeças” para nenhuma empresa. O retorno existe. Pesquisas como a Akatu-Ethos (Responsabilidade Social das Empresas - Percepção do Consumidor Brasileiro)  mostram que a sociedade reconhece a companhia que abraça um problema social como sendo do “seu” negócio e adota ação para resolvê-lo.

O que não se pode mais aturar é a indiferença das lideranças em relação a males tão tristes quanto o preconceito racial e a exclusão social. Até quando os executivos vão continuar pensando que a falta de afrodescendentes nas empresas não é com eles?

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quarta-feira, 27 de julho de 2011

Igualdade de gênero é base do desenvolvimento sustentável

Relatório da ONU Mulheres demonstra que os países campeões em desigualdade de gênero têm baixo índice de desenvolvimento humano. 
A ONU Mulheres, entidade da ONU dedicada à promoção da igualdade de gênero e ao empoderamento das mulheres, lançou há duas semanas seu primeiro relatório global: O Progresso das Mulheres no Mundo: em Busca da Justiça. O documento demonstra que a persistência das desigualdades entre gêneros é o maior entrave ao desenvolvimento humano nos países. Essa desigualdade, segundo a ONU, chega a provocar perdas de até 85% no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

Em que pesem os avanços obtidos no século XX, a ONU considera que as mulheres continuam sendo discriminadas em todo o mundo. Eis algumas desigualdades de gênero apontadas pela ONU como responsáveis pelo baixo índice de desenvolvimento humano dos países.

No local de trabalho:
• Em 117 países há leis sobre igualdade de remuneração. Na prática, entretanto, as mulheres ainda ganham até 30% a menos que os homens em alguns deles. As mulheres também realizam uma quantidade maior de trabalho doméstico e não remunerado em todas as regiões;
• No mundo, 53% das mulheres trabalhadoras (600 milhões no total) estão em empregos precários, como o trabalho autônomo ou não remunerado em empresas familiares. Geralmente, elas não contam com a proteção das leis trabalhistas.

Na vida política e pública:
• Existem fortes evidências de que, em países como Ruanda, Nepal e Espanha, uma maior presença feminina no parlamento acelera as reformas para os direitos das mulheres. Contudo, a proporção de mulheres nesses espaços ainda é inferior a 30% na maioria dos países.

O relatório assinala que as leis, quando empregadas adequadamente, estabelecem as bases para a mudança de atitudes e da situação da mulher na sociedade. Segundo o texto, foram registrados progressos graças aos esforços dos indivíduos, da sociedade civil e dos governos para o empoderamento econômico e político das mulheres. Mudanças nas legislações, incluindo as garantias de igualdade de remuneração e a adoção de cotas parlamentares, garantem que as mulheres conheçam seus direitos e possam exigi-los.

Há casos históricos que têm acelerado a reforma de leis e a mudança de atitude em relação às mulheres. Como o ocorrido com a biofarmacêutica brasileira Maria da Penha Maia, que sofreu duas tentativas de assassinato por seu marido, o professor universitário Marco Antônio Herredia – a primeira por arma de fogo, que a deixou paraplégica, e a segunda por eletrocução e afogamento. Ela levou o caso à Corte Interamericana de Direitos Humanos, o que resultou na adoção de uma legislação mais forte no Brasil contra a violência doméstica, simbolicamente chamada de Lei Maria da Penha.

Outro exemplo é o de Unity Dow, ativista pelos direitos humanos de Botsuana e primeira mulher a exercer a função de juíza em seu país. Unit pediu autorização para transmitir sua cidadania aos filhos, cujo pai era estrangeiro. Ganhou a ação e, desde então, pelo menos 20 países africanos reformularam suas leis para permitir que mulheres passem sua cidadania para os filhos.

Contexto nacional
A aplicação da Lei Maria da Penha pela Justiça brasileira tem promovido a diminuição dos casos de violência contra a mulher? Ainda é cedo para avaliar, porque a mudança de comportamento (e de mentalidade) leva mais tempo para ocorrer. De qualquer forma, é correto afirmar que a situação da mulher no Brasil vem melhorando, embora ainda haja muito a avançar. A eleição de uma presidenta, por exemplo, tem causado impacto nas empresas.

Há algumas semanas, o Jornal da Tarde, de São Paulo, noticiou que se ampliou a oferta de vagas gerenciais para mulheres acima de 40 anos, decorrência de um possível “efeito Dilma” no mercado de trabalho. Isso significará que as mulheres terão a mesma representação que os homens nos cargos? Receberão, pelo mesmo trabalho, salários iguais? Ainda não é possível medir esse impacto.

Pelo relatório da ONU Mulheres sobre igualdade de gênero, o Brasil ocupa o octogésimo lugar entre 138 países pesquisados. A nota brasileira é 0,631 (quanto mais perto de 1, pior o desempenho). Isso significa que o crescimento econômico ainda não se traduziu em oportunidades para as mulheres, não só no mercado de trabalho, mas no acesso a serviços públicos de qualidade.

É importante ressaltar que, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres possuem escolaridade maior do que a dos homens. Nem assim, todavia, aparecem as chances de melhoria via trabalho e renda. Não por acaso, o foco dos programas sociais dos governos tem sido a mulher. Também não é à toa que as discussões sobre desenvolvimento sustentável destacam a prioridade que deve ser dada às questões de gênero.

Rio+20
Essa prioridade poderá ser traduzida em propostas do país para a Rio+20, a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável que vai se realizar no Rio de Janeiro, no ano que vem. É chave para o Brasil alcançar a igualdade de gênero, porque dessa igualdade depende a superação da miséria e depende também a construção de um país com oportunidades para todos.

