Na terça e na quarta-feira da semana que vem, entidades e cidadãos irão ao Congresso conversar com as lideranças de todos os partidos para pedir a votação e a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional das Metas, que prevê a obrigatoriedade do Programa de Metas para os governos federal, estaduais e municipais. A ideia é repetir nacionalmente a experiência pioneira lançada em São Paulo, que é um marco na história da democracia brasileira.
A proposta foi lançada em 6 de abril pela Rede Nossa São Paulo, rede apartidária que congrega aproximadamente 650 organizações da sociedade civil e está buscando adesões via sita http://www.nossasaopaulo.org.br/
De acordo com a Proposta de Emenda Constitucional, o Presidente da República, os Governadores de Estados e os Prefeitos, eleitos ou reeleitos, apresentarão à sociedade civil e ao Poder Legislativo competente o Programa de Metas e Prioridades de sua gestão, até noventa dias após a respectiva posse. Este programa discriminará expressamente: as ações estratégicas, os indicadores de desempenho e as metas quantitativas e qualitativas para cada um dos setores da Administração Pública direta e indireta por unidades regionais de planejamento e desenvolvimento, observando, no mínimo, os conteúdos apresentados como propostas da campanha eleitoral devidamente registradas no órgão eleitoral competente.
Ainda de acordo com a proposta, o Poder Executivo divulgará amplamente até 30 de abril, 31 de agosto e 31 de dezembro de cada ano os relatórios quadrimestrais de desempenho da execução do Programa de Metas e Prioridades.
Esta proposta de lei destina-se a estimular a melhoria da gestão pública e a permitir à população melhor avaliação e o controle das ações, obras e serviços realizados pelo Poder Executivo nos diferentes entes federativos da nação brasileira.
Se aprovada, esta PEC pode representar uma verdadeira revolução política no país.
Em primeiro lugar, porque vai fortalecer o planejamento das ações governo. E ele é alavanca importante para a economia inclusiva, verde e responsável que queremos construir. Afinal, transitar de uma economia tradicional para esta outra exigirá grande esforço da sociedade, principalmente de planejamento. E a questão central de qualquer planejamento é ter metas confiáveis, que possam ser cumpridas. Esta proposta de Emenda Constitucional de Metas cria condições para isto: um planejamento confiável, em nível federal, estadual e municipal, que contribua para a transição a uma economia inclusiva, verde e responsável. A partir da aprovação da emenda, os políticos só vão prometer o que efetivamente podem cumprir e vão realizar o que interessa para a sociedade. A PEC representa, assim, o fim das promessas inconsistentes de campanha.
Em segundo lugar, a aprovação desta PEC promoverá o aumento da confiança do cidadão na política, porque as metas de governos serão transparentes e controladas pelos próprios eleitores. Confiar na política é importante para haver mudança. E não estamos falando de qualquer mudança, mas da transição de uma economia baseada no PIB e no uso extensivo de recursos naturais, para outra inclusiva, verde e responsável.
Em terceiro lugar, esta PEC atacará um dos maiores problemas da administração pública que é o da descontinuidade de projetos e programas na administração pública. Um governante eleito geralmente não dá prosseguimento às ações de seu antecessor. Mas, com um planejamento baseado em metas reconhecidas pela sociedade, será mais difícil deixar de lado programas e projetos considerados relevantes pela sociedade, já que as metas funcionarão como referências para avaliação do governante.
“Prestar contas” passará a ser uma tarefa obrigatória do governante; a cobrança da sociedade pelo cumprimento das metas o obrigará a seguir os princípios da boa administração pública: mais transparência, mais participação da sociedade, menos corrupção e uma gestão pública mais eficiente.
A Rede Nossa São Paulo apresentou projeto semelhante à Câmara Municipal da capital paulista há três anos. Os vereadores aprovaram a “lei das metas” e, em 2009, o prefeito Gilberto Kassab apresentou o plano de metas de sua administração. Desde então, o cumprimento delas vem sendo acompanhado pela sociedade.
É o exemplo que influenciou a atual iniciativa.
Não há porque o Congresso não aprová-la. Afinal, todos os partidos advogam, em seus programas, todos os itens descritos na PEC. Então, mãos à obra.
quarta-feira, 20 de abril de 2011
PEC das metas: oportunidade para ampliar a consciência e a participação da sociedade
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Saiba como ajudar a proposta de emenda constitucional que prevê a obrigatoriedade do Programa de Metas para os governos Federal, Estaduais e Municipais
A Rede Nossa São Paulo, rede apartidária que congrega aproximadamente 650 organizações da sociedade civil, apresentou no dia 6 de abril uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que prevê a obrigatoriedade do Programa de Metas para os governos federal, estaduais e municipais. A ideia é repetir nacionalmente a experiência pioneira lançada em São Paulo, que é um marco na história da democracia brasileira. O programa de metas foi apresentado pela Prefeitura municipal de São Paulo, em 31 de março de 2009, em cumprimento à Emenda 30 à Lei Orgânica do Município, que foi aprovada por unanimidade na Câmara Municipal graças à mobilização da Rede Nossa São Paulo.
De acordo com a Proposta de Emenda Constitucional, o Presidente da República, os Governadores de Estados e os Prefeitos, eleitos ou reeleitos, apresentarão à sociedade civil e ao Poder Legislativo competente o Programa de Metas e Prioridades de sua gestão, até noventa dias após a respectiva posse, que discriminará expressamente: as ações estratégicas, os indicadores de desempenho e as metas quantitativas e qualitativas para cada um dos setores da Administração Pública direta e indireta por unidades regionais de planejamento e desenvolvimento, observando, no mínimo, os objetivos, diretrizes, ações, programas e intervenções estratégicas e outros conteúdos conexos, apresentados como propostas da campanha eleitoral devidamente registradas no órgão eleitoral competente. Ainda de acordo com a proposta, o Poder Executivo divulgará amplamente até 30 de abril, 31 de agosto e 31 de dezembro de cada ano os relatórios quadrimestrais de desempenho da execução do Programa de Metas e Prioridades.
Esta proposta de lei destina-se a estimular a melhoria da gestão pública e a permitir à população melhor avaliação e o controle das ações, obras e serviços realizados pelo Poder Executivo nos diferentes entes federativos da nação brasileira.
Clique aqui para acessar a íntegra da PEC
Você também pode ajudar nessa causa!
