sexta-feira, 26 de março de 2010

O papel das empresas na construção de cidades sustentáveis

As empresas comprometidas com o movimento da responsabilidade social têm feito grandes avanços de gestão no sentido de tornarem-se parceiras da sociedade para a construção do desenvolvimento sustentável. No entanto, muitas vezes, a sociedade não consegue perceber as mudanças, porque elas ocorrem nas cadeias de valor ou no planejamento estratégico, algo muito distante do cidadão comum.

A maneira mais direta de mostrar os resultados da gestão sustentável para a cidadania é contribuindo, junto com outros setores da sociedade, para melhorar a qualidade de vida das cidades. Foi com este objetivo que surgiu o Movimento Nossa São Paulo, cujo exemplo logo se espalhou por outras trinta cidades brasileiras. Hoje, temos o Movimento Rio Como Vamos, Belém Sustentável, Nossa Campinas, Nossa Campo Grande, Nossa Ilha Mais Bela, Nossa Salvador, Nossa Santos Sempre Ética e Transparência Capixaba, entre outros.

Estes movimentos formaram a Rede Social Brasileira por Cidades Justas e Sustentáveis, que estão reunidos entre 27 e 28 de março, em Teresópolis para trocar experiências e discutir como estabelecer um modelo de desenvolvimento justo e sustentável para as cidades, por meio da democracia participativa.

O Movimento Nossa São Paulo vem dando exemplo, pois foi o primeiro a estabelecer indicadores e, junto com a prefeitura, metas e planos plurianuais.

Também foi o primeiro a mobilizar-se e fazer a Câmara Municipal aprovar uma mudança fundamental na Lei Orgânica do Município: desde 2008, os prefeitos são obrigados a divulgar um plano detalhado de governo em até 90 dias após tomar posse e prestar contas à população a cada seis meses. Outra conquista importante do Nossa São Paulo foram os indicadores Ir Bem – Indicadores de Referência de Bem Estar no Município, que servem para orientar ações de empresas, organizações, governos e toda a sociedade, considerando como foco principal o bem-estar das pessoas.

A partir das carências apontadas no Ir Bem – Indicadores de Referência de Bem Estar no Município, em educação, saúde pública, segurança, o Instituto Ethos e o Movimento Nossa SP estão organizando o Fórum Empresarial de Apoio a Cidade de São Paulo. A idéia é que as empresas, um dos setores mais organizados e poderosos da sociedade, empreendam ações e parcerias (entre si ou com outras organizações e entidades públicas e privadas) visando o desenvolvimento sustentável da capital paulista.

Podem fazer parte do Fórum empresas que de qualquer porte ou atividade que atuem na cidade. As interessadas podem enviar um email para contato@foruempresarialsp.org.br . Também podem responder um questionário sobre projetos e ações que já desenvolvem e que trouxeram melhoria para a sociedade. O questionário pode ser baixado a partir do site

http://www.nossasaopaulo.org.br/portal/forumempresarialsp

E, para conhecer o programa de metas da cidade de São Paulo, monitorar e cobrar que elas sejam cumpridas, acesse:

http://ww2.prefeitura.sp.gov.br/agenda2012/

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quarta-feira, 24 de março de 2010

No limite da água

Segunda-feira foi o Dia Mundial da Água e vimos muitas entrevistas e comentários a respeito, principalmente, da escassez que a humanidade vai enfrentar deste recurso fundamental para a vida no planeta, especialmente a vida humana.

A água é um bem finito que está sendo desperdiçado, como ocorre com outros recursos naturais.

Apenas 2,5% da água do nosso planeta é doce e a maior parte está em geleiras.
Menos de 1% de toda a água que existe é própria para consumo do homem e está nos rios, lagos e lençóis subterrâneos (difícil acesso).

Segundo o RDH - Relatório de Desenvolvimento Humano (PNUD – ONU) de novembro de 2006:

- cerca de 1,1 bilhão de pessoas não têm acesso à água tratada no mundo;
- por volta de 2,6 bilhões não têm instalações básicas de saneamento (maioria dessa população vivendo na África e na Ásia);
- metade dos leitos hospitalares é ocupado por doenças causadas pelo uso de água imprópria;
- a diarréia tira a vida de 4.900 crianças menores de 5 anos por dia.

Enquanto um habitante de Moçambique usa, em média, menos de 10 litros de água por dia, um europeu consome entre 200 e 300, e um norte-americano, 575 (50 litros só nas descargas). Cada pessoa deveria ter disponíveis ao menos 20 litros de água para consumo, por dia.

Se continuarmos a desperdiçar, vai faltar água potável. E engana-se quem acha que o problema está bem longe. A cidade de São Paulo está no limite do consumo de recursos hídricos. Você sabe de onde vem a água que você bebe, usa para cozinhar ou para fazer sua higiene pessoal?

A região metropolitana é abastecida por oito sistemas que captam água em diferentes mananciais, alguns deles a 100 km da capital. 48% do abastecimento é “importado” de rios e lagos de outras cidades e até outros estados. O problema é que esta água já chega com níveis de poluição muita alta aos reservatórios. Assim, além de ir longe, é preciso também ir fundo, embaixo da terra, para encontrar água potável.

A Sabesp informa que há 3,8 milhões de ligações ativas de água. A CETESB informa que 80% dos municípios que compõem a região metropolitana de São Paulo já são abastecidos por águas subterrâneas (poços), atendendo uma população de mais de 5 milhões de pessoas. Só 30% dos poços são legais. E, até nestes lençóis subterrâneos, a água já está contaminada por esgoto, óleo, gasolina, metais e um sem número de substâncias que o sistema convencional de tratamento não consegue detectar, genericamente denominadas poluentes orgânicos persistentes – substâncias químicas que persistem no meio ambiente, acumulando-se nos microorganismos nas plantas, nos animais e no próprio ser humano.