A Rio+20 está cercada de expectativas positivas. Governos e sociedade civil esperam que essa conferência estabeleça diretrizes que alavanquem o desenvolvimento sustentável. Numa reunião preparatória ao encontro, realizada em janeiro, na sede da ONU, os presentes apontaram o maior empoderamento das mulheres como fator de avanço do desenvolvimento sustentável. O risco é que esse empoderamento não se reflita em maior participação da mulher na política em geral e, de maneira específica, na construção de um modelo de desenvolvimento que atenda as demandas de igualdade e justiça para as mulheres.

Assim, a sociedade brasileira e as organizações que lutam pelos direitos das mulheres têm a chance histórica de colocar o “feminino” como eixo fundamental da conferência.

Por Jorge Abrahão, Cristina Spera e Benjamin S. Gonçalves (Instituto Ethos)

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segunda-feira, 18 de julho de 2011

UniEthos cria curso de Relacionamento com Stakeholders

O UniEthos promove, no dia 2 de setembro de 2011, o curso Relacionamento com Stakeholders, no formato “Turma Aberta” ou “In Company”, para que profissionais de empresas compreendam o propósito dos processos de relacionamento com stakeholders, e de que maneira estes se relacionam com a gestão socialmente responsável.  
O curso tem como objetivo propiciar a reflexão e aprofundar os seguintes aspectos:
- O propósito dos processos de relacionamento com stakeholders e de que maneira estes se relacionam com a gestão socialmente responsável;
- Como identificar e mapear os stakeholders;
- Metodologias de relacionamento de stakeholders que possam servir de referência para empresas na solução de questões socioambientais complexas;
- Que elementos fundamentais devem ser considerados no relacionamento com stakeholders para garantir a efetividade do diálogo;
- Como podemos ampliar os espaços de diálogo e relacionamento no sentido estratégico da gestão dos relacionamentos, possibilitando iniciativas tanto de prevenção de riscos como de inovação de processos e produtos.

SERVIÇO
O quê: Curso “Relacionamento com Stakeholders”
Quando: 2 de setembro de 2011
Horário: Das 9h00 às 18h00
Local: São Paulo (SP)
Investimento: R$ 1.080,00
Descontos: 20% para associados ao Instituto Ethos e parceiros; 5% para inscrições em mais de um curso; e 5% para grupos acima de três pessoas. Esses descontos são cumulativos;
Inscrições: No site www.uniethos.org.br. As vagas são limitadas;
Mais informações: Pelo e-mail atendimento@uniethos.org.br ou diretamente pelo link http://uniethos.tempsite.ws/2009/12/relacionamento-com-stakeholders/

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quinta-feira, 14 de julho de 2011

Mais pobres ficam para trás na corrida pelos ODM

O Relatório dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio 2011, lançado hoje pelo Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, diz que há razões para celebrar. O mundo está no caminho para alcançar a meta de redução da pobreza, teve queda na mortalidade infantil e mais de um bilhão de pessoas ganharam acesso a melhores fontes de água potável. O progresso, no entanto, permanece desigual entre e dentro dos países.

América Latina e Caribe, por exemplo, tiveram avanços no combate à fome e na sobrevivência de crianças. Em contraste, a região pode não cumprir o objetivo de oferecer educação primária universal até 2015. A matrícula na escola primária aumentou ligeiramente, de 93% em 1999 para 95% por cento em 2009.

A sustentabilidade ambiental é outra meta em atraso. A América do Sul continua mostrando a maior perda líquida de florestas, apesar do desmatamento diminuir em nível global. A região também perde para a redução na taxa de pobreza, que até 2015 deve cair para menos de 15% em todo o mundo.

Progresso desigual

“O progresso tende a ignorar aqueles que estão nos patamares mais baixos da hierarquia econômica ou são desfavorecidos de alguma maneira por causa de seu gênero, idade, deficiência ou etnia”, disse Ban. “E as disparidades entre as áreas rural e urbana permanecem assustadoras.”

Ser pobre, do sexo feminino ou viver em zonas de conflito aumenta a probabilidade de uma criança ficar fora da escola. Entre crianças com idade de escola primária que não estão matriculadas, 42% – 28 milhões – vivem em países pobres afetados por conflitos.

“Os ODM já ajudaram a retirar milhões de pessoas da pobreza, a salvar as vidas de inúmeras crianças e a assegurar que elas possam ir à escola”, disse Ban. “Ao mesmo tempo, o Relatório mostra que ainda temos um longo caminho a percorrer”.

O saneamento básico é outro motivo de preocupação. Mais de 2,6 bilhões de pessoas ainda carecem de acesso a banheiros. Na América do Sul, um residente urbano teve quase duas vezes mais probabilidade de ter acesso à infraestrutura de saneamento básico do que um residente rural, revela o documento.

Acordados na Cúpula do Milênio da ONU, em setembro de 2000, os oito ODMs estabeleceram em todo o mundo objetivos para reduzir a pobreza extrema e a fome, melhorando a saúde e a educação, o empoderamento da mulher e assegurando a sustentabilidade ambiental até 2015.

(ONU Brasil)

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quarta-feira, 13 de julho de 2011

Walmart e o programa Sustentabilidade de ponta a ponta

O Walmart Brasil apresentou hoje as dez empresas líderes em seus segmentos que participaram da segunda edição do programa Sustentabilidade de Ponta a Ponta, uma parceria entre Walmart e seus fornecedores para aplicar a visão de ciclo de vida para reduzir os impactos ambientais e melhorar os produtos.