Ações de mobilização
1) Multiplique o abaixo-assinado em apoio à proposta em seu mailing, site, mala-direta, intranet, boletins, informativos e redes sociais (facebook, twitter, etc);
2) Divulgue em seu site/blog os seguintes links:
Para divulgar o abaixo-assinado:
http://www.nossasaopaulo.org.br/abaixo-assinado-programa-de-metas/
Para baixar os banners + links para reprodução nos sites:
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Para reprodução nas redes sociais:
Facebook – apoie a causa acessando o link abaixo:
http://www.causes.com/causes/603538-programa-de-metas-para-todo-o-pa-s?recruiter_id=174452828
Twitter - reproduza o link abaixo em seu twitter: “Participe e divulgue o abaixo-assinado em favor da proposta que prevê Programa de Metas nacional http://bit.ly/fqrurC #programademetas”
O abaixo-assinado será entregue nos dias 25, 26 e 27 de abril às lideranças partidárias no Congresso Nacional.
É importante que tenhamos o maior número de apoios até a data de entrega da proposta em Brasília. Por isso, solicitamos o seu apoio nesta mobilização.
Veja quem já assinou.
Para esclarecer eventuais dúvidas, por favor, entre em contato com Zuleica Goulart, pelo e-mail zuleica@isps.org.br, ou ainda pelos telefones (11) 3894.2400. Esclarecimento em relação à reprodução dos links, por favor, entre em contato com Guilherme Norberto pelo e-mail guilherme@isps.org.br
Este é o início para uma nova cultura democrática e participativa no país! Participe e divulgue!
Obrigada.
quinta-feira, 14 de abril de 2011
Sustentabilidade e neuroplasticidade do cérebro
A cena se dá em um shopping qualquer: uma moça passeia pelas vitrines. Repentinamente, sua expressão se transforma em um misto de alegria e desejo: “eu preciso comprar este sapato”.
Esta necessidade premente não surge porque no seu armário não haja sapatos. Também não significa que esteja descalça. É só mais um. Mas se tornou necessário. Como consumidora responsável ela pode até investigar a origem do sapato, as políticas do fabricante, as crenças da loja, se a fatura do cartão de crédito aterroriza, lembra-se com compaixão dos que não têm sapatos para calçar, sonha com uma vida mais simples e descomplicada, mas nada disso impede que o ato da compra se consume. Talvez esta decisão da consumidora esteja muito mais condicionada do que podemos imaginar. Mas parece consciente, responsável e sustentável. Será?
Há inúmeras respostas para essa questão. Uma delas vem das neurociências. O fenômeno da plasticidade do cérebro corresponde à possibilidade dos neurônios transformarem sua forma ou função, de modo prolongado ou permanente, em decorrência de uma ação do ambiente externo, ou seja, das nossas experiências.
Em relação a uma cena em que ocorre um acidente de carro, podemos distinguir diferentes níveis de interação. O motorista do carro, por não usar o cinto de segurança, sofre uma fratura de crânio e perde tecido cerebral.
Provavelmente terá um longo processo de recuperação, com a gradativa, e possivelmente incompleta, restauração das funções atingidas. Alguém que passa pelo local no momento do acidente, se impressiona com a gravidade dos ferimentos do motorista e nunca mais se esquece da cena. Uma outra pessoa, lê a notícia sobre o que ocorreu com aquele motorista que não usava o cinto de segurança, e se convence de que é melhor passar a usá-lo.
Nestas três situações há um ponto em comum: o cérebro das três pessoas respondeu aos estímulos do ambiente externo. A primeira sofreu uma lesão. A testemunha teve uma forte impressão emocional. E a terceira pessoa modificou seu comportamento em função das informações a que teve acesso.
Este é o fenômeno da neuroplasticidade, a denominação das capacidades adaptativas do sistema nervoso, especialmente dos neurônios, às condições e experiências de cada indivíduo.
O sistema nervoso modifica sua organização estrutural e funcional em resposta às nossas experiências, desde lesões traumáticas destrutivas, até os processos de aprendizagem e memória. É um fenômeno constante e marcante, que ocorre em todos os momentos da nossa vida. Nada disso é novo, sempre ocorreu. Nova é a consciência a respeito desses processos que ocorrem em cada um de nós. E com isso, novas dimensões de responsabilidade consigo mesmo e com os outros.
Há várias formas de plasticidade, mas interessa-nos, neste momento, algumas daquelas relacionadas aos nossos hábitos, comportamentos, memória e aprendizagem.
O grau de plasticidade varia conforme a idade. No período de desenvolvimento o sistema nervoso é mais plástico, já que tudo está em construção. Na infância, há uma fase durante a qual a influência do ambiente é altamente relevante para o estabelecimento de características fisiológicas e psicológicas do indivíduo. São os chamados períodos críticos.
Na idade adulta, outros mecanismos entram em ação. De qualquer forma, sempre que falamos em plasticidade, estaremos nos referindo a um processo de modificação provocado no sistema nervoso de tal intensidade, que impressionou inclusive os primeiros neurocientistas que se dedicaram a estudar este assunto.
O que se sabe é que, em função das condições ambientais e das nossas próprias experiências, é possível provocar mudanças morfológicas: novos circuitos se formam pela alteração das fibras nervosas; novas configurações do neurônio; ou alteração do número de células de uma determinada região cerebral. Em outros casos, identificam-se correlatos funcionais, ou seja, a modificação das atividades sinápticas de um determinado circuito ou grupo de neurônios.
Ou seja, nossas experiências e interações com o mundo formatam nosso cérebro.
Exemplos da plasticidade sináptica são as decorrentes da teoria de Hebb. Na década de 40, antes mesmo que se tivesse certeza de que as sinapses existiam, este psicólogo canadense propôs uma teoria para a memória com base na plasticidade sináptica. Sua teoria permaneceu sem grande repercussão durante 30 anos, até que neurocientistas passaram a identificar fenômenos comportamentais e celulares que poderiam ser explicados por ela.
Atualmente a noção de memória se tornou muito mais complexa, mas os fenômenos descritos por Hebb podem ser identificados em diversas circunstâncias, e atualmente se tornou um modelo celular e molecular da memória. Trata-se dos fenômenos de habituação, sensibilização e condicionamento clássico.