A ocupação irregular das margens das represas e dos rios, o descarte de lixo em locais inadequados, os esgotos clandestinos, os postos de gasolina, o armazenamento e o manuseio incorretos de substâncias tóxicas são algumas das principais fontes de contaminação das águas que abastecem São Paulo.

Outros problemas para discutirmos e você comentar:

- as redes públicas de abastecimento perdem 30% da água retirada dos mananciais, ou 1 bilhão de litros de água por dia, com vazamentos, medição errada e fraudes.

- o consumo diário de São Paulo é de 2,4 bilhões de litros, ou 221 litros / dia por habitante.

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terça-feira, 23 de março de 2010

Programa Nacional de Mudança do Clima. A pressão precisa continuar.

O Programa Nacional de Mudança do Clima, estabelecido pela Lei 12187 é um avanço que pode não sair do papel. Tudo depende da mobilização da sociedade.

É bom lembrar que este plano fixa a redução de carbono entre 36,1% e 38, 9% até 2020 e define os setores que necessitam de plano específico de mitigação:

- Geração e distribuição de energia elétrica
- Transporte público urbano
- sistemas modais de transporte interestadual de cargas e passageiros,
- indústria de transformação e na de bens de consumo duráveis,
- indústrias químicas fina e de base, na indústria de papel e celulose,
- mineração, na indústria da construção civil,
- serviços de saúde e
- agropecuária

Conforme está expresso no artigo 12, Parágrafo Único, a projeção das emissões para 2020 e o detalhamento das ações necessárias para atingir a meta dependem de um decreto que terá por base o resultado do segundo Inventário Brasileiro de Emissões e Remoções Antrópicas de Gases de Efeito Estufa não Controlados pelo Protocolo de Montreal (obs: a Convenção de Montreal controla os gases que destroem a camada de ozônio).

O segundo inventário brasileiro de emissões será apresentado à Convenção de Mudança do Clima da ONU em 31 de março de 2011. A responsabilidade pela elaboração deste relatório é do ministério da Ciência e Tecnologia. A obtenção de informações para o relatório está a cargo de uma equipe de 700 especialistas e 150 entidades governamentais e não-governamentais, como ministérios, institutos, universidades, centros de pesquisa e entidades setoriais da indústria.

A meta estabelecida para 2020 está baseada no primeiro inventário nacional de emissões que foi divulgado em 2000 e abrangeu o período de 1990-1994. O segundo relatório terá 2000 como o ano-base e vai atualizar as informações do período 1990-1994. Como diretriz técnica básica para elaboração deste segundo inventário, serão utilizados os relatórios do I PCC.

O relatório vai incluir as emissões de carbono, metano, óxido nitroso, HFC, PFC e o hexafluoreto de enxofre. Os setores analisados pelo inventário são basicamente os mesmos listados na lei 12187 para regulamentação. Algumas atividades destes setores merecerão verificação mais detalhada quanto às emissões, tais como: queima de combustíveis, produção de cimento e cal, manejo de dejetos animais, queima de resíduos agrícolas, emissões originadas pela aplicação de fertilizantes nitrogenados, deposição de resíduos sólidos e tratamento de esgoto, entre outras.

Já existe um sumário destas emissões até 2005. Ele mostra que tanto em 1990 quanto em 2005, o desmatamento responde pela maior parte das emissões de carbono do país, seguido pela atividade agropecuária, energia, processos industriais e tratamento de resíduos.

Então, precisamos começar a batalha da regulamentação.

A lei é complexa, envolve muitos setores e interesses. As negociações para estabelecer as ações e a real participação de cada setor acima listado no compromisso da meta geral de redução de carbono vão ultrapassar este governo.

Por isso, os movimentos sociais, que conseguiram fazer os governos (não apenas o federal, mas vários estaduais e municipais) a adotarem metas de redução de carbono, não podem parar agora. A pressão precisa continuar para a divulgação do inventário e a aprovação do decreto. O Brasil que queremos precisa de uma economia verde, inclusiva e responsável. A Lei 12187 – Programa Nacional de Mudança do Clima – é o motor desta mudança.

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quinta-feira, 18 de março de 2010

Petróleo, royalties e políticas públicas

Em 1997, a lei 9478 estabeleceu que os pagamentos pela exploração de petróleo passassem de 5% para até 10% da produção mensal do campo produtor.

Os royalties são distribuídos à União (Ministério das Minas e Energia e Ministério do Meio Ambiente), aos Estados, Municípios e ao Comando da Marinha. Eles são recolhidos mensalmente pelas empresas concessionárias por meio de pagamentos efetuados para a Secretaria do Tesouro Nacional – STN, até o último dia do mês seguinte àquele em que ocorreu a produção. A STN repassa os royalties aos beneficiários com base nos cálculos efetuados pela ANP. Para alíquota dos royalties do campo produtor até 5%, o Comando da Marinha tem direito a 20% dela. Acima de 5% a parcela é de 15%.

Mineração - Os lucros do setor mineral são da mesma ordem de grandeza que os lucros do setor de petróleo. No entanto, os royalties decorrentes das atividades minerais, principalmente os pagos por grandes empresas do setor, são muito menores: ficam entre 0,2% e 3% sobre resultado líquido das concessionárias (não sobre a produção das jazidas, que seria o equivalente aos campos produtores de petróleo).