Contexto – o que é o Programa Sustentabilidade de ponta a ponta

Desde 2005, o Walmart Brasil adotou a sustentabilidade como parte integrante do negócio e em 2008, iniciou o projeto End-to-end: Sustentabilidade de ponta a ponta, iniciativa que engloba o envolvimento de seus parceiros comerciais. Eles têm sido estimulados a buscar soluções que minimizem os impactos negativos da cadeia de valor e a promover mudanças para a sustentabilidade socioambiental da cadeia como um todo.

Para estabelecer os padrões de sustentabilidade e avaliá-los em cada inovação desenvolvida pelos parceiros, a Walmart conta com a participação do Centro de Tecnologia de Embalagem (Cetea), ligado ao Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL). O Cetea faz o acompanhamento de todas as empresas, com o objetivo de garantir a qualidade dos dados, a legitimidade do projeto e a metodologia uniforme de avaliação.

Na primeira etapa do projeto, além da equipe de marcas próprias do Walmart, nove parceiros comerciais aceitaram o desafio. O objetivo foi demonstrar que é possível desenvolver produtos e processos mais sustentáveis em grandes, médias e pequenas empresas.

Nesta segunda edição, foi escolhido como indicador de melhoria a redução das emissões de gases de efeito estufa, tendo como base de cálculo o GHG Protocol, uma metodologia cada vez mais utilizada por empresas e governos para quantificar, entender e gerenciar as emissões de carbono de uma atividade, setor econômico e país. A origem de tudo é um “inventário” de emissões, no qual são detalhadas as etapas de cada processo e qual a quantidade de gases de efeito estufa que elas contêm.

As empresas e os produtos desta segunda edição

Além do próprio Walmart, que participou com a marca Sentir Bem, mais nove empresas líderes aceitaram o desafio de reduzir emissões em seus produtos. São elas: Ambev, Danone, Kimberli Clark, Kraft Foods, L’Oréal, Mars, Phillips, Reckitt Benckiser, Santher, Sara Lee, SC Johnson e Whirlpool

Vamos comentar alguns casos que envolvem marcas mais populares.

A Ambev trabalhou com a embalagem de dois litros do guaraná Antártica, desenvolvendo a aplicação de PET 100% reciclado pós-consumo com a resina virgem, atendendo normas da Anvisa. As garrafas são produzidas com uma parte de resina reciclada e outra de resina virgem. Aos poucos, a empresa pretende aumentar a resina reciclada. Para isso, investe na garantia do fornecimento de pet para reciclagem, por meio de capacitação de uma cadeia de cooperativas para que elas sejam as grandes fornecedoras do insumo. Assim sendo, a nova embalagem vai promover inclusão social e melhoria de renda e trabalho para populações tradicionalmente excluídas do processo produtivo. Ainda mais: vai reduzir o descarte de pet e, durante a produção, a economia de 940 mil litros de água por ano, e de 557 mil kg de carbono.

A Danone repensou o ciclo de produção do Danoninho, da produção de leite à embalagem. Na produção de leite, que representa 98% da matéria-prima, os fornecedores adotaram novo tipo de nutrição para o gado de modo que a produção de leite aumentou e as emissões de metano diminuíram proporcionalmente. No processo produtivo, a readequação das células de resfriamento diminuiu o consumo de energia e, em conseqüência, as emissões de carbono. E na embalagem, a utilização de tecnologia de expansão da chapa de plástico reduziu o peso do copinho e, em decorrência, o gasto com armazenamento e transporte, o que também traz diminuição de emissões de carbono. A redução contabilizada foi de 635,5 ton de CO2.

A Phillips participou do programa Sustentabilidade de ponta a ponta com a melhoria da eficiência energética para o consumidor da TV LED de 32 polegadas. Em dez anos, o produto promove economia equivalente a dez meses do consumo médio de uma residência. A nova TV Led 32 também promoveu redução no gasto de combustível com transporte, porque com a lâmpada Led, a tv ficou mais fina e o novo pedestal, em vidro temperado, permitiu ganho de espaço na carga. Outra mudança importante ocorreu na embalagem do produto. O isopor, de difícil reciclagem porque ocupa muito espaço sem contrapartida no peso, foi substituído por polpa de papel reciclado. A redução de CO2 equivalente foi de 822 ton.

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terça-feira, 12 de julho de 2011

Muito mais alimentos, sem reduzir a pobreza

por Washington Novaes*

Na reunião em que foi eleito diretor-geral da Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO), da Organização das Nações Unidas (ONU), há poucos dias, o ex-ministro brasileiro José Graziano da Silva assegurou – com sua experiência de gestor do programa de combate à fome entre nós – que esta será a sua prioridade: enfrentar esse problema no mundo, para que até 2015 o número de carentes de alimentos no planeta, hoje em torno de um bilhão, se reduza à metade. “É o desafio do nosso tempo”, disse na ocasião o ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan, lembrando que um dos complicadores dessa questão, “o protecionismo dos ricos” à sua produção de alimentos, só tem aumentado. E isso quando a própria FAO alerta que os preços desses produtos continuarão a subir nos próximos dez anos. E que a produção precisará crescer 70% até 2050, para alimentar os 9,2 bilhões de pessoas que estarão no mundo nessa época.

