Encerra-se hoje, no Rio, o maior Fórum Econômico Mundial já realizado na América Latina. Segundo Marisol Argueta de Barillas, presidente do Fórum para a América Latina e o Caribe, a inscrição para o fórum precisou ser encerrada um mês antes do evento por conta da grande procura. Muitos países que não integram a América Latina enviaram representantes interessados na região. Somente a comitiva dos EUA teve 39 participantes no evento. Ao todo, 700 pessoas de 42 países marcaram presença no evento, mostrando a importância do continente e do Brasil no atual cenário internacional.
O tema central foi "Construindo a Plataforma para uma Década Latino-Americana", que teve desdobramentos em 29 painéis estruturados a partir de três vertentes básicas:
- Governança regional e internacional;
- Avanços em inovação e produtividade para o crescimento equitativo;
- Promoção de parcerias para o desenvolvimento sustentável
Ainda foram discutidos assuntos como: expansão e modernização da infraestrutura, avaliação de futuros riscos globais que podem afetar a região na próxima década, desenvolvimento do potencial da América Latina como fornecedor de alimentos e energia; e promoção de parcerias estratégicas com países asiáticos.
As opiniões divergiram sobre vários itens, mas concordaram em alguns pontos. Um deles é que a América Latina tem dois gargalos que precisa resolver com urgência se não quiser comprometer seu crescimento nos próximos anos. O maior deles é o da falta de qualidade da educação, principalmente de nível superior. Avanços em inovação e produtividade, fundamentais para a transição a uma economia inclusiva, verde e responsável, dependem de uma educação de alta qualidade. O empresário Roberto Teixeira da Costa, do Conselho de Empresários da América Latina, em uma frase, chegou ao cerne do problema educacional – e da solução para ele - no nosso continente. “O Ministério da Educação deveria ser mais importante que o Ministério da Fazenda”. De fato, estamos mais preocupados com medidas macroprudenciais e com a curva da inflação do que com as metas que temos de atingir para superarmos os ainda profundos ossos educacionais.
No caso brasileiro, a sugestão mais ouvida para solucionar este atraso educacional e tecnológico foi usar os royalties do pré sal para criar institutos de alto nível, principalmente em pesquisa e desenvolvimento de inovação.
Muitos participantes também se perguntam se o continente tem tempo de esperar uma geração para colher os resultados positivos das melhorias educacionais. Hoje, há milhões de latino-americanos na faixa dos 30 anos que precisam de incentivo para serem empreendedores. Governos – e empresas – precisam dar atenção a isso, pois o empreendedorismo é fundamental para a superação da pobreza, já que ele garante renda e trabalho, bem como distribui riqueza.
Outro tema bastante discutido foi como o investimento na educação das mulheres pode representar um caminho para a superação da miséria e, mais do que isso, para avançar a sociedade no rumo da sustentabilidade.
Um dado interessante, que não foi mencionado no Fórum, é que o Brasil perde 10% do PIB com a violência contra a mulher. O dado foi destacado pela corregedora nacional de Justiça, ministra Eliana Calmon, , durante palestra em homenagem ao Dia Internacional da Mulher na Câmara Municipal de Salvador (BA), realizada em março.
Segundo a ministra, a estimativa se refere aos gastos com o sistema de saúde no atendimento às vítimas, à movimentação do aparelho judicial e policial e à interrupção do trabalho das mulheres agredidas.
sexta-feira, 29 de abril de 2011
Termina hoje o maior Fórum Econômico Mundial da América Latina, no Rio de Janeiro
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Como empreender em um mundo melhor e lucrar com isso
(Conteúdo gentilmente cedido pelo SESI – Serviço Social da Indústria)
Carolina Romano, especial para o SESI
Há mais de uma década, o acadêmico indiano Coimbatore Krishnarao Prahalad ganhou a atenção do mundo com uma estratégia de combater a pobreza por meio do lucro. Sua teoria demonstrava que a somatória de tecnologia, expertise gerencial e capacidade de investimento seriam insuficientes para sanar as questões da miséria e da desigualdade social. Para ele, a chave desta transformação estaria na criação de produtos e serviços acessíveis às camadas carentes da população.
A ideia de Prahalad, de gerar riqueza na base da pirâmide, foi levada a cabo e teve sua continuidade e execução garantida pelo professor de economia bangalês, Muhammad Yunus, fundador do banco Grameen e ganhador do Prêmio Nobel da Paz. Yunus desenvolveu o inovador programa econômico do microcrédito, que consiste em emprestar capital para pessoas de baixíssima renda que não têm crédito junto aos bancos tradicionais e querem desenvolver seus pequenos empreendimentos.
O Grameen Bank (http://www.grameen-info.org/), aberto em 2006, conta com números impressionantes em sua curta trajetória: possui hoje 2.185 agências, cerca de 20 mil funcionários e o equivalente a aproximados US$ 6 bilhões em empréstimos concedidos.
Yunus representa de forma ilustre uma classe que vem ganhando importância e reconhecimento na economia mundial: a dos empreendedores sociais, pessoas capazes de criar novos modelos de negócios para fazer empresas prosperarem a serviço de uma causa social. Longe da imagem de filantropos idealistas, estes profissionais têm planos de negócio bem traçados, fazendo uso de linhas de financiamento e parcerias estratégicas com outras empresas e governos.
Apesar do assunto ser relativamente novo, a dinâmica social do mundo de hoje vem levando à transformação de conceitos políticos e econômicos que beneficiam o desenvolvimento socioambiental. As empresas começam a notar que este é um tema inerente ao mercado e,portanto, passam a implementar políticas acerca do assunto. “Em apenas uma década não se fará distinção entre um empreendimento social e um tradicional, porque essa será uma característica intrínseca a qualquer negócio”, preveem John e Pamela Elkington, especialistas em desenvolvimento sustentável e autores do livro “Empreendedores sociais: o exemplo incomum das pessoas que estão transformando o mundo” (Editora Campus/Elsevier – 242 páginas).
Os autores estudam exemplos de sucesso de empreendimentos sociais e ambientais pelo mundo, como o da rede americana de alimentos orgânicos Whole Foods Market (http://www.wholefoodsmarket.com/), fundada no começo da
década de 80, e que conta hoje com 200 lojas nos Estados Unidos e na Inglaterra, somando um faturamento de 4,7 bilhões de dólares por ano.
Segundo os Elkingtons, os empreendedores sociais podem ser divididos em três grupos distintos: os empreendimentos sem fins lucrativos, os negócios híbridos (geridos por doações, mas capazes de gerar alguma receita) e os que funcionam como empresas tradicionais, apresentando lucro.
Quem empreende por aqui
O Brasil vem se destacando mundialmente como um pólo de negócios sociais bem sucedidos. Pode-se dizer que o sucesso deste tipo de empreendimento está, não na maximização dos lucros, mas na combinação entre sustentabilidade econômica e potencialização do impacto social positivo pretendido pelo negócio.