Em 2006, o petróleo pagou 6 bilhões de reais em royalties. O setor mineral pagou 466 milhões de reais. Levantamento realizado pela Câmara Federal em 2006 mostrou que a Vale responde por 40% dos royalties pagos pelo setor de mineração do país.

É preciso tornar o debate desapaixonado e mais racional, para entendermos o cenário e criarmos opções ao impasse gerado pela aprovação da Emenda Ibsen Pinheiro / Humberto Souto. Por este dispositivo, os royalties bilionários pagos pela Petrobras serão redistribuídos por todos os 27 Estados e 5.565 municípios do país, seguindo as regras de participação deles no Fundo de Participação dos Municípios (FPM) e no Fundo de Participação dos Estados (FPE).

Hoje, os royalties anuais do petróleo somam aproximadamente 9, 25 bilhões de reais. Deste total, o Estado do Rio de Janeiro fica com 4, 8 bilhões de reais e os municípios fluminenses produtores, com 2,6 bilhões (ou 80% do total, porque o Estado produz 80% do petróleo, via bacia de Campos). O restante é dividido entre São Paulo e Espírito Santo.

Com o início da produção do pré-sal, estima-se que a quantia de royalties pagos atinja quase 32 bilhões de reais por ano. Se a distribuição continuar no modelo atual, o Rio ficará com 80% destes recursos. Pela regra aprovada na emenda Ibsen / Souto, o estado fluminense terá perdas até o pré-sal entrar em operação; depois, a arrecadação sobe novamente.

A discussão sobre a distribuição dos royalties ao menos acendeu o debate sobre o que fazer com o dinheiro do pré-sal. É um debate fundamental para a sociedade brasileira. É preciso perguntar sem medo:

- O que foi feito com o dinheiro recebido pelos estados municípios produtores até hoje? Campos dos Goitacazes é a cidade que mais recebe royalties de petróleo. Seu Índice de Desenvolvimento Humano (IDH-M) é de 0,75, que o põe em 950o. lugar entre os IDH-M do país. Macaé, outro campeão de recebimento de royalties, está em 2.790o., com IDH-M de 0,79. (Atlas de Desenvolvimento Humano do Pnud. ano 2000)

- Por que os municípios campeões em royalties possuem alguns dos menores IDH-Ms do país? Qual tem sido a prioridade de investimento destes recursos?

- O que será feito com o dinheiro redistribuído a todos os Estados e municípios? Vai ser usado para diminuir as desigualdades?

- O que a sociedade brasileira projeta como futuro sustentável e como os recursos do pré-sal podem contribuir?

O Senado pode buscar uma solução que não quebre as economias dependentes destes royalties, mesmo que os prefeitos não os tenham gasto corretamente. Os próprios senadores já acenam com ela, ao propor que os contratos estabelecidos não mudam. Nos 25% do pré-sal já existentes (descobertos, licitados e em fase de exploração) e nos contratos do pós-sal, a divisão dos royalties será feita pelo modelo anterior ao da emenda Ibsen Pinheiro. A distribuição igual dos 50% dos royalties para todos os Estados e municípios (está preservada a parcela de 50% à União) deve viger sobre 75% do pré-sal que ainda não foram licitados. Portanto, Rio, Espírito Santo e outros estados e municípios “produtores” não perdem o que já estão recebendo.

O cálculo sobre os novos royalties também deveria levar em conta o impacto das atividades nos estados produtores, que receberiam um percentual a mais. O restante deveria ser distribuído pelas outras unidades da Federação, já que os recursos pertencem à Nação. Com isso, estaríamos introduzindo um indicador de impacto socioambiental que pode contribuir para o inventário das emissões de carbono que o país se comprometeu a fazer (está no Programa Nacional de Mudanças Climáticas). Também deveríamos vincular estes recursos à adoção de políticas públicas voltadas à solução dos maiores problemas de cada Estado e município; deveríamos nos comprometer com metas socioambientais e um prazo para zerá-las.

É imprescindível o controle social sobre a utilização dos recursos.

Temos urgência em diminuir as desigualdades: sociais, regionais, de gênero, de acesso à educação e à saúde. Temos pressa em dar um salto qualitativo em inovação tecnológica. Não nos falta talento para superar estes desafios. Será que o dinheiro do pré sal não poderia financiar iniciativas que nos levem a uma sociedade mais justa?

Também precisamos entender que a civilização baseada no petróleo está com os dias contados. Por isso, o petróleo precisa financiar a construção de uma nova economia, descarbonizada, inclusiva e responsável.

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sexta-feira, 12 de março de 2010

Responsabilidade Social Empresarial e Política Nacional de Resíduos Sólidos

Depois de quase vinte anos de luta da sociedade civil, um substitutivo ao projeto de lei 203 / 91 que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos foi aprovado esta semana na Câmara Federal. Trata-se de uma vitória que deve ser comemorada por todos os setores que se mobilizaram por mais de uma década em favor da medida. No entanto, ainda existem percalços a vencer.

Vamos comentar o lado bom da Lei 203 / 91. Sérgio Abranches, em seu comentário de hoje pela manhã na CBN, ressaltou muito bem os aspecto positivos desta lei: ela é abrangente e contemporânea, porque abarca, em seu texto, todos os aspectos do tema, inclusive modernos conceitos de gestão, como ciclo de vida do produto e logística reversa.

O grande avanço deste substitutivo é que ele estabelece a responsabilidade compartilhada na destinação dos resíduos. Isto significa que cada integrante da cadeia produtiva – fabricantes, fornecedores, distribuidores e consumidores são responsáveis pelo manejo adequado dos resíduos, fazendo-os retornar ao processo produtivo (logística reversa) ou dando-lhes destinação final que não seja a deposição em aterros sanitários.