Não é a única preocupação de Annan. Ele alertou também para as crescentes compras e arrendamentos de terras em outros países, por especuladores e fundos de alto risco de países industrializados. Só em 2009 foi comprada na África uma área equivalente ao território da França (FAO, 27/6). São movimentos decorrentes das incertezas econômicas do mundo, com investidores buscando garantias reais, no momento em que os papéis financeiros chegam perto de US$ 600 trilhões, para um produto bruto mundial na casa dos US$ 60 trilhões anuais. E no momento em que Nouriel Roubini, um dos pouquíssimos economistas a prever a crise de 2008-2009, alerta (O Estado de S. Paulo, 23/6) para o forte aumento do “risco de uma parada e um duplo mergulho em economias avançadas”, em seguida a altas pronunciadas nos preços de alimentos, petróleo e commodities, que fazem “ressurgir o espectro da inflação”.

Em reunião do G-20, nos mesmos dias, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, afirmou que os mercados agrícolas, “os menos transparentes”, vão se transformando, “sem regras, em loteria, na qual a sorte sorri para os mais cínicos”. Por isso mesmo, o Brasil declarou seu apoio a um Sistema de Informações dos Mercados Agrícolas, administrado pela FAO, que possa coibir movimentos indesejáveis nessa área. Mas não aceita um mecanismo de estabilização de preços agrícolas. Para o ministro da Agricultura brasileiro, o único caminho para isso é “aumentar a produção”.

Tudo acontece num cenário paradoxal. Um relatório da própria FAO – Perdas Globais de Alimentos e Desperdício de Comida – assegura (11/5) que um terço dos alimentos produzidos no mundo, cerca de 1,3 bilhão de toneladas anuais, se perde ou é desperdiçado. São 670 milhões de toneladas nos países industrializados e 630 milhões nos demais. Os consumidores ricos, diz o documento, desperdiçam 222 milhões de toneladas de frutas e hortaliças – tanto quanto toda a produção de alimentos na África. Isso quer dizer um desperdício per capita de 95 a 115 quilos anuais nos Estados Unidos e na Europa. Nessa mesma hora, lembra o Banco Mundial, com a crise no Oriente Médio e na África, o preço dos alimentos ali já subiu 36%.

Mas o que se fará? Estender a todo o mundo o padrão de consumo de alimentos já vigente nos países mais ricos? E como? Há quase duas décadas, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) chama a atenção: para isso seriam necessários mais dois ou três planetas como a Terra. Lester Brown, diretor do Earth Policy Institute, acha (New Scientist, 5/2) que a “bolha de alimentos” vai tornando insustentável a situação da água e da terra. Na Índia, 175 milhões de pessoas são alimentadas com grãos produzidos com água retirada em maior quantidade que a reposta. Na China, são 130 milhões. Segundo Brown, metade da população mundial já vive em países com escassez de água – “e esta noite mais 219 mil pessoas se terão acrescentado à população mundial” (mais de 80 milhões por ano).

Trazendo para o Brasil a questão do combate à fome, que será preciso fazer? Segundo o IBGE, dez milhões de brasileiros vivem com até R$ 39 por mês; 4,8 milhões moram em domicílios sem renda alguma; ao todo, a população de “miseráveis” chega a 16,2 milhões (equivalente à população total do Chile); abaixo da linha da pobreza – R$ 70 por mês – estão 8,5% dos 190 milhões de habitantes; 5,7 milhões vivem com R$ 40 a R$ 70 por mês; só no Estado de São Paulo são 1.084.402 “miseráveis”. O governo federal pretende investir R$ 20 bilhões para enfrentar o problema, dos quais R$ 16 bilhões do Bolsa Família (que é a única renda de 88% dos 13 milhões de beneficiários). Mais uma vez, pode-se comparar esse investimento com os mais de R$ 150 bilhões anuais pagos em juros a bancos e investidores em papéis da dívida.

Não há dúvida de que já somos o segundo maior produtor de alimentos no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. E o Ministério da Agricultura espera aumentar a produção em 23% em uma década. Mas, como observa o ex-ministro Rubens Ricupero (Folha de S.Paulo, 26/6), esse desenvolvimento só se sustentará se formos capazes de encontrar soluções para “os desafios do meio ambiente”. Para justificar a preocupação, lembra ele números citados pelo também ex-ministro José Carlos Carvalho: “No Vale do Rio Doce, um hectare sustentava 2,8 cabeças de gado; hoje, mal chega a 0,6″.

E assim vamos no mundo dos paradoxos. A produção de alimentos cresce, sobem os preços, commodities transformam-se em garantia para investimentos, juntamente com a compra de terras em países mais pobres. Mas não se consegue sair de perto do número terrível de um bilhão de famintos no planeta, 40% da humanidade vivendo abaixo da linha da pobreza. A China caminhando para se tornar grande potência, mas Xangai, sua cidade mais populosa (acima de 20 milhões de habitantes), baixando legislação para proibir que cada família tenha mais de um cachorro – a política do “cachorro único” (ainda assim, mais de cinco milhões de cachorros; de quanto se precisará para alimentá-los?).

* Washington Novaes é jornalista.

** Publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo e retirado do site IHU On-Line.

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segunda-feira, 11 de julho de 2011

Paulo Itacarambi comenta: “Como estão as condições de trabalho nos supermercados”

As três maiores redes do país informam que cumprem a legislação trabalhista e vão além. Mas estão com o desafio de combater o assédio moral.