A habituação ocorre quando a resposta ao estímulo diminui com a sua repetição, até que ele se torna inócuo. Leia-se rotina. Não importa o que aconteça, parece que nada muda.
A sensibilização é resultado de uma aprendizagem em que uma resposta aumenta quando precedida de algum sinal de aviso. Ou seja, é o oposto da habituação. Um estímulo muito forte faz o organismo reagir, e ele fica avisado que outros podem surgir – qualquer que seja o estímulo seguinte (mesmo que seja suave) provocará igual reação. Acho que todo mundo conhece este fenômeno, para o bem e para o mal.
O condicionamento clássico, análogo ao reflexo condicionado descrito por Pavlov, corresponde à associação de um estímulo forte a um único tipo de estímulo inócuo. Quando este último é aplicado sozinho, passa a ser eficaz em provocar a mesma resposta obtida em relação ao estímulo forte.
A plasticidade pode ser benéfica ou não. No final do século XX, os americanos Edward Taub e Michael Merzenich identificaram as causas do fenômeno denominado “membro fantasma”, causador de tanto sofrimento em pessoas que passam por algum tipo de amputação. Muitas dessas pessoas seguiam com a sensação de dor em um membro que não mais existia. Os tratamentos variavam, mas não surtiam efeito.
O que se identificou por meio de registro eletrofisiológico e imagens funcionais por ressonância magnética, é que parece existir uma forte correlação entre o grau de reorganização cortical após a amputação e a intensidade da dor fantasma – não se trata de um fruto da imaginação, e sim o produto de um cérebro que muda com a nova realidade, mas não esquece suas imagens passadas.
Também tem sido demonstrado através das técnicas de neuroimagem que mapeiam regiões funcionalmente ativas do cérebro, que as regiões lingüísticas de pessoas surdas que utilizam linguagem de sinais é bastante diferente em sua organização e extensão; que os cegos têm suas áreas visuais ativadas quando submetidos a estimulação auditiva e quando realizam leitura em Braille; e até que violinistas muito treinados desde a infância possuem maior representação cortical dos dedos da mão esquerda.
Diante dessas evidências, nos cabe indagar: que tipo de neuroplasticidade estamos provocando no nosso próprio cérebro e nos cérebros alheios? Estamos alertas sobre os estímulos aos quais somos submetidos e submetemos os outros de forma repetida e cotidiana? Temos tido responsabilidade sobre isso?
São questões relevantes, cujas respostas ainda estamos construindo. O fato de não sabermos responder deve impulsionar nossos esforços de compreensão, pois nossa sobrevivência futura depende da formulação e adaptação a um novo modo de ser e agir no mundo, ou seja, depende também de uma neuroplasticidade sustentável. Um fenômeno que, de forma invisível e quase imperceptível, vai formatando algumas dinâmicas entre cérebro, mente e consciência.
Consumo consciente deixa de ser somente uma questão de mapear impactos, reduzir custos, simplificar processos, respeitar a natureza. Inclui de fato a relação cérebro e consciência. Ninguém é sustentável sem conhecer as bases de seu processo decisório, sem saber dominar e transformar impulsos e hábitos arraigados até na nossa dinâmica biológica. Não será repetindo o mesmo cérebro de sempre que o mundo irá mudar.
Fonte: Mercado Ético/Blog da Regina Miglori
quarta-feira, 13 de abril de 2011
A pegada ecológica de Campo Grande
Foi realizado hoje, na Faculdade de Economia e Administração da USP, um debate sobre a pegada ecológica das cidades brasileiras, apresentando o resultado do levantamento feito em Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, pioneira neste tipo de avaliação ambiental no Brasil.
A escolha da capital sul-mato-grossense como primeira cidade brasileira a desenvolver essa metodologia se deve a alguns fatores: Campo Grande é a capital do estado que abriga a maior parte do Pantanal, região com enorme riqueza ambiental e ao mesmo tempo ameaçada pela degradação provocada por alguns modos insustentáveis de consumo. Embora Campo Grande esteja na borda do Pantanal e não dentro dele, os impactos causados pelas escolhas de consumo dos moradores da cidade, assim como de outras partes do Brasil e do mundo, têm reflexos sobre a planície pantaneira.
Qual a importância desta informação para o desenvolvimento sustentável que queremos?
A pegada ecológica é uma metodologia usada para medir os “rastros” do consumo humano no planeta. Ela pode ser aplicada a países, cidades e pessoas e corresponde ao tamanho das áreas produtivas terrestres e marinhas necessárias para sustentar determinado estilo de vida. É uma forma de traduzir, em hectares, a extensão de território que uma pessoa ou uma sociedade utiliza para morar, se alimentar, se locomover, se vestir e consumir bens de consumo em geral.
Já existem duas outras “pegadas” que são utilizadas como medidas para verificar o impacto da atividade humana na natureza. A pioneira delas é a “pegada de carbono” que analisa a emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE) a partir de uma atividade ou processo produtivo. A “pegada hídrica”, por sua vez, estabelece o impacto de determinada atividade (produto, processo, serviço, cadeia produtiva inteira ou de uma simples pessoa) sobre os recursos hídricos diretos e indiretos, das regiões onde ela se localiza (ou habita, no caso de pessoas).
Assim,quando comemos um hambúrguer, por exemplo, estamos também consumindo 2.400 litros de água utilizados no processo produtivo do hambúrguer, desde o plantio do capim, dos cuidados e do abate do boi, do transporte da carne, da produção do hambúrguer, da sua distribuição, etc.
A “pegada ecológica” tem outra abrangência. Ela reflete o que se pode chamar de “contabilidade ambiental” que avalia a pressão do consumo humano sobre os recursos naturais. Ela tem uma medida própria – hectares globais (gha) – utilizada em todas as medições, de modo que é possível comparar as pegadas de países, de cidades, de pessoas, de empresas, e verificar se elas estão dentro da capacidade de recuperação ecológica do planeta, também chamada de “biocapacidade”. A relação ideal entre pegada ecológica e biocapacidade é de equilíbrio. Atualmente, há desequilíbrio. A pegada ecológica do planeta é de 2,7 gha por pessoas ; a biocapacidade disponível para cada ser humano é de 1,8 gha. Há, portanto um déficit ecológico de 0,9 gha. Isto significa que o consumo excede a capacidade regenerativa do planeta. Se não mudarmos os padrões de consumo, não teremos mais recursos naturais disponíveis para nos sustentar. Esta informação não é nova; ela é mais uma vez confirmada por outra metodologia, que usa cálculos e parâmetros diferentes, mas chega ao mesmo lugar: o planeta está exaurido.