O projeto do empreendedor e chef de cozinha David Hertz, a Gastromotiva (http://www.gastromotiva.org/), é exemplo desta nova fórmula que já está se mostrando viável e eficiente. David lidera um programa anual que capacita jovens de baixa renda a se tornarem chefs. O programa, que conta com patrocínio do banco JPMorgan e da Universidade Anhembi Morumbi, também ensina e incentiva os participantes a abrirem negócios gastronômicos em suas comunidades, promovendo o desenvolvimento local. A gastromotiva atua ainda em duas outras frentes para garantir sua sustentabilidade econômica: um serviço bufê-escola e a venda de produtos relacionados à cozinha. “Quanto mais serviço prestamos, mais jovens de baixa renda podemos capacitar. Isso que nos traz ganho também aumenta as chances desses jovens de empreender em suas próprias comunidades”, acredita Hertz. Hoje o bufê-escola já atende demandas de grande porte, vindas de empresas como Reebok, Editora Globo e Banco do Brasil. Até mesmo a recepção de Bill Clinton na edição brasileira do Ethanol Summit, que contou com a presença de 700 pessoas, foi feita pela Gastromotiva. Agora, Hertz espera aumentar as vendas e, consequentemente, ampliar também o impacto social positivo dessa iniciativa.
A atuação de David Hertz nos negócios sociais já começa a se configurar em uma nova rede mundial. “Estamos recebendo um estagiário dos EUA e outro de Cingapura. Tive uma estagiária por seis meses que agora está replicando o modelo da Gastromotiva na Indonésia”, alegra-se ele.
Mas quem comemora mesmo é o terceiro setor como um todo, que há tempos promove o conceito de empreendedorismo social no Brasil por meio de ONGs de atuação internacional. A Artemisia (http://www.artemisia.org.br/), por exemplo, organização não governamental que está no país desde 2004, tem como papel capacitar empreendedores e estudantes em negócios sociais. Além de facilitar o acesso ao conhecimento necessário para esse tipo de empreitada, a instituição apoia financeiramente projetos em que acredita. No Brasil, já são 19.
Segundo Fábio Santiago, diretor-executivo da Artemisia Brasil, o plano de negócio desses novos empreendimentos deve considerar a inovação no sentido de contribuir para a inclusão social e para a melhoria da qualidade de vida das pessoas. “Inovação para nós é, por exemplo, oferecer produtos e serviços já existentes a pessoas que não teriam acesso a eles, atuando na reconstrução de toda a cadeia de produção e distribuição para que o resultado se torne verdadeiramente acessível”, explica.
Esse também é o ideal da rede de distribuição de produtos orgânicos Sementes de Paz(www.sementesdepaz.org), que tem como base os princípios da Economia Solidária e do Comércio Justo. A rede aproxima os produtores dos consumidores,comercializando cestas de alimentos orgânicos produzidos nos arredores de São Paulo.
A Sementes de Paz pratica o que o movimento do Comércio Justo define como preço justo. Isso quer dizer que o produtor fica com 60% do valor final da venda. As entregas são feitas semanalmente em núcleos de distribuição geridos pelos próprios compradores que, garantem, pagam preços mais baixos que os dos supermercados. Além disso, os consumidores da rede têm o hábito de se encontrar para compartilhar ideias sobre os resultados, a expansão dos negócios e o modelo de gestão dos núcleos. Também vale se divertir e trocar uma ou outra receita.
Para a Ashoka (http://www.ashoka.org.br/), outra ONG de atuação internacional e protagonista no fomento do terceiro setor no Brasil, o empreendedorismo social é a mais poderosa força transformadora da sociedade. Os empreendedores sociais da organização fazem parte de uma rede mundial de intercâmbio de informações, colaboração e disseminação de projetos composta hoje por mais de 1.600 empreendedores, 250 deles no Brasil, que recebem capacitação e uma bolsa mensal por três anos para que possam se dedicar exclusivamente ao projeto.
Já a Plura Consultoria e Inclusão Social (http://www.plura.com.br/) nunca contou com apoio de nenhuma outra entidade. E não reclama disso. Voltada para a capacitação, colocação e retenção de profissionais com deficiências no mercado de trabalho, contribui para o aumento do índice de empregabilidade brasileiro. “Auxiliamos as empresas a se adequarem às exigências da Lei de Cotas, levando em consideração os fatores humanos do processo”, conta Julia Maggion, sócia e responsável pelo planejamento da empresa.
O desafio da Plura é fornecer, tanto aos candidatos quanto às empresas, as ferramentas necessárias para o processo de inclusão. “O verdadeiro trabalho é transformar não só a cultura interna das empresas, mas promover por meio de treinamentos e vivências a cultura da inclusão do portador de deficiência na sociedade”, completa. Segundo ela, trabalhar com o conceito de acessibilidade nas escolas é essencial para minimizar, no futuro, as dificuldades que, hoje, a Plura enfrenta.
Ao lado do sócio, Alex Vicintin, Julia desenha planos de expansão para a atuação na área. “Queremos trabalhar com Educação Inclusiva e, sob este guarda-chuva, oferecer produtos e serviços que integrem responsabilidade social e ambiental”, diz. Os sócios acreditam que o caminho seja unir atividades segmentadas numa espécie de holding “do bem”, ou seja, com objetivo de trazer benefícios para a sociedade.
O Instituo Muda (http://www.institutomuda.com.br/) é outro bom exemplo de negócio social. A instituição, em atividade na cidade de São Paulo, surgiu para mudar a relação entre moradores e moradias nos centros urbanos. As atividades da ONG têm foco na responsabilidade ambiental e já foram destaque na edição de 2009 do Programa Iam – Iniciativa Jovem Anhembi Morumbi, que identifica e apoia projetos de jovens empreendedores sociais há, no mínimo, um ano.
Resumidamente, o Muda mensura e gerencia os processos de coleta seletiva de resíduos, racionalização de água, energia elétrica e gás, entre outras reformas internas e customizadas para cada morador. O objetivo é minimizar os gastos e os impactos ambientais dos edifícios, casas e locais públicos. “Em um edifício, todos os moradores pagam pelo consumo de água total. Quando cada um passa a arcar com os seus próprios gastos, a redução é significativa”, conta Alexandre Furlan, sócio-fundador do instituto. Para isso, contam com a parceria tanto da prefeitura quanto das cooperativas de lixo, catadores de rua e empresas de reciclagem especializadas. A intenção é mostrar que lâmpadas com menor consumo são necessárias, mas que há muito mais para economizar.
Esses empreendedores de negócios sociais, em sua maioria, trazem na bagagem outras tentativas de fazer vingar um negócio próprio e daí a percepção de que uma atividade profissional tem valor desde que vá ao encontro de seus valores e garantam satisfação pessoal. O que todos têm em comum é a convicção de que, no novo mundo que se anuncia, não existe crescimento sem que se considere os impactos socioambientais na formulação e nos custos dos produtos ou serviços oferecidos por qualquer empresa ou atividade comercial.
O revés do microcrédito
A crença de Yunus de que as microfinanças poderiam “colocar a miséria nos museus”, somada ao perfil responsável dos tomadores de microcrédito – geralmente mulheres que trabalham por conta própria, pouco afetadas pela turbulência nos mercados mundiais e que mantêm as taxas de pagamento em algo entre 95% e 98% -, jogou luz à pratica transformando-a em negócio globalizado, que liga as finanças internacionais a algumas das comunidades mais pobres do mundo.
Investidores de capital de risco, como a Sequoia, e fundos de pensão, como o TIAA-Cref, dos Estados Unidos, começaram a despejar dinheiro na atividade.