As três grandes redes supermercadistas que atuam no Brasil – Pão de Açúcar, Carrefour e Walmart – são protagonistas do movimento da responsabilidade social empresarial em casos exemplares no país. Como exemplo, temos o monitoramento da cadeia da carne para prevenir e evitar a compra do produto cuja origem seja fazendas ilegais, que desmatam e utilizam trabalho análogo à escravidão.


Por meio do rastreamento dos fornecedores, via CNPJ das notas fiscais, os grandes supermercados podem garantir a seus clientes a origem da carne de suas gôndolas. Se conseguem combater o desmatamento e promover o trabalho decente na cadeia produtiva, como eles se comportam em relação aos seus próprios funcionários? 

Esta pergunta foi proposta pelo Piotto há algumas semanas. Como saí em férias e a resposta exigia pesquisa extensa, o assunto ficou numa espécie de quarentena. Agora, voltando do descanso, retomo a pauta. 

Perguntamos aos três grandes supermercados como eles se comportam em relação aos seguintes temas: jornada de trabalho, horas extras, descanso semanal remunerado, licença-maternidade e relacionamento com sindicatos da categoria. As respostas foram as seguintes:



Jornada de trabalho/horas extras – Pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e acordos coletivos, a jornada de trabalho é de 44 horas semanais, incluindo sábados e domingos. Os funcionários podem agregar mais duas horas extras por dia. Os acordos preveem pagamento dessas horas, com 60% de acréscimo sobre a hora normal, ou compensação em dias de folga.

O funcionamento durante o final de semana também está fixado em acordo coletivo. De modo geral, a jornada e as horas extras são as mesmas, mas, em algumas regiões (São Paulo, por exemplo), as horas extras trabalhadas aos domingos não podem ser incluídas no banco de horas geral da empresa.

O Carrefour estabeleceu prazo de 90 dias para os funcionários “zerarem” as horas extras com folgas. Caso isso não ocorra, a empresa paga as horas extras. A cobertura de folgas e férias é feita por funcionários contratados para essa finalidade.

O Pão de Açúcar segue a convenção para as horas extras, que é compensação (quando for possível) ou pagamento com acréscimo de 60% sobre a hora normal trabalhada.

O Walmart também segue a CLT e a convenção no que diz respeito à jornada de trabalho e ao pagamento de horas extras. Recentemente, introduziu a jornada flexível de trabalho para todos os funcionários das 483 lojas espalhadas por 18 Estados brasileiros. Dentro de uma grade de horários para início e término do expediente, o profissional pode definir uma jornada de trabalho que deixe tempo livre para compromissos pessoais. O horário flexível no Walmart é a única experiência do gênero no varejo.

Descanso semanal – O descanso semanal remunerado está regulamentado pela Lei 605/1949, pelo Decreto 27.048/1949 e pela Lei 11.603/2007. Pela lei de 1949, estabeleceu-se que o descanso semanal deveria recair preferencialmente no domingo. O decreto, também de 1949, estabelece os casos nos quais é possível trabalhar aos domingos – motivo de força maior ou realização/conclusão de serviços inadiáveis.

Como a CLT exige autorização prévia para o trabalho dominical, a Lei 11.603/2007 regulamenta o trabalho aos domingos para o comércio. As três redes seguem a legislação.

Licença-maternidade – Até o momento, a licença-maternidade de 180 dias só é obrigatória no serviço público e opcional na iniciativa privada. O INSS paga quatro meses de salário; os outros dois meses ficam por conta da empresa, que, no entanto, pode deduzir integralmente a despesa do imposto de renda devido.

O Walmart Brasil e o Grupo Pão de Açúcar estão entre as empresas privadas que estenderam o benefício a suas funcionárias por mais dois meses. O Walmart informa que já faz isso desde 2008. No Carrefour, a licença-maternidade é de 4 meses.

Relacionamento com sindicatos –
As três redes informam também que mantêm um constante e bom relacionamento com os sindicatos de trabalhadores de várias categorias representativas dos funcionários. Outra informação importante é que essas redes buscam fazer valer o acordo coletivo mesmo nas lojas mais afastadas. Ou seja, não esperam que um sindicalista ou um fiscal do trabalho denuncie uma irregularidade. A própria administração monitora as lojas e corrige os possíveis desvios do acordo coletivo. Vale lembrar que, embora as cláusulas principais sejam iguais em todo o país, cada região pode apresentar alguma particularidade.

O que oferecem a mais

Planos de carreira - Há, nas três redes, planos de desenvolvimento de carreira e capacitação para ocupar novos postos. Os grupos dão ênfase a esse desenvolvimento porque os supermercados têm sido a porta de entrada para o mundo do trabalho de centenas de milhares de jovens, principalmente jovens pobres, pois a exigência para os cargos iniciais é o ensino fundamental completo. Como o ramo se torna cada vez mais especializado, é importante preparar e reter os talentos. Além do treinamento interno, há apoio para completar a escola e até a universidade.

Valorização da diversidade – As redes também vêm desenvolvendo políticas de diversidade, com foco na valorização de gênero, capacitando mulheres para ocupar cargos de liderança nas lojas e na estrutura administrativa das empresas. Isso se deve ao fato de 80% da clientela ser constituída por mulheres de todas as idades. De acordo com o Carrefour Brasil, 23% dos cargos de liderança da rede são ocupados por mulheres. O Walmart Brasil relatou que possui um Comitê de Mulheres, ligado diretamente à presidência, como instância para desenvolver iniciativas que permitam acelerar a liderança feminina na empresa. O Pão de Açúcar não informou nenhuma ação específica para gênero. Busca, no entanto, contratar pessoas da terceira idade para trabalhar no atendimento das lojas.