O Brasil possui uma pegada ecológica de 2,9 gha por habitante, um pouco acima da pegada ecológica mundial. A pegada ecológica do estado de Mato Grosso do Sul é de 2,1 gha. A de Campo Grande, de 3,14 gha. A cidade tem um pouco menos de 800 mil habitantes. Se todas as pessoas do planeta consumissem como os moradores de Campo Grande, seriam necessários quase dois planetas para sustentar este estilo de vida.
A maior parte desta pegada está associada ao consumo de alimentos (45% dos 3,14 gha) e serviços (18%). Nestes itens, é interessante destacar que o alimento mais consumido é a carne e o serviço mais utilizado é o de restaurantes. O campo-grandense consome 90 kg de carne por ano, quando o consumo mundial médio é de um pouco mais de 78kg / ano per capita.
De posse deste perfil de classe de consumo, a sociedade civil organizada, as entidades de produtores rurais e de trabalhadores, a prefeitura, o governo estadual e mesmo a instância federal podem estudar ações para agregar valor à pecuária local, de modo a reduzir os impactos. Por “agregar valor”, entenda-se não apenas tornar a atividade mais ecoficiente, com redução per capita no consumo de recursos naturais. A pegada ecológica só será efetivamente menor se o “consumo absoluto” destes recursos for reduzido. Isto é: mesmo que cresça o número de cabeças de gado, o consumo geral de recursos naturais, diretos e indiretos, da atividade continue caindo. Não é tarefa fácil, mas é o desafio de sustentabilidade que temos pela frente, inclusive as empresas.
Não haverá atividade sustentável sem a redução absoluta no uso de recursos naturais em processos, produtos e serviços. Isto exige altas taxas de criatividade e de inovação em todos os níveis. Exige também mudança individual de comportamento, abertura para aceitar outros padrões consumo. Mas, não é disso que trata o desenvolvimento sustentável?
No site wwf.org.br/pegadaecologica, você pode calcular a sua pegada ecológica e, assim, mudar alguns hábitos de consumo para ajudar a cidade, o país e o planeta. Atitudes individuais são importantes para a transição a uma nova economia, inclusiva, verde e responsável. São as pessoas que mudam a cultura e o comportamento.
terça-feira, 12 de abril de 2011
Novo desenvolvimento recicla velhas ideias
por Kanya D’Almeida, da IPS
A edição de 2011 do “Informe sobre o Desenvolvimento Mundial”, apresentado ontem, centra-se em como os conflitos interferem com o avanço em um planeta onde 1,5 bilhão de pessoas vivem em meio a uma violência incessante ou recorrente. No entanto, muitos economistas progressistas afirmam que o documento, elaborado anualmente pelo Banco Mundial, não se afasta muito das políticas neoliberais que mantêm um status quo mundial de desigualdade.
“Embora o Banco Mundial enfatize a necessidade de haver instituições mais fortes, esta retórica nem sempre segue em linha com as políticas reais”, disse à IPS o economista Mark Weisbrot, codiretor do Centro de Pesquisa em Economia e Política, com sede em Washington. “Na América Latina, por exemplo, muitos governos tentam fazer o correto, mas não têm a capacidade administrativa e isso é algo com que o Banco Mundial realmente pode contribuir”, acrescentou.
“O problema é que o Banco Mundial é parte de um consórcio com o Fundo Monetário Internacional, por isso geralmente acabam apoiando políticas que reduzem a capacidade dos governos, centrando-se na assistência do exterior”, afirmou Mark. “Embora concorde com a prioridade do Banco Mundial de se comprometer com a sociedade civil, é preciso que isto se combine com reformas econômicas mais amplas. Por exemplo, dos 51 países classificados há 40 anos como Menos Adiantados, apenas três progrediram. Isto mostra com que tipo de problema estrutural estamos tratando”, ressaltou o economista.
O relatório 2011, intitulado “Conflito, Segurança e Desenvolvimento”, é essencialmente criação do presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick. Nele são retomadas as ideias de um discurso que fez em 2008 no Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, intitulado “Estados Frágeis: Garantir o Desenvolvimento”.
Segundo o estudo apresentado ontem, as crianças que vivem em Estados frágeis têm o dobro de probabilidade de sofrer desnutrição e o triplo de abandonar os estudos. Nenhum país considerado “frágil” ou assolado pelos conflitos, cumpriu até agora um só dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, e a pobreza é 20% superior em países afetados por ciclos de violência. Para um país em desenvolvimento médio, os conflitos civis custam cerca de 30 anos de crescimento do produto interno bruto.
Todos estes são indicadores da necessidade de mudanças exaustivas no sistema mundial para superar as condições que prejudicam aproximadamente 17% da população do planeta.
Este ano, o informe do Banco adotou uma singular metodologia de compilação, priorizando os dados coletados em pesquisas locais e nacionais prévias, ao mesmo tempo em que tira suas próprias conclusões e faz recomendações. “Nos demos conta de que a comunidade internacional tem de fazer as coisas de modo diferente”, disse o codiretor do Estudo, Nigel Roberts, em entrevista coletiva dada sexta-feira em Washington.
“A violência do Século 21 é fraturada, intensa, complexa, está arraigada e é difícil de eliminar. Por isto, são necessários esforços nacionais, acima de soluções importadas do exterior; o conhecimento sobre como abordar a violência está nos profissionais locais, não nas agências ocidentais e nas instituições acadêmicas internacionais”, afirmou Nigel.
O informe enumera quatro pontos básicos que devem ser abordados com urgência se a intenção é frear os ciclos de violência e desejar um progresso duradouro nos Estados que por várias gerações sofre os efeitos do terrorismo, da repressão política e das injustiças econômicas.
Esses pontos são: melhorar a legitimidade institucional; investir em segurança civil, justiça e emprego; adotar um enfoque nacional-regional em várias pontas para conseguir a mudança, e ter consciência de um cenário mundial impreciso onde os países emergentes e as instituições regionais devem ser potencializados para desempenhar um papel muito mais importante na definição da agenda do Século 21.