No caso específico de pilhas, baterias e eletroeletrônicos, a lei prevê obrigações para todas as partes. Os consumidores individuais, por exemplo, deverão devolver estes materiais aos comerciantes que irão encaminhá-los à indústria. Esta, por sua vez, será responsável pelo “desmonte” do produto nas matérias-primas originais, para reaproveitamento, ou descarte em local adequado.

Se a Prefeitura fizer este trabalho, deverá ser remunerada por isto. O que significa que estes materiais não poderão mais ser “jogados fora” junto com o lixo doméstico.

As empresas de uma determinada cadeia produtiva também deverão consolidar processos de recebimento de embalagens e produtos pós-uso pelo consumidor: agrotóxicos, pneus, óleos lubrificantes, papelão, plástico, isopor e lâmpadas.

Isto é logística reversa, já em uso por pelos menos duas cadeias de varejo: Casas Bahia e Submarino. Quando a compra do eletrodoméstico ou eletroeletrônico é entregue ao consumidor, os funcionários que fazem a entrega desembalam o produto, testam-no e depois levam todas as embalagens: plástico, isopor, estrado de madeira, caixa de papelão. Estes materiais são encaminhados para as centrais de distribuição das empresas, onde cooperativas de catadores fazem a triagem e encaminham para a reciclagem ou reuso, conforme o caso.

O substitutivo aprovado na Câmara também define a prioridade ao trabalho das cooperativas de catadores neste serviço, e a obrigatoriedade de os consumidores acondicionarem em separado os resíduos sólidos gerados e deles se descartarem em lugares adequados.

No caso dos resíduos domésticos, como pet, latas, plásticos, papel e embalagens longa vida, se a Prefeitura assumir o serviço de coleta, o consumidor terá a obrigação de acondicionar e depositar na lixeira corretamente, em separado dos resíduos orgânicos.

Para entrar em vigência, o Programa Nacional de Resíduos Sólidos ainda precisa passar pelo Senado e pela sanção da Presidência da República. Por tradição, são duas etapas que não costumam demorar tanto. A partir daí, vai começar a batalha pela regulamentação das diversas etapas da lei.

O chamado “lobby sujo”, composto por segmentos que não querem a logística reversa, já está a pleno vapor. Aqui em São Paulo, por exemplo, vem estimulando o uso destes resíduos para geração de energia pela queima deles em usinas termelétricas. Além de representarem o que há de mais obsoleto em termos de geração de energia, as termelétricas são caras e ineficientes. A construção de uma só delas vai consumir 250 milhões de dólares e vai conseguir queimar apenas 2 mil toneladas /dia de resíduos. São Paulo produz 10 mil toneladas por dia de resíduos sólidos. O uso destes materiais para gerar energia também vai impedir o desenvolvimento e a consolidação das cooperativas de catadores como alternativa de inclusão social com geração de trabalho e renda. Isto porque os materiais mais valiosos financeiramente para os catadores são justamente os que produzem mais calor, como papelão e alumínio. Se os catadores não conseguem se firmar como categoria profissional, a cadeia produtiva que depende desta coleta também não se consolida, o que compromete também a organização da logística reversa e o surgimento de milhares de oportunidades de negócios e de empregos “verdes”.

O texto do substitutivo tampouco menciona a concessão de incentivos fiscais e incentivos de crédito à indústria da reciclagem. O governo federal vem acenando com isenção de IPI para aquisições de cooperativas. Mas a indústria da reciclagem vai muito além da coleta dos resíduos e precisa deste “empurrão” fiscal para firmar-se.

Enfim, são pontos que ainda podem entrar na lei via Senado – que seria muito melhor. Deixar para a regulamentação pode atrasar ainda mais a solução dos problemas. E, é bom lembrar, a natureza já está mandando a conta por tanto descuido e ganância – lembrem-se das enchentes em nossa cidade.

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quarta-feira, 10 de março de 2010

Fracionamento de remédios: por que não dá certo no Brasil?

Em 2005, depois de muita pressão da sociedade civil, o presidente Lula estabeleceu por decreto a venda fracionada de remédios. Em 2006, o Executivo enviou ao Congresso Nacional o Projeto de Lei 7029 que permite o registro e o fracionamento de medicamentos. Desde então, o projeto de lei tramita entre as diversas comissões do Congresso. Já foi aprovado pela Comissão de Defesa dos Consumidores, pela de Desenvolvimento Econômico e também pela Comissão de Seguridade Social e Família.

Aguarda, agora, o parecer final do relator da Comissão de Constituição e Justiça. Desde segunda-feira, dia 8 de março, está o projeto está a emendas propostas por deputados. Trata-se de um processo terminativo. Depois de passar pela CCJ, o projeto de lei passa pela sanção do presidente da República e entra em vigência.

O procedimento institucional foi necessário para estabelecer em lei constitucional o fracionamento de remédios. Mas, na verdade, o fracionamento já está aprovado há cinco anos, por meio de decreto presidencial. No entanto, a venda de fracionados não teve a adesão necessária dos agentes econômicos e não chegou a fazer diferença para o consumidor.

Até agora, quinze laboratórios obtiveram registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) para produzir 175 tipos de medicamentos fracionados, cuja lista está disponível no site do órgão: www.anvisa.gov.br/fracionamento/lista_fracionados.htm

O consumidor também pode ligar para o 0800 61 1997 para saber o preço dos remédios fracionados.