Participação nos lucros – Pão de Açúcar, Carrefour e Walmart informam que concedem participação nos lucros e resultados (PLR) a seus funcionários.

Redução da informalidade – A informalidade – ainda uma característica predominante no setor de comércio e serviços – nessas grandes redes foi bastante reduzida, mesmo nos serviços terceirizados, o que garante a capilarização dos direitos trabalhistas para um número cada vez maior de trabalhadores.

Assédio moral, o desafio

O bom relacionamento com sindicatos, o cumprimento da legislação trabalhista e das convenções coletivas e as ações de valorização profissional adotadas pelas grandes redes têm se refletido na diminuição de processos na Justiça trabalhista ocasionados por desrespeito à CLT ou aos acordos coletivos. De acordo com a revista Supemercado Moderno, em 2008, das mais de 1 milhão de ações trabalhistas em andamento em São Paulo por não cumprimento da CLT, apenas cinqüenta eram de supermercados.

No entanto, as redes supermercadistas estão enfrentando um problema crescente: os processos por assédio moral. E trata-se de um desafio e tanto, porque o problema tem mais a ver com comportamento de determinados funcionários (chefes, na maioria) difícil de ser monitorado em grupos com tantos empregados espalhados por uma vasta extensão geográfica. As três redes já foram condenadas a pagar indenizações que variam de R$ 20 mil a R$ 2 milhões.

O Pão de Açúcar é o maior empregador privado do país, com 160 mil funcionários. O Walmart informa que tem 90 mil empregados e o Carrefour, 80 mil.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) trata o assédio moral como problema de saúde pública, reconhecendo não haver um só setor profissional que esteja livre do problema. A OIT define assédio moral como violência moral no trabalho: o uso de xingamentos, palavras depreciativas, piadas e atitudes que humilhem o trabalhador, atingindo sua dignidade e auto-estima. Não é um fenômeno novo no mundo do trabalho. Novidade é que ele passou a ser tratado como algo que não é “inerente” ao trabalho. Ou seja, ninguém deve ser humilhado em situação nenhuma, inclusive no escritório ou na fábrica.

Aqui no Brasil, a legislação sobre o tema ainda está sendo construída, à medida que as denúncias viram processos e processos viram decisões que criam jurisprudência.

Hoje, além dos comerciários (grupo em que se inserem os trabalhadores dos supermercados), bancários e petroquímicos são os que mais procuram a Justiça clamando por indenização em virtude de assédio moral. Isso demonstra que, mais do que dinheiro, o assédio faz com que as empresas percam reputação, algo difícil de recuperar.

Para acabar com esse problema, é preciso mudar o comportamento das pessoas. Como? Não há uma receita pronta, mas a gestão responsável sugere alguns caminhos:
•    O primeiro deles é estabelecer um código de conduta em que fique muito claro o que pode e o que não pode ser feito ao tratar os funcionários no ambiente de trabalho;
•    O passo seguinte é treinar todos os funcionários, mostrando na prática como aplicar os princípios do código de conduta. É importante repetir o treinamento periodicamente, para reforçar a mensagem e verificar como o código vem sendo assimilado por chefias e subordinados.
•    Por último, a liderança precisa dar o exemplo.

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"É possível dar escola a todas as crianças do mundo imediatamente"

Relatório divulgado no início da semana pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) mostra que tem havido avanços na universalização do acesso ao ensino fundamental no mundo todo, mas eles são lentos. E que, se houver vontade política, em pouco tempo todas as crianças do mundo podem ir à escola.

Em abril de 2000, os governos de 160 países que integram o sistema da Organizações das Nações Unidas (ONU) reuniram-se em Dacar, capital do Senegal, no Fórum Mundial de Educação, organizado pela Unesco, e criaram a iniciativa Educação para Todos, que estabeleceu seis metas a serem atingidas até 2015 e o monitoramento delas, com a publicação de relatórios periódicos.

As seis metas do programa, assumidas como compromisso de Estado pelos 160 países participantes do fórum (inclusive o Brasil), são as seguintes:
• ampliar a educação para a primeira infância;
• universalizar o acesso à educação básica;
• garantir o atendimento de jovens em programas de aprendizagem;
• reduzir em 50% a taxa de analfabetismo;
• eliminar as disparidades de genêro no acesso ao ensino; e
• melhorar a qualidade da educação.

O monitoramento é feito a cada ano. No último dia 4 de julho, foi lançado um estudo específico sobre a situação educacional das crianças em países em conflito. O trabalho se chama A Crise Oculta: Conflitos Armados e Educação e traz números bastante dramáticos sobre infância e escolarização, principalmente nos países envolvidos em guerras. Este recorte específico foi feito para alertar e inspirar os governos e a sociedade civil no resgate dos valores sobre os quais a Unesco (e a própria ONU) foi criada: libertar o mundo do flagelo da guerra, por meio da educação, da cultura e da difusão do conhecimento científico, tendo como diretriz a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Como o próprio relatório concluiu, infelizmente o mundo ainda está bem longe desse ideal preconizado pelos arquitetos do sistema multilateral. Mas não é uma distância tão grande que impeça a vontade política de superar os conflitos e atingir as metas do programa.

Hoje, mais do que em qualquer outra época, a humanidade tem conhecimento e recursos para resolver os graves problemas que sempre a afligiram. Por que não o fazemos?