“Pão e liberdade não são questões de e/ou. Cada elemento é requisito para que o outro exista e devemos promovê-los simultaneamente”, afirmou Justin Lin, primeiro-vice-presidente e primeiro economista do Banco Mundial. Omar Dahi, professor de Economia para o Desenvolvimento no Hampshire College, disse à IPS que “na última década, o Banco Mundial tentou reverter sua desastrosa posição neoliberal dos anos 1980 e 1990 centrando-se mais no desenvolvimento humano”. Porém, ainda não está claro “se abandonou o modelo neoliberal no plano macro, ao centrar-se na liberalização comercial e na dependência dos investimentos estrangeiros”, acrescentou.
“Este modelo já não é sustentável”, enfatizou Omar, que considera positivo que agora se volte a atenção para as instituições, em lugar de focar apenas na integração, “mas a criação de instituições é um processo difícil”, disse. “Destaco a necessidade de dar poder às cooperativas e entidades sindicais e camponesas mais do que às organizações não governamentais”, ressaltou.
Embora defenda apoio às instituições democráticas fortes, o “Informe sobre o Desenvolvimento Mundial 2011” não reconhece que o Conselho Executivo do Banco esteja dominado pelos cinco doadores mais ricos: Alemanha, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Japão. “Este é o momento para que o próprio Banco Mundial se democratize para que os países em desenvolvimento possam ter maior ingerência em seu modo de operar. O Banco não pode impulsionar a boa governança quando é um exemplo de governança autoritária”, disse Omar à IPS.
Em resposta ao debate que o informe gera a propósito do terrorismo, Daniel Gorevan, porta-voz da Oxfam Internacional, declarou que o estudo não aborda “o impacto que pode ter a ajuda internacional centrada em objetivos militares ou de segurança no curto prazo na exacerbação da violência”. E acrescentou que “vivemos um preocupante aumento do grau da assistência militarizada ou politizada. Isso é problemático, especialmente se esta ajuda não aborda as causas de conflito e coloca em risco as vidas das comunidades ou dos trabalhadores humanitários”. Envolverde/IPS
Fonte: IPS/Envolverde
segunda-feira, 11 de abril de 2011
O sutiã, a infância e a responsabilidade corporativa
por Jorge Abraão
Há alguns, uma polêmica invadiu os blogs e os tweeters brasileiros, repercutindo também nas mídias tradicionais: a venda de um sutiã com enchimento de espuma para meninas de 4 a 6 anos. Para torná-lo mais atraente, o sutiã vinha com personagens licenciados por uma companhia que é sinônimo de família e de confiança.
Embora o produto já estivesse esgotado nas lojas de São Paulo e do Rio, e tenha virado “febre” entre as meninas, os comentários nas redes e na imprensa eram indignados. Falou-se em “adultização” das crianças, em exploração precoce da sexualidade das meninas e até em irresponsabilidade das empresas que produzem e que comercializam o do produto.
A pressão foi tanta que, na quinta-feira, as empresas retiraram o sutiã do mercado e enviaram notas à imprensa, avisando sobre esta retirada. Mas, até o momento, esta ação não foi suficiente para estancar o impacto negativo na reputação delas, já que a indignação continua país afora.
Uma psicóloga da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Maria Luiza Bustamante, chegou a afirmar que um produto deste tipo, necessário apenas para adultos, pode ser prejudicial à formação das crianças. Foi taxativa na sua avaliação: “trata-se de mais uma tentativa da indústria de ganhar dinheiro a qualquer preço, sem se importar com a saúde das crianças”.
É possível que a Promotoria da Infância e da Juventude venha a adotar alguma providência judicial sobre este fato, o que pode acarretar processo para as empresas implicadas.
Este fato nos faz refletir como cidadãos e como participantes do movimento brasileiro da responsabilidade social empresarial.
As perguntas que vêm à mente, a partir desse episódio, são: quais os limites da atuação das empresas em seus negócios? Eles estão evidentes, ou seja, são percebidos como “limites” por todos os “outros” agentes da sociedade? Se sim, o que levou duas corporações com ilibada reputação no mercado a avançar o sinal? O produto vinha sendo um sucesso de vendas, mas vai deixar um passivo na reputação de empresas solidamente posicionadas que será difícil de recuperar em curto prazo. Valeu, então, o lucro financeiro obtido?
Não temos respostas prontas, mas, podemos contribuir para a reflexão a partir de um ponto de vista da gestão socialmente responsável.
Decisões comerciais não devem se sobrepor a interesses da sociedade.
As empresas que estão no mercado só estão por causa de uma “licença para operar” formal e informal. Esta última é dada pela reputação que a empresa constrói ao longo do tempo, de modo que os cidadãos consideram-na importante para suas vidas. Esta importância informal vem se desdobrando, nos últimos tempos, nas diversas demandas “transversais” com as quais um negócio precisa lidar para continuar operando. Por isso, a gestão responsável baseia-se no “diálogo com as partes interessadas” : para entender quais são as demandas transversais e como incorporá-las na estratégia corporativa. Quando o diálogo é bem construído, os limites de cada parte são entendidos – é o que se chama de consenso. Deste consenso podem derivar medidas de autoregulação de empresas e setores e de políticas públicas que passam a ser cobradas dos governos, em suas diversas instâncias. Um bom exemplo de auto-regulação, na sociedade brasileira, é o Conar – Conselho de Autorregulação Publicitária, uma ong fundada em 1980 por entidades representativas das agências de publicidade, dos anunciantes e dos veículos de comunicação. Qualquer cidadão pode encaminhar uma queixa contra ações publicitárias à entidade. Mas ele próprio monitora os anúncios veiculados e, quando considera ser o caso, encaminha “recomendação” para retirar as campanhas do ar. E é atendido.
A existência do Conar demonstra que a sociedade brasileira é de criar e manter mecanismos de autorregulação, mas a discussão sobre o que regular e como ainda precisa ser aprofundada. Precisamos, nós, brasileiros, definir o que consideramos aceitável e o que consideramos inaceitável. Por exemplo: comentamos, na quarta-feira, que o brasileiro almeja a paz como valor para uma sociedade futura, lembram-se? Pois, se isso é mesmo verdade, será que devemos aceitar a proliferação sem critério de jogos e videogames violentos? Se queremos mesmo a paz, está certo presentearmos nossos filhos com armas de brinquedo? Se nos preocupamos com a formação moral de nossas crianças, aceitamos a pressão consumista deles e compramos o que nos solicitam (o sutiã em questão era um sucesso de vendas até ser retirado do mercado)? Estamos ensinando nossos filhos a guiarem-se pela vida por meio de valores como honestidade, orgulho, ou pelo sucesso a qualquer preço?