Ao mesmo tempo, bancos globalizados passaram a oferecer investimentos em microfinanças para seus clientes privados, enquanto sites da internet possibilitavam microempréstimos de pessoa física para pessoa física. No fim de 2009, as microfinanças globais registravam cerca de US$ 12 bilhões em investimentos internacionais, contra US$ 4 bilhões três anos antes, segundo o Grupo Consultivo de Ajuda aos Pobres (CGAP), uma entidade ligada ao Banco Mundial (Bird).
A Microfinance Information Exchange, empresa que fornece dados sobre esse setor, afirma que mais de 95 milhões de microtomadores de empréstimo possuem, juntos, cerca de US$ 65 bilhões em créditos – com um empréstimo médio de US$ 520 por pessoa.
Diante desse cenário, a prática foi enchendo os olhos dos que visam lucro e se distanciando de seu objetivo inicial, o de reduzir a miséria. Muitas vezes, o dinheiro é emprestado com pouco critério para pessoas que não o investem na geração de um negócio, mas o usam para pagar antigos empréstimos ou mesmo, para comprar bens de consumo, como televisores e aparelhos celulares.
Além disso, as altas taxas de juros embutidas nas cobranças dos empréstimos têm levado, na Índia, a uma onda de suicídios por parte dos tomadores de microcréditos que se encontram devendo muito dinheiro sem ter perspectiva alguma de quitar seus débitos.
Países como Marrocos, Bósnia, Nicarágua e Paquistão também foram atingidos pelas crises dos pagamentos dos microempréstimos. Na Nicarágua e no Paquistão, os problemas aumentaram quando líderes políticos e religiosos exortaram as pessoas a não pagarem os empréstimos contraídos.
“Para dimensionar as microfinanças ao seu verdadeiro potencial – tornando-as acessíveis ao maior número de pobres possível -, elas precisam ser sustentáveis,mas há um elemento de responsabilidade aí”, afirma Jennifer Meehan, da Fundação Grameen, que promove os ideais do professor Yunus. “Certas partes do setor esqueceram-se de seu propósito. As microfinanças são um meio para se atingir um fim: o fim é a redução da pobreza e a transformação do cliente, não o crescimento da instituição credora”, complementa.
Fonte: Mercado Ético
terça-feira, 26 de abril de 2011
Metas para o Brasil, para Estados e cidades
Oded Grajew
O programa de metas e o seu acompanhamento permitem à sociedade e à mídia uma avaliação objetiva do mandato dos eleitos a cargos executivos
Está sendo entregue no dia de hoje às lideranças partidárias no Congresso uma proposta de emenda constitucional, subscrita por pessoas físicas e dezenas de entidades representativas da sociedade civil, que determina que presidente(a) da República, governadores(as) e prefeitos(as) eleitos(as) apresentem um Programa de Metas e Prioridades de sua gestão até 90 dias após a respectiva posse. Esse programa de metas precisa estabelecer metas quantitativas e qualitativas para cada um dos setores da administração pública (educação, saúde, trabalho, habitação etc.), para cada uma das regiões (para visibilizar e melhor combater a desigualdade regional) e precisa conter todas as propostas e promessas da campanha eleitoral.
O programa deverá especificar metas e indicadores de meios (por exemplo, a construção de hospitais, postos de saúde, escolas, creches etc.) e metas e indicadores de resultados (por exemplo, a redução da mortalidade infantil e materna, da evasão escolar, do analfabetismo, de deficit de creches etc.).
O Poder Executivo deverá divulgar, a cada quatro meses, uma prestação de contas sobre o andamento do plano de metas.
O programa de metas deverá seguir diversos critérios, entre eles o combate à miséria, a inclusão social com redução das desigualdades regionais e sociais, a melhoria da qualidade de vida da população, a promoção e a defesa dos direitos humanos, a promoção do meio ambiente ecologicamente equilibrado e de uma economia inclusiva, verde e responsável e a universalização dos serviços públicos com eficiência e qualidade.
Essa iniciativa foi inspirada pela experiência na cidade de São Paulo, onde uma proposta semelhante, apresentada pela Rede Nossa São Paulo, apartidária e que congrega 650 organizações da sociedade civil, foi acolhida por unanimidade pela Câmara Municipal. A atual gestão apresentou 223 metas, que estão sendo acompanhadas atentamente pela população e pela mídia.
A proposta, caso aprovada, será um enorme avanço no aperfeiçoamento da democracia participativa e estimulará a melhoria da qualidade da gestão pública.
Não conheço nenhuma organização, pública ou privada, bem-sucedida que não trabalhe com metas, acompanhamento e avaliação regular dos resultados. Esse não é o caso da maioria das nossas políticas públicas. Não é por acaso que, no Brasil, que tem uma carga tributária equivalente àquela da maioria dos países do Primeiro Mundo, os serviços públicos são, em geral, de baixíssima qualidade.
A obrigatoriedade de colocar as promessas de campanha no programa de metas torna o processo e as campanhas eleitorais mais responsáveis e estimula a elaboração mais qualificada dos programas.
O programa de metas e o seu acompanhamento permitem à sociedade e à mídia uma avaliação muito mais objetiva do mandato dos eleitos a cargos executivos. O governante será avaliado de forma mais objetiva, e o eleitor poderá estar mais informado para votar de forma mais consciente.
O estabelecimento de metas e a regular prestação de contas aumentam a transparência na gestão pública e inibem a corrupção. Queremos que essa proposta, ao tratar dos interesses e dos anseios de todos os brasileiros, seja abraçada pelo governo e pela oposição.
Todos os partidos políticos, sem exceção, advogam, em seus programas, todos os itens contemplados nessa proposta. Terão, assim, a oportunidade de provar a coerência entre seu discurso e ação. A aprovação dessa emenda constitucional dará um enorme salto de qualidade ao processo político brasileiro.
Oded Grajew, 66, empresário, é coordenador-geral da secretaria-executiva da Rede Nossa São Paulo e presidente emérito do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social. É idealizador do Fórum Social Mundial e idealizador e ex-presidente da Fundação Abrinq. É integrante do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. Foi assessor especial do presidente da República (2003).
Fonte: Folha de São Paulo
segunda-feira, 25 de abril de 2011
A Rio + 20 e o protagonismo brasileiro
Quando mencionamos os grandes eventos que o Brasil vai sediar nos próximos anos, lembramos da Copa do Mundo de futebol e das Olimpíadas. Mas, já no ano que vem, vai se realizar no Rio de Janeiro a mais importante Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável dos últimos tempos. Também conhecida como Rio + 20, a conferência será fundamental para acelerar e dar escala global à transição para uma economia inclusiva, verde e responsável, onde o Brasil tem papel estratégico e decisivo.
Esta é a avaliação de Achim Steiner, diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e sub-secretário geral da Organização das Nações Unidas que está no Brasil para reunir-se com representantes de governos, da sociedade e do setor privado. Num artigo publicado ontem na Folha, Achim afirma: “O engajamento do Brasil será crucial para moldar a ambição internacional para a Rio + 20, ao mesmo tempo em que destacará a experiência do próprio país, desde sua economia à base de etanol até a gestão aprimorada dos patrimônios baseados na natureza, incluindo a Amazônia”.
Em fevereiro deste ano, o Pnuma publicou um relatório denominado “Rumo a uma economia verde: caminhos para o desenvolvimento sustentável e a erradicação da pobreza”, com dados e análises de economistas sobre políticas públicas que podem alavancar a transição para outra economia. O documento foi lançado em Nairobi, capital do Quênia, para servir de base ás discussões sobre desenvolvimento sustentável, rumo à Rio + 20.