Os resultados do relatório


A Crise Oculta destaca que o mundo não está no caminho certo para atingir as metas do programa Educação para Todos em 2015. Enfatiza que houve avanços importantes, como a paridade de gênero nas matrículas da educação primária, a redução pela metade do número de crianças fora da escola, principalmente na Ásia e na África subsaariana, e o avanço da educação pré-escolar na América Latina, onde 62% das crianças até 5 anos estão na escola.

Todavia, ainda há 67 milhões de crianças fora da escola. Metade delas se concentram em 15 países, entre os quais o Brasil (a Unesco contabiliza 700 mil crianças brasileiras ainda fora da escola).

Se os entraves à educação universal não forem superados, o mundo não conseguirá dar um futuro bom para as crianças de hoje. Entre os obstáculos a superar, a Unesco destaca:
• a fome. Nos países em desenvolvimento, 195 milhões de crianças de até 5 anos de idade (uma em cada três) sofrem desnutrição que causa danos irreparáveis ao seu desenvolvimento cognitivo e ao seu processo educacional, no longo prazo;
• o abandono da escola antes de completar o ensino fundamental;
• as disparidades de gênero, que continuam a dificultar o progresso da educação. Se o mundo tivesse alcançado a paridade de gênero no nível primário em 2008, teria havido um adicional de 3,6 milhões de meninas na escola primária;
• a desvantagem de gênero, que custa vidas. Se a taxa média de mortalidade infantil da África subsaariana caísse para o nível associado às mulheres que têm alguma educação secundária, haveria 1,8 milhão de mortes a menos;
• a qualidade da educação, muito baixa em vários países. Milhões de crianças saem da escola primária com níveis de leitura, escrita e competências matemáticas muito abaixo do esperado;
• a falta de professores. Serão necessários mais de 1,9 milhão de professores até 2015 para que a educação primária universal seja atingida;
• o analfabetismo de adultos. Há 796 milhões de adultos analfabetos no mundo, a maioria deles vivendo em dez países, entre os quais o Brasil. Para a Unesco, nosso país ainda possui 14 milhões de analfabetos.

Essas lacunas exigem investimento dos próprios países e, no caso das nações mais pobres, de ajuda internacional. A Unesco calculou o quanto a sociedade global precisa investir por ano para garantir as metas do programa Educação para Todos até 2015: US$ 16 bilhões por ano. É muito? Certamente não. Essa quantia corresponde a 6 dias de gastos militares dos países ricos.

O Brasil e os desafios da educação


Em relação ao cumprimento das metas, o relatório de 2011 do Educação para Todos coloca o Brasil em 88º. lugar entre os 160 signatários do programa. Japão, Reino Unido e Noruega lideram o ranking. Na América Latina, Argentina, Chile e Uruguai são os países mais bem classificados, acima do Brasil.

Estamos vivendo um novo ciclo de crescimento econômico, mas nossos indicadores sociais avançam pouco, em que pesem os progressos (modestos) registrados em alguns setores, como redução da pobreza e da desigualdade.

Na educação, avançamos lentamente. Pior do que isso, estamos muito aquém das necessidades impostas pelo recente ciclo de prosperidade. Falta mão de obra capacitada, tanto que a estamos buscando até mesmo em países vizinhos.

A falta de uma educação pública de qualidade para todos pode comprometer também o desenvolvimento dos negócios. Por isso, em 2006, algumas das maiores empresas brasileiras organizaram e financiam o movimento Todos pela Educação, que congrega, além da iniciativa privada, organizações da sociedade civil, educadores e gestores públicos e tem como objetivo contribuir para que o Brasil garanta a todas as crianças e jovens o direito à educação básica de qualidade.

Esse grande objetivo foi traduzido em 5 metas, com prazo de cumprimento até 2022, ano do bicentenário da independência do Brasil. As metas são as seguintes:
Meta 1: Toda criança e jovem de 4 a 17 anos na escola;
Meta 2: Toda criança plenamente alfabetizada até os 8 anos;
Meta 3: Todo aluno com aprendizado adequado à sua série;
Meta 4: Todo jovem com o ensino médio concluído até os 19 anos;
Meta 5: Investimento em educação ampliado e bem gerido.

A idéia não é substituir o Estado, mas apoiá-lo em ações de valorização e capacitação dos professores, melhoria nos processos de gestão escolar e organização de eventos que tornem a escola e a aprendizagem o foco das atenções da sociedade.

Para monitorar essas metas, o movimento reúne, no site, uma área de acompanhamento, na qual podem ser acessados os dados das pesquisas oficiais (IBGE, Ipea etc.). O conhecimento dos dados permite que os integrantes do movimento elaborem planos para melhorar o desempenho e mobilizem a sociedade para cobrar dos poderes públicos as medidas necessárias.

Para saber como o Brasil anda em relação às cinco metas da educação, basta acessar o site www.todospelaeducacao.org.br e, na barra de menu, clicar em “Educação no Brasil”. Ao acessar a página, é possível verificar, por exemplo, que a Meta 3 – “Todo aluno com aprendizado adequado à sua série” – é a que impõe mais desafios para a sociedade brasileira.

Em 2022, espera-se que pelo menos 70% dos alunos do ensino fundamental e médio das escolas públicas e privadas tenham desempenhos em português e matemática superiores ao mínimo estabelecido pela escala do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que mede as competências do aluno para cada matéria específica.

Hoje, nenhuma das séries avaliadas (o 5º. e o 9º. anos do ensino fundamental e o 3º. ano do ensino médio) possui 35% dos alunos com aprendizado adequado, seja em língua portuguesa, seja em matemática. Temos 11 anos para chegar aos 70%.