Hoje, vamos deixar mais perguntas que soluções. Mas talvez seja esta a lição que fica do episódio. Precisamos nos questionar profunda e insistentemente, como cidadãos, profissionais e empresários, a respeito das nossas atitudes e da conseqüência delas para o futuro de nossas crianças.
quinta-feira, 7 de abril de 2011
Programa de Metas poderá ser obrigatório para governos federal, estaduais e municipais
A Rede Nossa São Paulo, com o apoio de diversas organizações da sociedade civil, apresentou no dia 6 de abril, uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que prevê a obrigatoriedade do Programa de Metas para os governos federal, estaduais e municipais. A ideia é repetir nacionalmente a experiência pioneira lançada em São Paulo, que é um marco na história da democracia brasileira.
De acordo com a proposta, o Presidente da República, os Governadores de Estados e os Prefeitos, eleitos ou reeleitos, apresentarão à sociedade civil e ao Poder Legislativo competente o Programa de Metas e Prioridades de sua gestão, até noventa dias após a respectiva posse, que discriminará expressamente: as ações estratégicas, os indicadores de desempenho e as metas quantitativas e qualitativas para cada um dos setores da Administração Pública direta e indireta por unidades regionais de planejamento e desenvolvimento, observando, no mínimo, os objetivos, diretrizes, ações, programas e intervenções estratégicas e outros conteúdos conexos, apresentados como propostas da campanha eleitoral devidamente registradas no órgão eleitoral competente.
Clique aqui para acessar a íntegra da PEC
Um abaixo-assinado começou a circular para que outras organizações possam aderir à proposta que será encaminhada aos partidos políticos. Clique aqui para assinar o documento. Veja aqui a relação das organizações que já declararam apoio à proposta.
Participe e divulgue!
Fonte: Rede Nossa São Paulo
quarta-feira, 6 de abril de 2011
Quais são os valores que os brasileiros mais prezam?
Pesquisa feita pela Marcondes Consultoria com a britânica Barrett Values Centre traz um retrato da percepção que o cidadão ou cidadã brasileira tem de si e da realidade que o cerca, com base em valores pessoais que os entrevistados consideraram os mais importantes para si e para os outros.
É um estudo inédito no país e traz dados importantes para a definição de estratégias de governos, empresas e organizações da sociedade civil, particularmente num momento em que o Brasil precisa definir um modelo de desenvolvimento sustentável que o consolide como “liderança verde” no plano internacional.
Conhecer os valores que os brasileiros mais prezam e adotam também ajuda a estimular o protagonismo e a atitude proativa nas pessoas, de modo a construir um país cada vez melhor para todos.
A pesquisa
O levantamento de dados foi feito pelo Instituto Datafolha, por meio de entrevistas com 2544 pessoas distribuídas por 160 municípios de todos os estados e Distrito Federal, em junho de 2010.
Os entrevistados responderam três perguntas
- Quais valores são os mais representativos de quem você é?
Os cinco mais votados foram: Amizade (50,9%), Família (44%), Honestidade (39,5%) , Respeito (37,3%) e Humildade e Alegria (34,7%)
Os resultados mostram que os brasileiros se vêem como pessoas que têm consideração pelos outros, procuras contato próximo com as pessoas, gostam de compartilhar alegria e confiança, e possuem natureza alegre e modesta. Então, a imagem que o brasileiro faz de si é de um indivíduo gregário, amigável, honesto, alegre e humilde.
Entre os valores menos votados, encontram-se alguns que sociologicamente estão relacionados com protagonismo e empreendedorismo individual, como resolução de conflitos, aceitação de riscos e inovação. Outros valores menos votados – abertura, diversidade e interdependência – indicam também um indivíduo com dificuldades para negociações ou construções coletivas. Todos estes valores citados tiveram entre 2 e 3% de menções nas entrevistas.
- Quais são os mais representativos de como o Brasil opera hoje?
Os cinco mais votados foram: Corrupção (54,1%); Pobreza (52,1%); Crime/Violência (51,6%); Desemprego (48,5%); e Analfabetismo (37,9%)
Estas mostram que os brasileiros têm consciência dos problemas e uma visão crítica do país. Instituições e lideranças têm baixa credibilidade; há a percepção de que: existem carências básicas a serem atendidas e hostilidades que podem afetar a vida das pessoas e da sociedade; faltam oportunidades; o futuro é inseguro
Os valores menos votados (entre 2 e 3% de menções) , nesta pergunta, foram: resolução de conflitos, foco no curto prazo, senso de comunidade, transparência, honra, paternalismo, perdão (todos com 3%), integridade e visão compartilhada (2%). Estes resultados indicam um quadro de poucas expectativas em relação à busca coletiva de soluções para os problemas nacionais. Isto pode advir tanto do fato de não haver confiança em instituições e líderes quanto em uma “cultura” consolidada de solucionar o problema de acordo com os interesses próprios.
- Quais valores deveriam ser representativos para o Brasil operar no futuro?
Paz (40,8%), Justiça (28,4%) , Redução da pobreza (27,5%), Moradia confortável (26,6%) e cuidados com pessoas idosas (26,4%)
Os resultados mostram que o brasileiro quer viver em um país no qual existam condições de “bem comum”, como justiça e paz; sejam satisfeitas suas necessidades físicas e financeiras (moradia confortável e redução da pobreza); e que as pessoas sejam consideradas, independente da idade. Assim, no que tange ao futuro, os brasileiros vislumbram a solução dos problemas básicos e têm aspirações mais elevadas do que as atuais.
Entre os valores menos citados para a cultura desejada, ressaltam-se: burocracia, corrupção, desperdício de recursos, dependência de serviços públicos, pobreza (3%), preconceito por conta de sexo, foco no longo prazo, incerteza sobre o futuro, necessidades materiais, autoritarismo, materialismo, culpa, agressividade, foco no curto prazo (25), paternalismo, elitismo e vingança (1%). Vale destacar dois valores que tiveram 4% de votação: interdependência e diversidade.