Na lista disponível, há analgésicos, antibióticos, anti-inflamatórios e anti-hipertensivos, entre outros.

O jornal O Estado de S Paulo fez uma consulta a estas empresas no início deste mês. Das 15 empresas registradas, apenas 7 responderam ao jornal e informaram não estar produzindo medicamentos fracionados, embora fabriquem, nas embalagens tradicionais, a maioria dos 175 remédios autorizados.

O objetivo do fracionamento é permitir que a população possa comprar remédios na quantidade necessária para o tratamento, gastando menos e evitando desperdício. E, no Brasil, o desperdício de medicamentos é alto. Em 2005, a ANVISA estimou que 20% de toda a produção farmacêutica no Brasil foi para o lixo. Isto corresponde a uma quantia de 4 bilhões de reais. Ainda segundo o órgão, 28% de todos os casos de intoxicação atendidos pela rede pública hospitalar, nos últimos dez anos, foram causados por uso indevido de medicamentos guardados em casa.

O fracionamento já é uma prática antiga e bem-sucedida nos EUA e na maioria dos países europeus. Ele é adotado também em alguns de nossos vizinhos da América Latina. Por que, então, ainda não “pegou” em nosso país?

Um dos fatores é o desconhecimento do consumidor brasileiro a respeito do medicamento fracionado. Poucos sabem que laboratórios e farmácias podem vendê-los, uma vez que existe lei determinando que assim seja feito. Os próprios médicos não receitam remédio fracionado.

Outro ponto nevrálgico é comercial. As farmácias supõem que vão perder dinheiro com o fracionamento e não se interessam em estabelecê-lo.

Há ainda a indústria que alega precisar investir muitos recursos para adaptar a produção ao fracionamento.

Só a conscientização fará o fracionamento sair do papel e virar prática na sociedade. As empresas (indústrias e comerciais) podem torná-lo realidade. É uma questão de responsabilidade social.

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segunda-feira, 8 de março de 2010

Pet reciclada vira telhado de alta resistência e baixo custo.

De todas as “pragas” urbanas que poluem o planeta, o plástico pet é uma das piores. São produzidas, no mundo, vinte seis milhões de toneladas de garrafas pet por ano.

O Brasil participa deste mercado com nove milhões de toneladas / ano e recicla quase 55% disso. A maior parte do pet reciclado vai para a indústria têxtil. O Brasil até exporta fio de PET reciclado para China que também o usa na sua própria indústria têxtil. Como o custo do pet reciclado é até 20% menor do que o do pet original, o mercado para produto reciclado vem se ampliando rapidamente. O pet reciclado adquire diversas formas (pallets, fio, etc) e pode ser utilizado em relógios, vassouras, enchimento de bichos de pelúcia e muitos outros usos que ainda serão inventados. Um exemplo desta criatividade vem de Manaus, capital do Amazonas.

A empresa amazonense Telha Leve desenvolveu e fabrica um tipo de telha a partir do pet reciclado que substitui com vantagens aquelas de barro ou argila. Embora o produto em si seja mais caro que a telha tradicional, nas contas gerais da obra, sai mais barato usar a telha de plástico, porque, sendo mais leve, barateia em até 60% o custo total da estrutura. Um telhado convencional custa em torno de 10 mil reais. Com as telhas de pet, este custo poderia cair para até 3, 5 mil reais.

A vida útil de um telhado assim é de quase 50 anos. Mas, se a telha receber resina de poliuretano, o telhado pode durar dez ou quinze anos mais. Entre as principais características das telhas plásticas estão a resistência a temperaturas até 85 graus Celsius e ao ressecamento; elas são “fogo retardantes”, isto é, queimam, mas não propagam as chamas; a fixação feita por meio de de abraçadeiras de nylons especiais, o que protege contra ventos fortes; o telhadista pode andar no telhado, sobre o ripamento de sustentação, mesmo procedimento de qualquer telhado. Além disso, a inclusão de aditivos anti-raios ultra violeta (uv) permite maior combate à radiação solar.

O principal, no entanto, é que utiliza um terço da matéria-prima necessária à fabricação das telhas de barro e não há desmatamento de florestas ou queima da lenha nos fornos.

A Telha Leve trabalha com pet recebido de cem cooperativas da região de Manaus, contribuindo para promover a inclusão social dos catadores na vida econômica e na cidadania. Perto de 400 pessoas trabalham para estas cooperativas. A Telha Leve paga 800 reais por tonelada de pet.

A fábrica tem capacidade para reciclar 24 toneladas /dia de pet, mas só consegue receber dos catadores 80 toneladas / mês (menos de 3 toneladas por dia). Se houvesse mais organização e até logística, garantindo uma entrega mínima de matéria-prima diariamente, fábricas de telhas poderiam ser instaladas em várias cidades.

A empresa que fabrica este tipo de telha foi fundada em 1997 em Manaus, onde se localiza até hoje. Mas tem rede de distribuidores em todo o país. Tem 28 funcionários fixos e 400 trabalhando na cadeia produtiva. O faturamento está estimado em quase 1,5 milhão de reais por ano.

Já existem casas populares, supermercados, escolas e lojas em cujo telhado foram utilizadas as telhas de pet. Elas estão disponíveis em todas as lojas de material de construção.

Para desenvolver o projeto, o engenheiro Luis Antônio Formariz contou com recursos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), com apoio da Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia (Sect), da Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Econômico do Amazonas (Seplan), da Agência de Fomento do Estado do Amazonas (Afeam) e do Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequenas Empresas (Sebrae/AM).