O que fazer?

O movimento Todos pela Educação tem atuado diretamente nos municípios, por meio da mobilização do empresariado local, das escolas públicas, das entidades e dos órgãos públicos de educação, buscando integrar mais as famílias com as escolas, melhorar a gestão dos recursos, capacitar os professores e monitorar o uso dos recursos públicos pelas escolas.

Mais importante do que as ações desse movimento é o papel que ele está desempenhando na conscientização da sociedade sobre a importância do investimento público na educação. O cidadão e a cidadã precisam entrar “na briga” por uma educação pública de alta qualidade para garantir um futuro mais tranqüilo para seus filhos.

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sexta-feira, 8 de julho de 2011

Falando francamente sobre consumo e consumismo, por Vilmar Berna* :

“É preciso coragem para persistir nos caminhos da mudança e valorizar escolhas diferentes das que trouxeram a humanidade à beira do colapso.”

Somos, por natureza, seres consumidores e estamos no topo da cadeia alimentar. Logo, consumir é nosso destino natural, o problema são os excessos. Excesso de gente, que já está demais e que continua se multiplicando globalmente, embora se reduza em diversos países e regiões. Cada boca que nasce demanda mais recursos naturais, que não são infinitos. Mas existe um excesso ainda pior: o da desigualdade social, que permite que uns poucos possam se apropriar de mais recursos que a maioria. Ou seja, não adiantará muito diminuir o excesso de gente sem também diminuir a ganância.

O mundo atual se construiu em torno da falsa idéia de que o mercado será capaz de suprir as necessidades humanas a ponto de aceitarmos a organização da sociedade em classes sociais em razão do poder de consumo. Quem pode consumir muito pertence às classes altas; os remediados, à classe média; e os pobres, às classes baixas. A reboque do conceito do poder aquisitivo, surge quase que naturalmente a falsa noção de que os que têm muito são mais importantes e com mais direitos do que os que não tem, e isso é absolutamente falso, pois somos todos iguais em dignidade e direitos. O mercado só consegue ser solução para os que têm dinheiro. Para os demais, é preciso políticas públicas.

O problema não está só no colapso ambiental, mas no colapso ético e moral que nos põe em risco enquanto humanidade e civilização muito antes de desaparecermos enquanto espécie. Se as pessoas aceitarem a idéia de uma sociedade que valoriza o dinheiro acima dos valores humanos, acumular riquezas pode tornar-se um fim em si mesmo em vez de meio de vida. Aliás, a própria idéia de vida pode se empobrecer a ponto de resumir-se em produzir numa ponta e consumir na outra. Bem longe da idéia de viver em abundância e plenamente. Em vez de nos tornarmos mais solidários e cultivarmos bons valores e cidadania, acabaremos valorizando muito mais o individualismo, o materialismo, a competição desmedida e a insensibilidade com os menos favorecidos.

E tudo isso baseado numa mentira – a de que, se todos alcançarem os mesmos padrões de consumo dos mais ricos, será possível haver recursos naturais para todos. Fazer com que todos acreditem nessa mentira é conveniente para os que dominam e controlam os recursos e as riquezas, pois, em vez de exigir mudanças, as pessoas irão querer que tudo continue como está, na esperança de que um dia chegará a sua vez e que só não chegou ainda por que não foram suficientemente capazes ou merecedores. Não é de se admirar que seja tão difícil ser sustentável e compatibilizar progresso e meio ambiente. Mas não é impossível.

Não só outro mundo é possível como já vemos por todos os lados os sinais de mudança. Por mais que alguns gostem de se iludir com falsas promessas de consumo, eles percebem os sinais de esgotamento do planeta. Um novo mundo já está nascendo do velho mundo. O que assistimos são as dores do parto.

Precisamos é de coragem para persistir nos caminhos da mudança e valorizar escolhas diferentes das que trouxeram a humanidade à beira do colapso.

Não temos de comprar tudo o que vemos nas prateleiras. Não temos de acreditar em tudo o que se diz nas propagandas e devemos duvidar das informações tendenciosas, mentirosas e manipuladores. Não temos de seguir a moda e descartar um produto que ainda serve. Não precisamos de nenhum bem de consumo para amar e ser amados, para ser felizes ou para nos sentirmos importantes e reconhecidos socialmente.

Da mesma maneira que temos a liberdade de consumir o que nosso dinheiro ou crédito a perder de vista nos permite, também temos a liberdade de recusar o consumo desperdiçador de recursos. Podemos escolher consumir criteriosamente, apenas para atender a necessidades objetivas e realmente necessárias, preferir produtos socioambientalmente responsáveis, recicláveis, que fortaleçam as cadeias produtivas locais e a criatividade de nossos trabalhadores e artesãos. Podemos consumir de maneira planejada, em vez de agir por impulso. Temos o poder de dizer sim e também de dizer não. Somos nós o poder do mercado.

Não foi o consumismo que nos fez assim. Ele apenas aproveitou a oportunidade por agirmos dessa forma e encheu as lojas e prateleiras e nossos sonhos e desejos de bugigangas e objetos que no final podem nem ser tão importantes para vivermos uma vida plena e feliz.
Os inimigos não estão fora de nós. Para resolvermos a crise socioambiental em que nos metemos, teremos de ter a coragem de admitir que somos uma parte importante do problema - e também da solução.

* Vilmar Berna é escritor e jornalista, editor da Revista do Meio Ambiente e do Portal do Meio Ambiente.

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