Em resumo, o relatório conclui que a economia verde já está aí mas, para tirar do papel as idéias que podem fazer o modelo atual transitar de fato para outro paradigma, mais sustentável, o mundo precisaria investir o equivalente a 2% do PIB mundial por ano. Em 2010, o FMI calculou este PIB em 62 trilhões de dólares. Este investimento também precisa ser feito em dez setores estratégicos como construção civil, energia, água, florestas, agricultura, pesca, transportes, resíduos, turismo e indústria.
O Brasil, sob a presidência de Lula, ganhou, em 2009, o direito de sediar a conferência internacional da ONU sobre desenvolvimento sustentável. E conseguiu pelo destaque que já vinha obtendo com relação ao controle do desmatamento da Amazônia e das políticas publicas de redução da miséria. Contou também o fato de a conferência sobre meio ambiente realizada no Rio em 1992 completar 20 anos. “Rio + 20” é a maneira de informar que 2012, no Rio, será um balanço do que o mundo fez em relação aos compromissos de 1992 e do que fará nos próximos 20 anos. Há dois temas centrais nesta conferência: economia verde e combate à pobreza, com a proposta de criação de uma governança global que alie as três vertentes da sustentabilidade: progresso econômico, equilíbrio ambiental e desenvolvimento humano.
Vale lembrar que a Rio 92 foi o nome da II Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e teve como principal tema a discussão sobre desenvolvimento sustentável. Estiveram presentes 117 chefes de Estado, o maior número já reunido por uma conferência internacional de qualquer natureza, tentando encontrar soluções para os problemas ambientais e sociais do planeta.
De lá saíram o primeiro acordo sobre clima, o primeiro sobre biodiversidade e a resolução de se fazer anualmente a “conferência das partes” sobre estes temas- as Cops. Também é resultado da Rio 92 a Agenda 21, que comprometia as nações signatárias com a adoção de métodos de proteção ambiental, justiça social e eficiência econômica.
A Rio + 20 quer que o desenvolvimento sustentável saia do papel e entre nas práticas dos governos e das empresas. Por isso, trabalha para haver um acordo que garanta o investimento necessário para a transição da economia, por meio de políticas públicas que facilitem o financiamento da inovação; e que transfira subsídios da “economia marrom” para os dez setores estratégicos da economia verde.
Uma das medidas mais eficazes para acelerar este processo é mudar as contas nacionais, incluindo o capital natural como ativo e estabelecendo diretrizes para calcular a sua depreciação.
As empresas brasileiras também assumiram posições avançadas em relação aos temas da sustentabilidade, principalmente em mudanças do clima e na preservação da biodiversidade. No primeiro caso, em 2009, adotando metas voluntárias de redução das próprias emissões de carbono e propondo ao governo federal que também fizesse o mesmo em relação ao país. Isto foi feito. O presidente Lula anunciou publicamente, durante a COP 15, em Copenhague, que o Brasil iria reduzir suas emissões independentemente de acordos internacionais. E, no final do ano, o Congresso aprovou a Política Nacional de Mudanças do Clima, regulamentada no final de 2010, que estabelece redução das emissões de carbono em 38% até 2020. As empresas também lançaram o Fórum Clima – Ação Empresarial sobre Mudanças Climáticas, um grupo de trabalho formado para acompanhar os compromissos de redução de carbono promover diálogos entre empresas e governos em favor dos melhores resultados para as políticas de mudanças climáticas do país.
As empresas brasileiras ainda lançaram em 2010 o Movimento Empresarial pela Biodiversidade (MEB), assumindo compromissos voluntários pela conservação e uso sustentável da biodiversidade e entregando ao governo propostas no mesmo sentido.
Por isso, elas precisam encarar a conferência como uma oportunidade de serem protagonistas da mudança global. Como fazer isso? Uma idéia é contribuir na mobilização da sociedade para os temas do desenvolvimento sustentável.
As empresas podem também fazer propostas que contribuam com o governo na missão de ampliar o debate democrático para toda a sociedade, por meio de consultas a ONGs, sindicatos, outras empresas e entidades de classe sobre o posicionamento oficial do país em relação aos temas centrais da Rio + 20.
Esta conferência também pode ser uma excelente oportunidade para os governos mostrarem os critérios de sustentabilidade adotados para financiar as grandes obras que estão sendo feitas para a Copa e as Olimpíadas.
É importante deixar bem evidente para as centenas de milhares de pessoas que virão ao Rio e para os outros milhões que acompanharão os trabalhos pelas redes sociais ou veículos de comunicação que o Brasil – e nele, as empresas – entendem que a economia, para transformar a realidade e construir o desenvolvimento sustentável para um mundo melhor, precisa ser mais do que verde. Precisa ser inclusiva, verde e responsável. E que nós já estamos nesse caminho.
quarta-feira, 20 de abril de 2011
PEC das metas: oportunidade para ampliar a consciência e a participação da sociedade
Na terça e na quarta-feira da semana que vem, entidades e cidadãos irão ao Congresso conversar com as lideranças de todos os partidos para pedir a votação e a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional das Metas, que prevê a obrigatoriedade do Programa de Metas para os governos federal, estaduais e municipais. A ideia é repetir nacionalmente a experiência pioneira lançada em São Paulo, que é um marco na história da democracia brasileira.
A proposta foi lançada em 6 de abril pela Rede Nossa São Paulo, rede apartidária que congrega aproximadamente 650 organizações da sociedade civil e está buscando adesões via sita http://www.nossasaopaulo.org.br/
De acordo com a Proposta de Emenda Constitucional, o Presidente da República, os Governadores de Estados e os Prefeitos, eleitos ou reeleitos, apresentarão à sociedade civil e ao Poder Legislativo competente o Programa de Metas e Prioridades de sua gestão, até noventa dias após a respectiva posse. Este programa discriminará expressamente: as ações estratégicas, os indicadores de desempenho e as metas quantitativas e qualitativas para cada um dos setores da Administração Pública direta e indireta por unidades regionais de planejamento e desenvolvimento, observando, no mínimo, os conteúdos apresentados como propostas da campanha eleitoral devidamente registradas no órgão eleitoral competente.
Ainda de acordo com a proposta, o Poder Executivo divulgará amplamente até 30 de abril, 31 de agosto e 31 de dezembro de cada ano os relatórios quadrimestrais de desempenho da execução do Programa de Metas e Prioridades.
Esta proposta de lei destina-se a estimular a melhoria da gestão pública e a permitir à população melhor avaliação e o controle das ações, obras e serviços realizados pelo Poder Executivo nos diferentes entes federativos da nação brasileira.
Se aprovada, esta PEC pode representar uma verdadeira revolução política no país.
Em primeiro lugar, porque vai fortalecer o planejamento das ações governo. E ele é alavanca importante para a economia inclusiva, verde e responsável que queremos construir. Afinal, transitar de uma economia tradicional para esta outra exigirá grande esforço da sociedade, principalmente de planejamento. E a questão central de qualquer planejamento é ter metas confiáveis, que possam ser cumpridas. Esta proposta de Emenda Constitucional de Metas cria condições para isto: um planejamento confiável, em nível federal, estadual e municipal, que contribua para a transição a uma economia inclusiva, verde e responsável. A partir da aprovação da emenda, os políticos só vão prometer o que efetivamente podem cumprir e vão realizar o que interessa para a sociedade. A PEC representa, assim, o fim das promessas inconsistentes de campanha.