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sexta-feira, 5 de março de 2010

Supermercados começam a diminuir o uso de sacolas plásticas

Usar sacolas plásticas para guardar compras é um dos hábitos mais comuns entre os brasileiros. De um singelo lápis até itens de maior peso e volume, tudo acaba guardado numa sacola plástica. Seu uso está tão difundido no Brasil (e no mundo) que hoje ela já pode ser considerada uma praga que infesta ruas, matas e oceanos. Entope bueiros e causa enchentes. Sua produção também consome muitos recursos naturais. Para produzir uma tonelada do plástico usado nas sacolinhas, são necessários 1.140kw / hora de energia, suficientes para manter 7600 residências iluminadas por uma hora, com uma lâmpada econômica. Sem falar que o material leva 300 anos para se decompor na natureza.

Um levantamento realizado pelo CEMPRE – Compromisso Empresarial pela Reciclagem em 2008 apontou que os brasileiros produziram quase 55 milhões de toneladas de lixo urbano. 55% deste total eram formados por matéria orgânica (pouco mais de 30 milhões de toneladas). Os restantes 45% (ou aproximadamente 25 milhões de toneladas) são resíduos sólidos, dos quais 2,5 milhões de toneladas são sacolas plásticas. Em unidades, calcula-se que mais de um bilhão de sacolas plásticas vão parar no lixo todo mês, doze bilhões por ano, aqui no Brasil. Isto dá 66 sacolas plásticas por mês a cada brasileiro. Embora seja uma embalagem distribuída por qualquer loja e em qualquer canto do Brasil, são os supermercados que mais contribuem para este verdadeiro dilúvio de sacolinhas no meio ambiente.

Por isso, as grandes redes do país já vêm adotando providências para substituí-las, seja incentiva o uso de sacolas retornáveis, seja buscando produtos à base de materiais biodegradáveis. A mais recente iniciativa vem da rede Carrefour. Faz parte da estratégia de negócio da empresa banir completamente o uso destas sacolinhas em todas as lojas de todas as marcas do grupo (Carrefour, %Dia e Atacadão). A medida atingirá também as embalagens plásticas que ficam disponíveis nas gôndolas para acondicionar frutas, legumes e outros alimentos. Como opção aos consumidores, a empresa vai oferecer sacolas retornáveis a preço de custo e, gratuitamente, caixas de papelão. O Carrefour já adotou medida semelhante em outros países onde opera, como Polônia, Bélgica, França e Espanha.

Aqui no Brasil, como o saquinho plástico também é usado para acondicionar o lixo doméstico, o Carrefour vai oferecer sacos de lixo fabricados com material reciclado.

Outras redes também se mobilizam para encontrar uma alternativa ao saco plástico. A Walmart vem trabalhando com a sua cadeia de fornecedores para desenvolver produtos sustentáveis desde o início do ciclo produtivo e abrangendo as embalagens. E já oferece uma sacola feita com tecido semelhante ao usado em fraldas descartáveis por aproximadamente 3 reais.

O Pão de Açúcar também tem uma sacola semelhante e outro modelo, que se adapta ao carrinho e pode receber frutas e legumes sem a embalagem plástica. Ao passar no caixa, basta pesar os itens e devolvê-los na sacola.

As três redes também ampliaram o número de “lojas verdes”, com iluminação e ventilação naturais, energia fornecida por placa solar e coleta seletiva.

A indústria do plástico, por sua vez, reage a esta investida, afirmando que substituir o plástico não vai resolver os problemas ambientais. As sacolas plásticas, de acordo com os fabricantes, são reutilizáveis, práticas, higiênicas e têm múltiplos usos. São também particularmente importantes para 80% dos consumidores que fazem compras a pé ou de ônibus, segundo os produtores.

Em 2007, em São Paulo, eles se comprometeram a fornecer uma sacola com plástico mais resistente, evitando o uso de mais de uma sacola para acondicionar produtos mais pesados e diminuindo em 30% o consumo delas. Isso de fato foi feito. Eles também se comprometeram a estimular a utilização de sacolas plásticas de uso contínuo e desenvolver ações de educação sobre consumo responsável, coleta seletiva, reciclagem e utilização dos plásticos para a geração de energia. Mas isto ainda não ocorreu.

Em 2009, o Ministério do Meio Ambiente lançou a campanha “Saco é um saco”, com apoio da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), para incentivar o uso de alternativas às sacolas, nas compras.

A tendência ao banimento das sacolas plásticas é mundial. A China, por exemplo, já proibiu a distribuição gratuita delas desde 2008. Quem quiser utilizá-las para levar as compras precisa pagar. A medida não teve objetivo apenas ambiental: a substituição das sacolas plásticas vai permitir ao país economizar até 37 milhões de barris de petróleo por ano.

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Inscrições abertas para o Prêmio Ethos Valor!

O Prêmio Ethos-Valor - concurso destinado a professores e estudantes universitários para trabalhos acadêmicos sobre responsabilidade social empresarial e/ou o desenvolvimento sustentável (DS) - está com inscrições abertas até 05 de abril!

Para a categoria Estudantes, o desafio será o de desenvolver artigos sobre a responsabilidade social empresarial (RSE) e/ou o desenvolvimento sustentável (DS) com os princípios da Carta da Terra, com o objetivo de estimular estudos sobre estratégias empresariais que integrem princípios da sustentabilidade. Para quem já tem um trabalho em desenvolvimento ou pronto ou um TCC defendido até 2009 é plenamente possível se inscrever.