Podemos inferir, a partir desta relação, que os brasileiros querem viver num país “livre” dessas dificuldades. Mas, novamente, pela baixa votação obtida para “interdependência” e “diversidade”, podemos deduzir que há uma limitação para alcançar soluções coletivamente.
Outros recortes interessantes da pesquisa
Nas menores faixas de renda e entre as mulheres de qualquer renda, a amizade e a família são os valores pessoais predominantes. Os homens de mais renda valorizam a competência.
Na cultura atual, a corrupção é destaque em todas as faixas de renda, mas as mulheres demonstram mais preocupação do que os homens com este problema. Elas também se preocupam mais do que os homens com pobreza, crime e desemprego.
Na cultura desejada, justiça social e igualdade de oportunidades são valores relevantes para quem ganha mais de 5 mil reais /mês. Para quem ganha menos, cuidados com a saúde são preponderantes. No recorte de gênero, as mulheres e homens dão valor maior para paz, justiça social. No entanto, para as mulheres, em seguida vêm moradia confortável e cuidado com pessoas idosas. Para os homens, oportunidade de emprego e estabilidade econômica são prioritários.
E onde vamos chegar?
O que chama a atenção é que, pelos resultados desta pesquisa, o brasileiro não correlaciona os seus valores individuais – honestidade, alegria, prioridade no contato próximo com pessoas e humildade – com a capacidade de agregar pessoas para solucionar coletivamente os problemas apontados e que são, mesmo, nossas chagas ancestrais: pobreza, corrupção, violência, desemprego, desperdício de recursos. Mais paradoxal ainda é a visão de futuro que emerge da pesquisa: o brasileiro tem esperança num futuro bom, mas a baixa menção a valores como resolução de conflitos, inovação e aceitação de riscos deixa dúvidas sobre a maneira como se chegar a este futuro. Quem vai resolver os problemas?
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Direitos humanos e práticas empresariais: entendendo as responsabilidades
Este foi o nome de um evento realizado em São Paulo, nos dias 30 e 31 de março últimos, reunindo CEOs e representantes de mais de cem empresas atuando no Brasil.
Na verdade, tratou-se mais de um fórum de líderes para troca de idéias sobre as dificuldades para integrar as práticas empresariais responsáveis e os direitos humanos.
Algumas questões discutidas:
- De que maneira as atividades da empresa causam impacto nos direitos das partes interessadas (público interno, comunidade, consumidores, fornecedores)?
- O que é necessário para expandir o conhecimento e a prática do respeito empresarial pelos direitos humanos, de uma forma favorável aos negócios?
Este evento foi organizado pelo Instituto Ethos, a Conectas, o Pacto Global da Onu e Levy & Salomão Advogados e pela GBI – Global Business Initiative for Human Rights (ou Iniciativa Global dos Negócios pelos Direitos Humanos, numa tradução livre), um projeto internacional que busca fazer avançar a discussão e a internalização dos direitos humanos nas práticas empresariais. A GBI trabalha em parceria com o Pacto Global das Nações Unidas e com o governo suíço. Para facilitar a compreensão de como direitos humanos e negócios podem e devem andar juntos, a GBI desenvolveu uma plataforma que integra estes direitos à gestão dos negócios.
Uma das áreas da responsabilidade corporativa que apresenta, talvez, os maiores desafios para as empresas, no século 21, é a dos direitos humanos. Este tema continua sendo prioritariamente uma responsabilidade de governos e de Estados. Mas, a sociedade demanda cada vez mais que as empresas respeitem estes direitos e contribuam para seu avanço, coibindo abusos em seu âmbito de atuação.
No entanto, é importante ressaltar que ser proativo em direitos humanos não é só uma questão de evitar riscos aos negócios. É a coisa certa a fazer. Mas quais são as responsabilidades de direitos humanos das empresas? Até onde devem ir? Como aplicar os direitos humanos nas estratégias, decisões e operações dos negócios?
John Ruggie, professor de Direitos Humanos de Harvard, decidiu debruçar-se sobre estas questões e teve o apoio da ONU. Tornou-se representante especial do secretário-geral das Nações Unidas para Direitos Humanos em 2005 e, durante três anos, fez pesquisa e consultas a empresas, governos e sociedade civil, nos cinco continentes. Em 2008, propôs às Nações Unidas, uma estrutura de políticas para gerenciar os desafios de empresas e direitos humanos.
A estrutura baseia-se em três pilares: o dever do Estado de proteger os cidadãos contra os abusos aos direitos humanos por parte de terceiros, inclusive empresas; a responsabilidade corporativa de respeitar os direitos humanos; e total acesso das vítimas a recurso efetivo, judicial e extrajudicial.
O dever do Estado enfatiza que a conduta-padrão dos governos deve ser prevenir e solucionar os abusos, caso contrário podem ser responsabilizados por não lidar apropriadamente com a questão, inclusive com abuso por parte de empresas. Por lidar apropriadamente entenda-se não apenas estabelecer marcos legais que protejam os DH, usar os instrumentos da Justiça para coibir e/ou punir os abusos, mas também respeitar estes direitos em seus próprios órgãos e empresas, dentro e fora do país, bem como trabalhar em conjunto para prevenir e lidar com alguns notórios abusos perpretados por empresas.
Ruggie define responsabilidade corporativa de respeitar como atuar com o devido cuidado para evitar a violação dos direitos dos outros. Este dever vai além do cumprimento das leis nacionais. As empresas podem assumir responsabilidades adicionais voluntariamente, como, por exemplo, fazer avançar a agenda do trabalho decente nas suas operações em determinado país.
Necessidade de fácil acesso à justiça inclui mecanismos estatais que garantam acesso ao sistema judicial e também mecanismos em nível corporativo, que operam por meio do diálogo e da mediação, tipo canal de reclamações, arquivo de acompanhamento da reclamação, encaminhamento ao sistema judiciário, se for o caso, e informação sobre andamento da demanda.
Levando em conta estes três pilares, Ruggie também propôs um Guia para Integração de Direitos Humanos na Gestão dos Negócios, que oferece orientações práticas para empresas que queiram assumir uma abordagem proativa em relação a direitos humanos em suas operações. Tem utilidade para negócios de qualquer porte, de qualquer natureza, sejam estatais ou privados.