Em segundo lugar, a aprovação desta PEC promoverá o aumento da confiança do cidadão na política, porque as metas de governos serão transparentes e controladas pelos próprios eleitores. Confiar na política é importante para haver mudança. E não estamos falando de qualquer mudança, mas da transição de uma economia baseada no PIB e no uso extensivo de recursos naturais, para outra inclusiva, verde e responsável.
Em terceiro lugar, esta PEC atacará um dos maiores problemas da administração pública que é o da descontinuidade de projetos e programas na administração pública. Um governante eleito geralmente não dá prosseguimento às ações de seu antecessor. Mas, com um planejamento baseado em metas reconhecidas pela sociedade, será mais difícil deixar de lado programas e projetos considerados relevantes pela sociedade, já que as metas funcionarão como referências para avaliação do governante.
“Prestar contas” passará a ser uma tarefa obrigatória do governante; a cobrança da sociedade pelo cumprimento das metas o obrigará a seguir os princípios da boa administração pública: mais transparência, mais participação da sociedade, menos corrupção e uma gestão pública mais eficiente.
A Rede Nossa São Paulo apresentou projeto semelhante à Câmara Municipal da capital paulista há três anos. Os vereadores aprovaram a “lei das metas” e, em 2009, o prefeito Gilberto Kassab apresentou o plano de metas de sua administração. Desde então, o cumprimento delas vem sendo acompanhado pela sociedade.
É o exemplo que influenciou a atual iniciativa.
Não há porque o Congresso não aprová-la. Afinal, todos os partidos advogam, em seus programas, todos os itens descritos na PEC. Então, mãos à obra.
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Saiba como ajudar a proposta de emenda constitucional que prevê a obrigatoriedade do Programa de Metas para os governos Federal, Estaduais e Municipais
A Rede Nossa São Paulo, rede apartidária que congrega aproximadamente 650 organizações da sociedade civil, apresentou no dia 6 de abril uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que prevê a obrigatoriedade do Programa de Metas para os governos federal, estaduais e municipais. A ideia é repetir nacionalmente a experiência pioneira lançada em São Paulo, que é um marco na história da democracia brasileira. O programa de metas foi apresentado pela Prefeitura municipal de São Paulo, em 31 de março de 2009, em cumprimento à Emenda 30 à Lei Orgânica do Município, que foi aprovada por unanimidade na Câmara Municipal graças à mobilização da Rede Nossa São Paulo.
De acordo com a Proposta de Emenda Constitucional, o Presidente da República, os Governadores de Estados e os Prefeitos, eleitos ou reeleitos, apresentarão à sociedade civil e ao Poder Legislativo competente o Programa de Metas e Prioridades de sua gestão, até noventa dias após a respectiva posse, que discriminará expressamente: as ações estratégicas, os indicadores de desempenho e as metas quantitativas e qualitativas para cada um dos setores da Administração Pública direta e indireta por unidades regionais de planejamento e desenvolvimento, observando, no mínimo, os objetivos, diretrizes, ações, programas e intervenções estratégicas e outros conteúdos conexos, apresentados como propostas da campanha eleitoral devidamente registradas no órgão eleitoral competente. Ainda de acordo com a proposta, o Poder Executivo divulgará amplamente até 30 de abril, 31 de agosto e 31 de dezembro de cada ano os relatórios quadrimestrais de desempenho da execução do Programa de Metas e Prioridades.
Esta proposta de lei destina-se a estimular a melhoria da gestão pública e a permitir à população melhor avaliação e o controle das ações, obras e serviços realizados pelo Poder Executivo nos diferentes entes federativos da nação brasileira.
Clique aqui para acessar a íntegra da PEC
Você também pode ajudar nessa causa!
Ações de mobilização
1) Multiplique o abaixo-assinado em apoio à proposta em seu mailing, site, mala-direta, intranet, boletins, informativos e redes sociais (facebook, twitter, etc);
2) Divulgue em seu site/blog os seguintes links:
Para divulgar o abaixo-assinado:
http://www.nossasaopaulo.org.br/abaixo-assinado-programa-de-metas/
Para baixar os banners + links para reprodução nos sites:
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Para reprodução nas redes sociais:
Facebook – apoie a causa acessando o link abaixo:
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Twitter - reproduza o link abaixo em seu twitter: “Participe e divulgue o abaixo-assinado em favor da proposta que prevê Programa de Metas nacional http://bit.ly/fqrurC #programademetas”
O abaixo-assinado será entregue nos dias 25, 26 e 27 de abril às lideranças partidárias no Congresso Nacional.
É importante que tenhamos o maior número de apoios até a data de entrega da proposta em Brasília. Por isso, solicitamos o seu apoio nesta mobilização.
Veja quem já assinou.
Para esclarecer eventuais dúvidas, por favor, entre em contato com Zuleica Goulart, pelo e-mail zuleica@isps.org.br, ou ainda pelos telefones (11) 3894.2400. Esclarecimento em relação à reprodução dos links, por favor, entre em contato com Guilherme Norberto pelo e-mail guilherme@isps.org.br
Este é o início para uma nova cultura democrática e participativa no país! Participe e divulgue!
Obrigada.
quinta-feira, 14 de abril de 2011
Sustentabilidade e neuroplasticidade do cérebro
A cena se dá em um shopping qualquer: uma moça passeia pelas vitrines. Repentinamente, sua expressão se transforma em um misto de alegria e desejo: “eu preciso comprar este sapato”.
Esta necessidade premente não surge porque no seu armário não haja sapatos. Também não significa que esteja descalça. É só mais um. Mas se tornou necessário. Como consumidora responsável ela pode até investigar a origem do sapato, as políticas do fabricante, as crenças da loja, se a fatura do cartão de crédito aterroriza, lembra-se com compaixão dos que não têm sapatos para calçar, sonha com uma vida mais simples e descomplicada, mas nada disso impede que o ato da compra se consume. Talvez esta decisão da consumidora esteja muito mais condicionada do que podemos imaginar. Mas parece consciente, responsável e sustentável. Será?
Há inúmeras respostas para essa questão. Uma delas vem das neurociências. O fenômeno da plasticidade do cérebro corresponde à possibilidade dos neurônios transformarem sua forma ou função, de modo prolongado ou permanente, em decorrência de uma ação do ambiente externo, ou seja, das nossas experiências.
Em relação a uma cena em que ocorre um acidente de carro, podemos distinguir diferentes níveis de interação. O motorista do carro, por não usar o cinto de segurança, sofre uma fratura de crânio e perde tecido cerebral.
Provavelmente terá um longo processo de recuperação, com a gradativa, e possivelmente incompleta, restauração das funções atingidas. Alguém que passa pelo local no momento do acidente, se impressiona com a gravidade dos ferimentos do motorista e nunca mais se esquece da cena. Uma outra pessoa, lê a notícia sobre o que ocorreu com aquele motorista que não usava o cinto de segurança, e se convence de que é melhor passar a usá-lo.
Nestas três situações há um ponto em comum: o cérebro das três pessoas respondeu aos estímulos do ambiente externo. A primeira sofreu uma lesão. A testemunha teve uma forte impressão emocional. E a terceira pessoa modificou seu comportamento em função das informações a que teve acesso.