Na categoria Professores, o tema continua sendo Educação para a Sustentabilidade. Os trabalhos devem abordar uma formação universitária que prepare estudantes e professores para lidar com o desafio da sustentabilidade. O tema está relacionado ao desenvolvimento do pensamento sistêmico, ao estímulo ao aprendizado colaborativo e contínuo, caráter transdisciplinar, ao desenvolvimento de habilidades cognitivas e relacionais, além da compreensão da cidadania como dimensão da própria educação.

Neste ano a categoria Mista e Temática, que tem o objetivo de tratar de temas emergentes e das questões mais críticas para as empresas, propõe que grupos formados por no máximo cinco (5) pessoas (incluindo obrigatoriamente professores e estudantes) inscrevam trabalhos sobre o tema Corrupção.

A demanda pelo tratamento do assunto vem de um dos grupos mais atuantes dos quais o Instituto Ethos participa e exerce, hoje, a função de secretaria executiva: Articulação Brasileira Contra a Corrupção e a Impunidade (ABRACCI). Podem ser inscritos trabalhos sobre as origens da corrupção, políticas pela integridade e contra a corrupção, práticas anti-propina, relação entre controle social e corrupção, entre outros. O objetivo final, com o tratamento acadêmico do tema, é a divulgação do trabalho de pesquisa e reflexão que estão sendo feitos em nosso país sobre a questão da corrupção, para que possam embasar ainda mais a prática do grupo e de cidadãos e organizações em geral.

As inscrições devem ser feitas exclusivamente pelo site www.premioethosvalor.org.br. Podem participar professores e estudantes universitários de todo o país, e de qualquer área de conhecimento. Falta 1 mês, ainda dá tempo!

Informações:

Pré-Inscrições: 23 de novembro de 2009 a 5 de abril de 2010 (pelo site)

Inscrições/ Envio dos Trabalhos: 23 de novembro de 2009 a 6 de abril de 2010 (pelo correio)

Não há limite de inscrições por autor, categoria ou instituição de ensino.

Pàra saber mais, acesse www.premioethosvalor.org.br ou mande e-mail: premio@ethos.org.br.

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quinta-feira, 4 de março de 2010

Economista solidária

Há mais de três décadas, as ideias revolucionárias de Hazel Henderson inquietam economistas e políticos. Conheça a história da autodidata que se tornou uma voz planetária da economia sustentável.

“A mulher que mostrou ao mundo o que está errado na economia”. Em entrevista à GINGKO, Hazel Henderson revelou ser assim que gostaria que o neto a recordasse.

Considerada por muitos ícone da sustentabilidade, futurista ou anti-economista, Hazel explica com clareza a sua abordagem ao mundo que tem de se desvendar: “Prefiro ser acupunturista global, pois identifico os pontos nevrálgicos dos sistemas econômicos, indicando a cura para os seus efeitos nefastos”. Desafiando os paradigmas mais tradicionais, defende há mais de três décadas uma visão revolucionária, muitas vezes incômoda, da economia. “Não estávamos preparados para os ensinamentos de Hazel nas décadas de 70 e 80. Mas não faz mal porque, do futuro de onde veio, ela já estava à espera. Por isso, quase octogenária, continua com um espírito vivaz como uma criança que se encanta com as vicissitudes do mundo, sem medo e com alegria contagiante”, afirmou à GINGKO Ricardo Young, presidente do Instituto Ethos, referência brasileira no setor da consultoria em sustentabilidade empresarial.

Ativista autodidata, Hazel Henderson nasceu perto do mar, na cidade inglesa de Bristol, há 76 anos. Com um pai austero e difícil e uma mãe doce e generosa, resolveu construir sozinha o seu caminho. Em vez da esperada licenciatura, Hazel abandonou os
estudos e a casa dos pais e foi morar com a irmã. Queria aprender, mas não numa sala de aula. Por isso fez de tudo um pouco. Foi vendedora, recepcionista de hotel e empregada num clube de golfe. “Desde muito cedo percebi que não era empregável e por isso tive de me inventar”, diz com graça. Autodidata e influenciada pelo gosto da mãe, sempre adorou ler. Devorava livros. Nas bibliotecas escolhia os que mais lhe interessavam e correspondia-se por carta com os autores, colocando-lhes as mais variadas questões. Hazel reconhece: “Tive os melhores professores possíveis. Eram os próprios escritores!”.

Depois de uma passagem pelas Bermudas, o casamento fixou-a em Nova Iorque, onde a maternidade passou a ocupá-la em exclusivo. No entanto, contra todas as expectativas, em meados dos anos 60 tornou-se numa empenhada ativista ambiental. A fuligem que encontrava diariamente na roupa e no corpo da filha alertou-a para a poluição da cidade, o que a levou a criar o movimento Citizens for Clean Air, que em poucas semanas atraiu cerca de 20 mil pessoas. “Foi a licenciatura mais rápida que se pode imaginar! Num curtíssimo espaço de tempo aprendi noções ambientais e de biologia, descobri como organizar campanhas de sensibilização e percebi como funcionam as multinacionais e o governo local”, reconhece Hazel. Foi sempre entre os líderes políticos e empresariais que sentiu mais dificuldades em ser
aceita. “Você é simpática, mas não percebe nada de economia”, respondiam-lhe com frequência. Uma provocação que lhe serviu de inspiração para muitos anos de estudo, em que economia e ecologia se tornaram inseparáveis.