Este guia sugere cinco etapas para a integração:
- Entender o que são direitos humanos
- Entender como os direitos humanos se relacionam com negócios
- Identificar riscos, responsabilidades e oportunidades para o seu setor
- Desenvolver a integração na sua empresa
- Obter comprometimento dos executivos e engajamento dos funcionários
Casos práticos – Estas orientações visam trazer para o mundo “concreto” das empresas um tema que os próprios profissionais ainda acreditam estar relacionado com ocorrências de maus tratos em âmbito policial (estatal). Esta dificuldade ficou bem evidente nesse evento do final de março.
O vice-presidente de Cidadania Corporativa da GE, Bob Corcoran, presente à reunião, afirmou que o primeiro passo da companhia, ao iniciar a política de DH, foi qualificar os colaboradores, que viam direitos humanos como casos de tortura. A dificuldade atual é mostrar aos fornecedores que eles devem monitorar a sua cadeia produtiva, porque eles entendem esta tarefa como custo e não com investimento.
O vice-presidente da mineradora colombiana Cerrejón, Julián Gonzáles, também apresentou as dificuldades de se fazer um diagnóstico dos impactos do negócio sobre os direitos humanos. Em pouco mais de cinco anos, a partir de alianças intersetoriais, envolvendo governos locais, organizações sociais e comunidades diretamente atingidas pela extração de minério e carvão, mais de 14 mil pessoas foram qualificadas sobre direitos humanos.
Nesse trabalho, a população de mais de 300 comunidades diretamente relacionadas ao negócio entendem o que ocorre a sua volta, sabem onde estão os problemas e fazem chegar à empresa formas de compensação, principalmente nas comunidades indígenas. Trata-se, no fim, de uma espécie de licença social para operar.
A iniciativa já criou uma ouvidoria apenas para levantar as constatações da população e, com isso, criar uma radiografia local que baseia as estratégias da empresa.
As empresas brasileiras que já têm forte atuação no combate ao trabalho infantil e ao trabalho análogo à escravidão podem contribuir muito para que os direitos humanos entrem de vez na estratégia e na agenda corporativas.
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Estatais melhoram a governança. Poderiam dar outros passos para a sustentabilidade.
O Diário Oficial da União publicou, na segunda-feira, duas resoluções que vão causar grande impacto na governança das estatais federais, melhorando as práticas corporativas e ampliando a transparência das contas e dos balanços.
Estas medidas vêm ao encontro das demandas da sociedade por mais transparência na gestão da coisa pública e apontam para o caminho da “economia responsável”, uma das dimensões da sustentabilidade. O governo bem podia avançar e estabelecer diretrizes sociais e ambientais para as empresas públicas e mistas.
As resoluções que vamos comentar são da Comissão Interministerial de Governança Corporativa e de Administração de Participações Societárias(CGPAR). Elas foram aprovadas no final do governo Lula e publicadas no início da semana no Diário Oficial da União (DOU).
Uma das resoluções publicadas vincula a auditoria interna ao Conselho de Administração da estatal, prevê que esta auditoria mantenha relação institucional com a Controladoria Geral da União (CGU) e o Tribunal de Contas da União (TCU), bem como determina que o corpo de auditoria tenha regulamento próprio. Com isso, os auditores internos ganham mais independência para suas análises, já que terão regras próprias para analisar as contas das empresas e só responderão ao Conselho de Administração, ao TCU e a CGU. Como forma de prestar contas à sociedade, essa resolução também prevê mais ênfase na divulgação das decisões e fluxos financeiros das empresas.
A outra resolução da CGPAR publicada segunda-feira estabelece que a informação sobre os valores da menor e da maior remuneração dos empregados e administradores terão de computar as vantagens e benefícios efetivamente recebidos por eles. As estatais terão também de divulgar o salário médio dos empregados e dirigentes. Estas informações não implicam quebra de sigilo, pois a empresa não precisa divulgar os nomes dos funcionários com seus respectivos salários. O que a resolução pede é que estes dados, que já vêm nos relatórios de forma agregada, sejam destacados de maneira específica.
Esta mesma resolução estabelece também a exigência de avaliação formal de cada membro da diretoria e do Conselho de Administração, para subsidiar o acionista na decisão de reconduzir ou não os membros da diretoria e os conselheiros aos cargos.
Nenhuma empresa faz esse tipo de avaliação, então, haverá um grande esforço interno para modificar estatutos e elaborar normas internas para cumprir esta determinação.
Outra estabelecida pelas resoluções é que não pode haver acúmulo de cargos nas estatais. Assim, o presidente da empresa não poderá ser presidente do Conselho de Administração, nem mesmo interinamente, prática comum nas estatais de porte intermediário, que não possuem ações em bolsas.
Estas resoluções têm caráter prioritariamente administrativo, mas sua aplicação redundará em forte impacto político na sociedade e na economia. Elas mudam o conteúdo dos balanços, deixando visíveis algumas informações estratégicas para a ampliação do monitoramento e do controle social sobre as estatais federais. Esta demanda por transparência – e, por conseqüência, por controle – representa um grande avanço no modelo de desenvolvimento sustentável que queremos construir.
As resoluções da CGPAR representam um grande avanço na gestão das estatais e apontam para o que parece ser uma decisão estratégica de governo de desenvolver uma cultura de transparência, que é fundamental para a construção do desenvolvimento sustentável que queremos. O governo federal pode ir além e criar outros marcos regulatórios que ajudem o mercado a estabelecer diretrizes para as empresas privadas promoverem, elas próprias, valores éticos e mecanismos de combate à corrupção. Também pode dar outros passos no seu próprio âmbito, estabelecendo, por exemplo, diretrizes para equidade de gênero e raça nos quadros funcionais; obrigatoriedade de publicação de relatório de sustentabilidade, como a GRI; estabelecendo prazo para publicação de relatório único (social, ambiental e financeiro); adotando metas para emissões de carbono, de gestão de resíduos, de gestão da água destas empresas, entre outras.
Na verdade, precisamos ter em conta que o aumento da participação do Estado nas economias, aliado à necessidade de compatibilizar consumo, meio ambiente e inclusão social, está fazendo surgir outro tipo de relação entre público e privado que precisa ser monitorado. Quais os critérios para este monitoramento? Eles ainda precisam ser construídos, mas adotando resoluções como estas aqui comentadas e avançando nos critérios de gestão sustentável, o governo certamente influenciará as empresas privadas a caminhar no mesmo sentido, mudando, assim, o mercado e a economia.