Este é o fenômeno da neuroplasticidade, a denominação das capacidades adaptativas do sistema nervoso, especialmente dos neurônios, às condições e experiências de cada indivíduo.
O sistema nervoso modifica sua organização estrutural e funcional em resposta às nossas experiências, desde lesões traumáticas destrutivas, até os processos de aprendizagem e memória. É um fenômeno constante e marcante, que ocorre em todos os momentos da nossa vida. Nada disso é novo, sempre ocorreu. Nova é a consciência a respeito desses processos que ocorrem em cada um de nós. E com isso, novas dimensões de responsabilidade consigo mesmo e com os outros.
Há várias formas de plasticidade, mas interessa-nos, neste momento, algumas daquelas relacionadas aos nossos hábitos, comportamentos, memória e aprendizagem.
O grau de plasticidade varia conforme a idade. No período de desenvolvimento o sistema nervoso é mais plástico, já que tudo está em construção. Na infância, há uma fase durante a qual a influência do ambiente é altamente relevante para o estabelecimento de características fisiológicas e psicológicas do indivíduo. São os chamados períodos críticos.
Na idade adulta, outros mecanismos entram em ação. De qualquer forma, sempre que falamos em plasticidade, estaremos nos referindo a um processo de modificação provocado no sistema nervoso de tal intensidade, que impressionou inclusive os primeiros neurocientistas que se dedicaram a estudar este assunto.
O que se sabe é que, em função das condições ambientais e das nossas próprias experiências, é possível provocar mudanças morfológicas: novos circuitos se formam pela alteração das fibras nervosas; novas configurações do neurônio; ou alteração do número de células de uma determinada região cerebral. Em outros casos, identificam-se correlatos funcionais, ou seja, a modificação das atividades sinápticas de um determinado circuito ou grupo de neurônios.
Ou seja, nossas experiências e interações com o mundo formatam nosso cérebro.
Exemplos da plasticidade sináptica são as decorrentes da teoria de Hebb. Na década de 40, antes mesmo que se tivesse certeza de que as sinapses existiam, este psicólogo canadense propôs uma teoria para a memória com base na plasticidade sináptica. Sua teoria permaneceu sem grande repercussão durante 30 anos, até que neurocientistas passaram a identificar fenômenos comportamentais e celulares que poderiam ser explicados por ela.
Atualmente a noção de memória se tornou muito mais complexa, mas os fenômenos descritos por Hebb podem ser identificados em diversas circunstâncias, e atualmente se tornou um modelo celular e molecular da memória. Trata-se dos fenômenos de habituação, sensibilização e condicionamento clássico.
A habituação ocorre quando a resposta ao estímulo diminui com a sua repetição, até que ele se torna inócuo. Leia-se rotina. Não importa o que aconteça, parece que nada muda.
A sensibilização é resultado de uma aprendizagem em que uma resposta aumenta quando precedida de algum sinal de aviso. Ou seja, é o oposto da habituação. Um estímulo muito forte faz o organismo reagir, e ele fica avisado que outros podem surgir – qualquer que seja o estímulo seguinte (mesmo que seja suave) provocará igual reação. Acho que todo mundo conhece este fenômeno, para o bem e para o mal.
O condicionamento clássico, análogo ao reflexo condicionado descrito por Pavlov, corresponde à associação de um estímulo forte a um único tipo de estímulo inócuo. Quando este último é aplicado sozinho, passa a ser eficaz em provocar a mesma resposta obtida em relação ao estímulo forte.
A plasticidade pode ser benéfica ou não. No final do século XX, os americanos Edward Taub e Michael Merzenich identificaram as causas do fenômeno denominado “membro fantasma”, causador de tanto sofrimento em pessoas que passam por algum tipo de amputação. Muitas dessas pessoas seguiam com a sensação de dor em um membro que não mais existia. Os tratamentos variavam, mas não surtiam efeito.
O que se identificou por meio de registro eletrofisiológico e imagens funcionais por ressonância magnética, é que parece existir uma forte correlação entre o grau de reorganização cortical após a amputação e a intensidade da dor fantasma – não se trata de um fruto da imaginação, e sim o produto de um cérebro que muda com a nova realidade, mas não esquece suas imagens passadas.
Também tem sido demonstrado através das técnicas de neuroimagem que mapeiam regiões funcionalmente ativas do cérebro, que as regiões lingüísticas de pessoas surdas que utilizam linguagem de sinais é bastante diferente em sua organização e extensão; que os cegos têm suas áreas visuais ativadas quando submetidos a estimulação auditiva e quando realizam leitura em Braille; e até que violinistas muito treinados desde a infância possuem maior representação cortical dos dedos da mão esquerda.
Diante dessas evidências, nos cabe indagar: que tipo de neuroplasticidade estamos provocando no nosso próprio cérebro e nos cérebros alheios? Estamos alertas sobre os estímulos aos quais somos submetidos e submetemos os outros de forma repetida e cotidiana? Temos tido responsabilidade sobre isso?
São questões relevantes, cujas respostas ainda estamos construindo. O fato de não sabermos responder deve impulsionar nossos esforços de compreensão, pois nossa sobrevivência futura depende da formulação e adaptação a um novo modo de ser e agir no mundo, ou seja, depende também de uma neuroplasticidade sustentável. Um fenômeno que, de forma invisível e quase imperceptível, vai formatando algumas dinâmicas entre cérebro, mente e consciência.
Consumo consciente deixa de ser somente uma questão de mapear impactos, reduzir custos, simplificar processos, respeitar a natureza. Inclui de fato a relação cérebro e consciência. Ninguém é sustentável sem conhecer as bases de seu processo decisório, sem saber dominar e transformar impulsos e hábitos arraigados até na nossa dinâmica biológica. Não será repetindo o mesmo cérebro de sempre que o mundo irá mudar.
Fonte: Mercado Ético/Blog da Regina Miglori
quarta-feira, 13 de abril de 2011
A pegada ecológica de Campo Grande
Foi realizado hoje, na Faculdade de Economia e Administração da USP, um debate sobre a pegada ecológica das cidades brasileiras, apresentando o resultado do levantamento feito em Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, pioneira neste tipo de avaliação ambiental no Brasil.
A escolha da capital sul-mato-grossense como primeira cidade brasileira a desenvolver essa metodologia se deve a alguns fatores: Campo Grande é a capital do estado que abriga a maior parte do Pantanal, região com enorme riqueza ambiental e ao mesmo tempo ameaçada pela degradação provocada por alguns modos insustentáveis de consumo. Embora Campo Grande esteja na borda do Pantanal e não dentro dele, os impactos causados pelas escolhas de consumo dos moradores da cidade, assim como de outras partes do Brasil e do mundo, têm reflexos sobre a planície pantaneira.
Qual a importância desta informação para o desenvolvimento sustentável que queremos?
A pegada ecológica é uma metodologia usada para medir os “rastros” do consumo humano no planeta. Ela pode ser aplicada a países, cidades e pessoas e corresponde ao tamanho das áreas produtivas terrestres e marinhas necessárias para sustentar determinado estilo de vida. É uma forma de traduzir, em hectares, a extensão de território que uma pessoa ou uma sociedade utiliza para morar, se alimentar, se locomover, se vestir e consumir bens de consumo em geral.