Economia do amor

Hazel Henderson lembra-se do que despertou o seu desejo de mudar o mundo: “Ver que o trabalho das mulheres era desvalorizado, o que tornava a sociedade menos justa e a economia desequilibrada”. O seu novo olhar para a economia de um país foi influenciado por esta constatação e assemelha-se, como ela própria diz, a “um bolo de três camadas com cobertura”. A cobertura é o setor privado, empreendedor e criativo, apoiado na camada representada pelo setor público, sustentado pelos impostos e incluindo todas as infra-estruturas e bens colectivos. A visão tradicional considera que a soma destes dois níveis mostra a riqueza de um país. Hazel defende que existem neste bolo mais duas camadas essenciais, que estão fora da visão dos economistas. Uma delas é a chamada economia do amor, onde está todo o trabalho não remunerado, movido pela cooperação e solidariedade, como o voluntariado, serviços domésticos, educação dos filhos ou assistência aos idosos. Segundo Hazel, esta economia do amor representa cerca de 50% de todo o trabalho produtivo realizado em qualquer sociedade, chegando mesmo a 65% em países em desenvolvimento. A segunda camada é ocupada pela economia da natureza, com todo o potencial dos seus recursos naturais. Hazel defende, há 30 anos, que é preciso considerar estas duas últimas camadas para a avaliação da riqueza e progresso de um país. Basear as decisões políticas em indicadores econômicos que apenas consideram o topo do bolo é, para ela, limitador. “É ridículo medirmos o progresso de um país apenas pelo PIB. É como tripular um Boeing 747 tendo no painel de instrumentos apenas o indicador da pressão do óleo”.

Além do PIB

O ambientalista norte-americano Bill McKibben, no seu best-seller Deep Economy, escreveu: “Até há pouco tempo, ideias como felicidade ou qualidade de vida eram o gênero de conceitos que os economistas colocavam de parte, como irrelevâncias poéticas vindas de pessoas sem jeito para a matemática”. Hazel sempre se orgulhou de ser uma delas. E embora achasse que o seu trabalho só começaria a fazer sentido para as pessoas muito tempo depois da sua morte, a realidade é que os seus alertas, lançados já nos anos 70, começam agora a ter eco oficial. No início de 2008 o governo francês criou a Comissão Stiglitz com o objetivo de identificar os limites do PIB como indicador de desenvolvimento econômico e progresso social, e de propor alternativas estatísticas. Numa comunicação de Setembro passado, o comissário europeu para o ambiente, Stavros Dimas, reconheceu: “Para mudarmos o mundo temos de alterar a forma como o conhecemos e o percebemos, e para isso precisamos ir além do PIB (www.beyond-gdp.eu)”. Antecipando este cenário, Hazel Henderson co-criou, em 2000, os Indicadores de Qualidade de Vida Calvert-Henderson, que avaliam ativos ecológicos, sociais e culturais de um país, como educação, energia, emprego, saúde, ambiente, direitos humanos e segurança pública (www.calvert-henderson.com).

Trajetória incomum

A energia que colocou nas primeiras iniciativas como ativista ambiental manteve-se ao longo do percurso. Hazel foi uma dona de casa que se transformou, quatro décadas mais tarde, numa voz planetária da economia sustentável. Autora de oitos livros, traduzidos para dez línguas, publica artigos em mais de 250 jornais e revistas, como a Harvard Business Review, The New York Times e Le Monde Diplomatique. Tem sido membro do conselho consultivo de prestigiadas organizações sociais e ambientais, como o Worldwatch Institute e o Social Investment Forum. Membro honorário do Clube de Roma, foi também consultora do U.S. Office of Technology Assessment e da National Science Foundation. Sem certificados acadêmicos formais, é Doutora Honoris Causa pelas universidades de Tóquio, São Francisco e Massachusetts. Da sua extensa lista de prêmios destaca-se o Global Citizen Award, que partilhou em 1996 com o Nobel da Paz A. Perez Esquivel. Trajeto que inspira os que se cruzam com ela. “Hazel é imbatível na lucidez do seu diagnóstico, admirável na agudeza com que desnuda o status quo, e estimulante na eficácia das suas propostas inovadoras. Conviver com ela é entrar para um universo ainda invisível aos olhos da grande maioria, mas fundamental para o amanhã de todos nós” – este o retrato feito a seu respeito por Christina Carvalho Pinto, líder da plataforma Mercado Ético para a América Latina, atual projeto de Hazel Henderson.

Naturalizada norte-americana, Hazel vive em St. Augustine (Florida), a mais antiga comunidade européia nos Estados Unidos. Continua a opor-se ao consumismo desenfreado e ao endeusamento do dinheiro, defendendo uma economia solidária com as pessoas e com a natureza. Uma nova ciência da vida, com que é resgatada a função original do mercado: pura troca de produtos e serviços a nível local, agora com a preciosa ajuda da internet. Para mostrar ao mundo que as suas ideias não são utopias, criou em 2005 a plataforma multimédia Ethical Markets, uma das maiores e mais completas do mundo dedicada à sustentabilidade. Os conteúdos chegam a mais de 80 milhões de pessoas, através da televisão, internet, livros, vídeos e organização de workshops. “É uma mostra de histórias reais inspiradoras de lideranças empresariais que incorporam os novos valores que transcendem a economia, redefinem o conceito de riqueza e promovem o crescimento através do respeito pelo ser humano e pelo ambiente”, descreve Hazel. Um programa que corporiza a sua antiga paixão de dar voz a projetos em que todos ganham. Otimista por natureza, trabalhando tantas vezes no limiar do quase impossível, Hazel Henderson nunca se desencorajou e, como confidenciou à GINGKO, continua a acreditar. “As mudanças necessárias para o mundo são geracionais, e sei que não as conseguiremos alcançar durante o meu tempo de vida. Mas sei que seremos capazes”.


Por Ana Sofia Rodrigues, publicado na revista GINGKO.

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