Já existem duas outras “pegadas” que são utilizadas como medidas para verificar o impacto da atividade humana na natureza. A pioneira delas é a “pegada de carbono” que analisa a emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE) a partir de uma atividade ou processo produtivo. A “pegada hídrica”, por sua vez, estabelece o impacto de determinada atividade (produto, processo, serviço, cadeia produtiva inteira ou de uma simples pessoa) sobre os recursos hídricos diretos e indiretos, das regiões onde ela se localiza (ou habita, no caso de pessoas).
Assim,quando comemos um hambúrguer, por exemplo, estamos também consumindo 2.400 litros de água utilizados no processo produtivo do hambúrguer, desde o plantio do capim, dos cuidados e do abate do boi, do transporte da carne, da produção do hambúrguer, da sua distribuição, etc.
A “pegada ecológica” tem outra abrangência. Ela reflete o que se pode chamar de “contabilidade ambiental” que avalia a pressão do consumo humano sobre os recursos naturais. Ela tem uma medida própria – hectares globais (gha) – utilizada em todas as medições, de modo que é possível comparar as pegadas de países, de cidades, de pessoas, de empresas, e verificar se elas estão dentro da capacidade de recuperação ecológica do planeta, também chamada de “biocapacidade”. A relação ideal entre pegada ecológica e biocapacidade é de equilíbrio. Atualmente, há desequilíbrio. A pegada ecológica do planeta é de 2,7 gha por pessoas ; a biocapacidade disponível para cada ser humano é de 1,8 gha. Há, portanto um déficit ecológico de 0,9 gha. Isto significa que o consumo excede a capacidade regenerativa do planeta. Se não mudarmos os padrões de consumo, não teremos mais recursos naturais disponíveis para nos sustentar. Esta informação não é nova; ela é mais uma vez confirmada por outra metodologia, que usa cálculos e parâmetros diferentes, mas chega ao mesmo lugar: o planeta está exaurido.
O Brasil possui uma pegada ecológica de 2,9 gha por habitante, um pouco acima da pegada ecológica mundial. A pegada ecológica do estado de Mato Grosso do Sul é de 2,1 gha. A de Campo Grande, de 3,14 gha. A cidade tem um pouco menos de 800 mil habitantes. Se todas as pessoas do planeta consumissem como os moradores de Campo Grande, seriam necessários quase dois planetas para sustentar este estilo de vida.
A maior parte desta pegada está associada ao consumo de alimentos (45% dos 3,14 gha) e serviços (18%). Nestes itens, é interessante destacar que o alimento mais consumido é a carne e o serviço mais utilizado é o de restaurantes. O campo-grandense consome 90 kg de carne por ano, quando o consumo mundial médio é de um pouco mais de 78kg / ano per capita.
De posse deste perfil de classe de consumo, a sociedade civil organizada, as entidades de produtores rurais e de trabalhadores, a prefeitura, o governo estadual e mesmo a instância federal podem estudar ações para agregar valor à pecuária local, de modo a reduzir os impactos. Por “agregar valor”, entenda-se não apenas tornar a atividade mais ecoficiente, com redução per capita no consumo de recursos naturais. A pegada ecológica só será efetivamente menor se o “consumo absoluto” destes recursos for reduzido. Isto é: mesmo que cresça o número de cabeças de gado, o consumo geral de recursos naturais, diretos e indiretos, da atividade continue caindo. Não é tarefa fácil, mas é o desafio de sustentabilidade que temos pela frente, inclusive as empresas.
Não haverá atividade sustentável sem a redução absoluta no uso de recursos naturais em processos, produtos e serviços. Isto exige altas taxas de criatividade e de inovação em todos os níveis. Exige também mudança individual de comportamento, abertura para aceitar outros padrões consumo. Mas, não é disso que trata o desenvolvimento sustentável?
No site wwf.org.br/pegadaecologica, você pode calcular a sua pegada ecológica e, assim, mudar alguns hábitos de consumo para ajudar a cidade, o país e o planeta. Atitudes individuais são importantes para a transição a uma nova economia, inclusiva, verde e responsável. São as pessoas que mudam a cultura e o comportamento.
terça-feira, 12 de abril de 2011
Novo desenvolvimento recicla velhas ideias
por Kanya D’Almeida, da IPS
A edição de 2011 do “Informe sobre o Desenvolvimento Mundial”, apresentado ontem, centra-se em como os conflitos interferem com o avanço em um planeta onde 1,5 bilhão de pessoas vivem em meio a uma violência incessante ou recorrente. No entanto, muitos economistas progressistas afirmam que o documento, elaborado anualmente pelo Banco Mundial, não se afasta muito das políticas neoliberais que mantêm um status quo mundial de desigualdade.
“Embora o Banco Mundial enfatize a necessidade de haver instituições mais fortes, esta retórica nem sempre segue em linha com as políticas reais”, disse à IPS o economista Mark Weisbrot, codiretor do Centro de Pesquisa em Economia e Política, com sede em Washington. “Na América Latina, por exemplo, muitos governos tentam fazer o correto, mas não têm a capacidade administrativa e isso é algo com que o Banco Mundial realmente pode contribuir”, acrescentou.
“O problema é que o Banco Mundial é parte de um consórcio com o Fundo Monetário Internacional, por isso geralmente acabam apoiando políticas que reduzem a capacidade dos governos, centrando-se na assistência do exterior”, afirmou Mark. “Embora concorde com a prioridade do Banco Mundial de se comprometer com a sociedade civil, é preciso que isto se combine com reformas econômicas mais amplas. Por exemplo, dos 51 países classificados há 40 anos como Menos Adiantados, apenas três progrediram. Isto mostra com que tipo de problema estrutural estamos tratando”, ressaltou o economista.
O relatório 2011, intitulado “Conflito, Segurança e Desenvolvimento”, é essencialmente criação do presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick. Nele são retomadas as ideias de um discurso que fez em 2008 no Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, intitulado “Estados Frágeis: Garantir o Desenvolvimento”.
Segundo o estudo apresentado ontem, as crianças que vivem em Estados frágeis têm o dobro de probabilidade de sofrer desnutrição e o triplo de abandonar os estudos. Nenhum país considerado “frágil” ou assolado pelos conflitos, cumpriu até agora um só dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, e a pobreza é 20% superior em países afetados por ciclos de violência. Para um país em desenvolvimento médio, os conflitos civis custam cerca de 30 anos de crescimento do produto interno bruto.
Todos estes são indicadores da necessidade de mudanças exaustivas no sistema mundial para superar as condições que prejudicam aproximadamente 17% da população do planeta.
Este ano, o informe do Banco adotou uma singular metodologia de compilação, priorizando os dados coletados em pesquisas locais e nacionais prévias, ao mesmo tempo em que tira suas próprias conclusões e faz recomendações. “Nos demos conta de que a comunidade internacional tem de fazer as coisas de modo diferente”, disse o codiretor do Estudo, Nigel Roberts, em entrevista coletiva dada sexta-feira em Washington.
“A violência do Século 21 é fraturada, intensa, complexa, está arraigada e é difícil de eliminar. Por isto, são necessários esforços nacionais, acima de soluções importadas do exterior; o conhecimento sobre como abordar a violência está nos profissionais locais, não nas agências ocidentais e nas instituições acadêmicas internacionais”, afirmou Nigel.
O informe enumera quatro pontos básicos que devem ser abordados com urgência se a intenção é frear os ciclos de violência e desejar um progresso duradouro nos Estados que por várias gerações sofre os efeitos do terrorismo, da repressão política e das injustiças econômicas.
Esses pontos são: melhorar a legitimidade institucional; investir em segurança civil, justiça e emprego; adotar um enfoque nacional-regional em várias pontas para conseguir a mudança, e ter consciência de um cenário mundial impreciso onde os países emergentes e as instituições regionais devem ser potencializados para desempenhar um papel muito mais importante na definição da agenda do Século 21.
“Pão e liberdade não são questões de e/ou. Cada elemento é requisito para que o outro exista e devemos promovê-los simultaneamente”, afirmou Justin Lin, primeiro-vice-presidente e primeiro economista do Banco Mundial. Omar Dahi, professor de Economia para o Desenvolvimento no Hampshire College, disse à IPS que “na última década, o Banco Mundial tentou reverter sua desastrosa posição neoliberal dos anos 1980 e 1990 centrando-se mais no desenvolvimento humano”. Porém, ainda não está claro “se abandonou o modelo neoliberal no plano macro, ao centrar-se na liberalização comercial e na dependência dos investimentos estrangeiros”, acrescentou.
“Este modelo já não é sustentável”, enfatizou Omar, que considera positivo que agora se volte a atenção para as instituições, em lugar de focar apenas na integração, “mas a criação de instituições é um processo difícil”, disse. “Destaco a necessidade de dar poder às cooperativas e entidades sindicais e camponesas mais do que às organizações não governamentais”, ressaltou.
Embora defenda apoio às instituições democráticas fortes, o “Informe sobre o Desenvolvimento Mundial 2011” não reconhece que o Conselho Executivo do Banco esteja dominado pelos cinco doadores mais ricos: Alemanha, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Japão. “Este é o momento para que o próprio Banco Mundial se democratize para que os países em desenvolvimento possam ter maior ingerência em seu modo de operar. O Banco não pode impulsionar a boa governança quando é um exemplo de governança autoritária”, disse Omar à IPS.
Em resposta ao debate que o informe gera a propósito do terrorismo, Daniel Gorevan, porta-voz da Oxfam Internacional, declarou que o estudo não aborda “o impacto que pode ter a ajuda internacional centrada em objetivos militares ou de segurança no curto prazo na exacerbação da violência”. E acrescentou que “vivemos um preocupante aumento do grau da assistência militarizada ou politizada. Isso é problemático, especialmente se esta ajuda não aborda as causas de conflito e coloca em risco as vidas das comunidades ou dos trabalhadores humanitários”. Envolverde/IPS
Fonte: IPS/Envolverde
segunda-feira, 11 de abril de 2011
O sutiã, a infância e a responsabilidade corporativa
por Jorge Abraão
Há alguns, uma polêmica invadiu os blogs e os tweeters brasileiros, repercutindo também nas mídias tradicionais: a venda de um sutiã com enchimento de espuma para meninas de 4 a 6 anos. Para torná-lo mais atraente, o sutiã vinha com personagens licenciados por uma companhia que é sinônimo de família e de confiança.
Embora o produto já estivesse esgotado nas lojas de São Paulo e do Rio, e tenha virado “febre” entre as meninas, os comentários nas redes e na imprensa eram indignados. Falou-se em “adultização” das crianças, em exploração precoce da sexualidade das meninas e até em irresponsabilidade das empresas que produzem e que comercializam o do produto.
A pressão foi tanta que, na quinta-feira, as empresas retiraram o sutiã do mercado e enviaram notas à imprensa, avisando sobre esta retirada. Mas, até o momento, esta ação não foi suficiente para estancar o impacto negativo na reputação delas, já que a indignação continua país afora.
Uma psicóloga da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Maria Luiza Bustamante, chegou a afirmar que um produto deste tipo, necessário apenas para adultos, pode ser prejudicial à formação das crianças. Foi taxativa na sua avaliação: “trata-se de mais uma tentativa da indústria de ganhar dinheiro a qualquer preço, sem se importar com a saúde das crianças”.
É possível que a Promotoria da Infância e da Juventude venha a adotar alguma providência judicial sobre este fato, o que pode acarretar processo para as empresas implicadas.
Este fato nos faz refletir como cidadãos e como participantes do movimento brasileiro da responsabilidade social empresarial.
As perguntas que vêm à mente, a partir desse episódio, são: quais os limites da atuação das empresas em seus negócios? Eles estão evidentes, ou seja, são percebidos como “limites” por todos os “outros” agentes da sociedade? Se sim, o que levou duas corporações com ilibada reputação no mercado a avançar o sinal? O produto vinha sendo um sucesso de vendas, mas vai deixar um passivo na reputação de empresas solidamente posicionadas que será difícil de recuperar em curto prazo. Valeu, então, o lucro financeiro obtido?
Não temos respostas prontas, mas, podemos contribuir para a reflexão a partir de um ponto de vista da gestão socialmente responsável.
Decisões comerciais não devem se sobrepor a interesses da sociedade.
As empresas que estão no mercado só estão por causa de uma “licença para operar” formal e informal. Esta última é dada pela reputação que a empresa constrói ao longo do tempo, de modo que os cidadãos consideram-na importante para suas vidas. Esta importância informal vem se desdobrando, nos últimos tempos, nas diversas demandas “transversais” com as quais um negócio precisa lidar para continuar operando. Por isso, a gestão responsável baseia-se no “diálogo com as partes interessadas” : para entender quais são as demandas transversais e como incorporá-las na estratégia corporativa. Quando o diálogo é bem construído, os limites de cada parte são entendidos – é o que se chama de consenso. Deste consenso podem derivar medidas de autoregulação de empresas e setores e de políticas públicas que passam a ser cobradas dos governos, em suas diversas instâncias. Um bom exemplo de auto-regulação, na sociedade brasileira, é o Conar – Conselho de Autorregulação Publicitária, uma ong fundada em 1980 por entidades representativas das agências de publicidade, dos anunciantes e dos veículos de comunicação. Qualquer cidadão pode encaminhar uma queixa contra ações publicitárias à entidade. Mas ele próprio monitora os anúncios veiculados e, quando considera ser o caso, encaminha “recomendação” para retirar as campanhas do ar. E é atendido.
A existência do Conar demonstra que a sociedade brasileira é de criar e manter mecanismos de autorregulação, mas a discussão sobre o que regular e como ainda precisa ser aprofundada. Precisamos, nós, brasileiros, definir o que consideramos aceitável e o que consideramos inaceitável. Por exemplo: comentamos, na quarta-feira, que o brasileiro almeja a paz como valor para uma sociedade futura, lembram-se? Pois, se isso é mesmo verdade, será que devemos aceitar a proliferação sem critério de jogos e videogames violentos? Se queremos mesmo a paz, está certo presentearmos nossos filhos com armas de brinquedo? Se nos preocupamos com a formação moral de nossas crianças, aceitamos a pressão consumista deles e compramos o que nos solicitam (o sutiã em questão era um sucesso de vendas até ser retirado do mercado)? Estamos ensinando nossos filhos a guiarem-se pela vida por meio de valores como honestidade, orgulho, ou pelo sucesso a qualquer preço?
Hoje, vamos deixar mais perguntas que soluções. Mas talvez seja esta a lição que fica do episódio. Precisamos nos questionar profunda e insistentemente, como cidadãos, profissionais e empresários, a respeito das nossas atitudes e da conseqüência delas para o futuro de nossas crianças.

